Como se determinam os cânones do cinema? Qual o perfil dos realizadores que assinam obras célebres, reconhecidas pela inventividade em forma e conteúdo, que definem o que virá a ser considerado tendência? Pensando nessas questões no recorte estético e histórico do cinema brasileiro moderno, especificamente no Cinema Novo, listamos os nomes de destaque: Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra como precursores; Glauber Rocha, David Neves, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman e Carlos Diegues como os impulsionadores do movimento; e Walter Lima Júnior, Eduardo Coutinho e Arnaldo Jabor para uma segunda geração.

A dominância de homens – que respondem a um perfil de cor, raça, classe, sexualidade e localização geográfica – citados anteriormente aponta a conservação de determinada hegemonia do campo cinematográfico. O retrato dos considerados cânones do cinema brasileiro dos anos 1960 e 1970, período de desenvolvimento e estabelecimento do Cinema Novo, não está em dessintonia com a história que antecede ou sucede o momento.

O Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apresentou em dados o perfil dos agentes do cinema brasileiro contemporâneo e escancarou a alarmante desigualdade de gênero e raça do mercado brasileiro de cinema e audiovisual. A pesquisa A cara do cinema nacional analisou 218 filmes ficcionais de maior bilheteria entre 2002 e 2012 e verificou que 86,3% deles foram dirigidos por homens e 97% por pessoas brancas. Mulheres brancas representaram 13% da direção e 26% de roteiro. Nenhum foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras.

A baixa expressividade de mulheres em funções de destaque é um sintoma histórico. Apesar do cinema brasileiro estar em atividade desde o início dos anos 1900, foi só em 1931 que uma mulher assumiu a função de diretora. Cléo de Verberena (1909 – 1972) é considerada a primeira cineasta mulher do cinema nacional, ainda na fase do cinema mudo, com O Mistério do Dominó Preto. Na década seguinte, mais dois nomes surgiram no meio cinematográfico: Carmem Santos (1904 – 1952) e Gilda de Abreu  (1904 – 1979); seguidas na década de 1950 por Carla Civelli (1921 – 1977) e pela italiana Maria Basaglia (1912 – 1998). 

Helena Solberg e o Cinema Novo 

Para pensar a relação entre gênero e historiografia do cinema brasileiro, o curta-metragem A Entrevista (1966), de Helena Solberg, se apresenta como um caso sintomático. Solberg é reconhecida como a única diretora do Cinema Novo. O engajamento político e o protagonismo feminino são potências de sua filmografia, com destaques para o documentário Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1995), a ficção Vida de Menina (2003) e a Trilogia da Mulher, realizada em conjunto com o International Women’s Film Project.

A Entrevista é o primeiro trabalho de Solberg no cinema e foi filmado em 1964, ano marco do golpe militar no Brasil. O filme foi lançado dois anos depois, em plena efervescência do Cinema Novo, e gerou burburinho na estreia devido a sua temática. Os 19 minutos do curta resultam de entrevistas realizadas com 70 mulheres na faixa de 19 a 27 anos de idade e de classe média alta. As personagens falam sobre casamento, sexo, virgindade, fidelidade, felicidade, trabalho e papéis sociais que são atribuídos ou impostos às mulheres. Para a pesquisadora Karla Holanda, “A Entrevista não é apenas mais um filme dentre outros: sua forma de produção, sua temática, sua estrutura e contexto lhes fazem merecer ser considerado o filme que funda o cinema moderno de autoria feminina no Brasil”. 

A Entrevista não é apenas mais um filme dentre outros: sua forma de produção, sua temática, sua estrutura e contexto lhes fazem merecer ser considerado o filme que funda o cinema moderno de autoria feminina no Brasil.

Karla Holanda (2018)

O desenvolvimento do cinema moderno no Brasil, influenciado pelo neorrealismo italiano e pelo cinema de autor, é também o despertar da consciência política e cultural no cinema brasileiro. O pensamento cinemanovista se cria como uma “vanguarda cultural”, como considera Jean-Claude Bernardet no livro Brasil em tempo de cinema. Para o crítico e pesquisador, os filmes do Cinema Novo buscaram responder questões para o possível fazer cinematográfico no Brasil, a baixo custo, nas ruas, com equipamentos básicos – assim como estabeleceu o neorrealismo. Com a máxima “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, foram estabelecidos parâmetros para realização dos filmes que, ainda segundo Bernardet, traziam radicalismo, envolvimento com a problemática social, retrato do subdesenvolvimento e agressividade (nas imagens e nos temas).

Em questões estéticas, temáticas e formais, o curta de Solberg atravessa as “diretrizes” do Cinema Novo e assume um expresso recorte de gênero. Para captar as entrevistas, a diretora utilizou apenas um gravador e reuniu opiniões diversas sobre questões sociais latentes a partir da experiência feminina. Quanto à temática, Holanda destaca o pioneirismo de A Entrevista ao propor um olhar sobre a classe média brasileira – diversos documentários da época abordavam a classe baixa, com especial interesse pela pobreza das periferias e sertões. Apesar do marco histórico firmado pelo curta e sua realizadora, a historiografia do cinema brasileiro comumente aponta A Opinião Pública (1967), longa documental de Arnaldo Jabor lançado no ano seguinte, como a primeira produção a trazer esse novo recorte de classe. 

Feminismos e subjetividade

Em A Entrevista, Helena Solberg não tenta extrair conclusões de suas personagens, mas investigar e até mesmo evidenciar suas contradições. Falas como “eu não sou contra a experiência sexual antes do casamento propriamente dito” ou que “em muitas horas, pecar contra a castidade é uma obrigação” vão de encontro ao pensamento de outra mulher que reforça que “o sexo é muito puro, é muito bonito para ser levado como está sendo levado”. Essas falas são mantidas em sequência e o tensionamento entre elas trabalha a desessencialização do sujeito feminino.

A narrativa questiona padrões de feminilidade, valores burgueses e como a repressão de uma sociedade que se produz por relações desiguais impacta a construção do pensamento e comportamento das mulheres no contexto sociopolítico do Brasil em 1964. A repressão é expressa visualmente no curta pelas imagens que desviam rapidamente do olhar da mulher que encara os corpos masculinos e, mais explicitamente, nos registros da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ação conservadora que se constituiu antes do golpe militar.

A pesquisadora do cinema brasileiro Maria do Socorro Carvalho destaca na produção documental do Cinema Novo, em maioria curtas-metragens, o interesse especial pela “dimensão histórica dos acontecimentos”, o que engloba temas como o analfabetismo,  o futebol, a questão étnica, a política e o próprio cinema. Podemos acrescentar a essa lista a questão feminista, já que o curta de Solberg antecipa temas que sustentam a segunda onda do feminismo, movimento que só irradia no Brasil na década seguinte.

Neste momento histórico das lutas feministas ocorre a contestação de um modelo que centraliza o poder e autoridade na figura paterna e naturaliza o destino doméstico das mulheres, a maternidade, a dependência financeira e dificulta a participação de mulheres no mercado de trabalho tradicional. Essas questões são discutidas no filme principalmente por mulheres que optaram pelo anonimato e expuseram sem filtros opiniões sobre pautas progressistas e conversadoras que agitavam as estruturas da sociedade brasileira dos anos 1960.

Cabe ressaltar ainda a centralidade oferecida às personagens no desenvolvimento narrativo, contrariando a “irrelevância feminina que predominava entre as personagens de documentários nesse momento”, como bem destaca Holanda em seus escritos. Só na década de 1970, sobretudo a partir da segunda metade, que uma quantidade significativa de filmes brasileiros demonstram plena sintonia com a agenda feminista da segunda onda.

Documentário brasileiro em contexto

Apesar da produção documental ter iniciado no Brasil nos anos 1900, as primeiras realizações dirigidas por mulheres catalogadas são de 1960, de acordo com o catálogo Documentário Brasileiro, do PPGCine (UFF). No decênio de 1960 a 1969, sabe-se que apenas oito títulos, todos de curta-metragem, foram dirigidos exclusivamente por mulheres, contra 234 dirigidos exclusivamente por homens nesse mesmo período. Além de Solberg, constam entre as documentaristas do período Ana Carolina, Gilda Bojunga, Suzana Amaral, Lygia Pape, Maria Aparecida Mattos de Paiva e Rachel Esther Figner Sisson.

É nos anos 1960 que se inaugura a fase moderna do documentário brasileiro, como sugere Bernardet, sob influência de estilos do cinema direto, em que a câmera captura “a verdade” sem interferências, popularizado nos Estados Unidos; e do cinema verdade, quando há interação do cineasta com o meio, objetivando criar determinada realidade (modelo francês). Essas formas de fazer fílmico possibilitaram o debate da realidade social a partir da percepção do “povo”, no entanto, ao contrário dos modelos estadunidense e francês, os cineastas brasileiros apropriaram-se da voz off como recurso para eliminar ambiguidades ou contradições e dar explicações ao espectador sobre a realidade retratada.

A Entrevista, entretanto, se apresenta como uma exceção à tendência. A construção narrativa do curta não é conduzida por uma uníssona narração, mas sim por uma heterogeneidade de vozes em off, por vezes contraditórias, que enfatizam a pluralidade do pensamento das mulheres entrevistadas. O filme não tem a pretensão de afirmar uma verdade, nem de fazer interpretações para quem assiste, recusando assumir qualquer tom doutrinário.

Frame de A Entrevista (1966), de Helena Solberg.

O filme de Solberg, além de antecipar discussões sociais e políticas, também insinua tendências formais do documentário brasileiro. Nele é explorada a percepção subjetiva em primeira pessoa, algo que só se torna mais expressivo no documentário brasileiro a partir dos anos 2000 e avança pelos 2010, com filmes como Um Passaporte Húngaro (Sandra Kogut, 2003), 33 (Kiko Goifman, 2004), Diário de Uma Busca (Flávia Castro, 2010), Uma Longa Viagem (Lúcia Murat, 2011), Elena (Petra Costa, 2012) e Os Anos Com Ele (Maria Clara Escobar, 2013).

Quem escreve história?

Além da escassa presença do olhar feminino por trás das câmeras, o processo de invisibilização da mulher na história do cinema (tanto brasileiro quanto mundial) é um fato. Quando feitos outros recortes para além do gênero, as desigualdades e apagamentos se tornam ainda mais alarmantes. Não basta viabilizar o acesso e pluralizar os agentes que fazem o cinema acontecer: é preciso ainda olhar para lacunas, vasculhar as cinzas e restos, reescrever e preservar.

Como destacam as professoras e pesquisadoras Ceiça Ferreira e Edileuza Penha de Souza, “assim como um ponto de vista masculino que guia a história do cinema foi capaz de abolir o nome de Alice Guy Blaché, primeira mulher cineasta, pioneira na criação de filmes de ficção e na percepção de recursos narrativos, artísticos e políticos do cinema, também a hegemonia da branquitude na história da cinematografia nacional apagou a produção de Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra brasileira”.

Retomando os questionamentos iniciais deste artigo e articulando os dados e observações apresentadas aqui, vale questionar por que o pioneirismo formal, o protagonismo feminino, a relevância temática e os debates feministas no Brasil em pleno Golpe Militar foram escanteados pela história oficial do cinema brasileiro. O impulso de investigar e redescobrir, como também de revisitar filmografias de cineastas, é uma forma de questionar olhares hegemônicos que determinam o que merece (ou não) ser visto e inscrito na história oficial.

REFERÊNCIAS

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BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

CANDIDO, Marcia Rangel; TOSTE, Verônica. Infográfico A cara do cinema nacional: O Brasil das telas de cinema é um país branco. Rio de Janeiro: Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, 2014.

CARVALHO, Maria do Socorro. Cinema Novo Brasileiro. IN: MASCARELLO, Fernando. História do cinema mundial. Papirus Editora, 2015.

DOCUMENTÁRIO E FRONTEIRAS. Catálogo do Documentário Brasileiro. Disponível em: <http://documentariobrasileiro.com.br/catalogo/>

FERREIRA, Ceiça; SOUZA, Edileuza Penha de. “Formas de visibilidade e (re)existência no cinema de mulheres negras”. IN: HOLANDA, Karla; TEDESCO, Marina Cavalcanti (orgs). Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro. Campinas, SP: Papirus, 2017. 

HOLANDA, Karla. “A entrevista de Helena”. IN: AMARAL, Leonardo; ITALIANO, Carla (Orgs.). Catálogo Retrospectiva Helena Solberg. Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2018.

HOLANDA, Karla. Cinema (documentário) e feminismo no Brasil. IN: CORSEUIL, Anelise R.; NÚÑEZ, Fabián; HOLANDA, Karla (orgs.). Cinema e América Latina: estética e culturalidade, 1ª ed. São Paulo: Editora Socine, 2016.

HOLANDA, Karla. Da história das mulheres ao cinema brasileiro de autoria feminina. IN: Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, vol. 24, núm. 1, jan. – abril, 2017. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul: Porto Alegre.

HOLANDA, Karla. Documentaristas brasileiras e as vozes feminina e masculina. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 42, n. 44, p. 339-358, 18 dez. 2015.