Apresentar Jomard Muniz de Britto (8 de abril de 1937, Recife/PE) não é uma tarefa de simples execução. Posso chamá-lo de professor, artista, diretor, poeta, agitador cultural, tropicalista, intelectual, crítico, filósofo, educador e tantas outras definições que não seriam capazes de compreender sua complexidade. Faço essa tentativa de introdução a seu contragosto, já que afirma não gostar de títulos nem de qualquer classificação limitadora. Ele é paradoxal, polêmico e prefere se manter marginal, em trânsito e transe, como costuma falar em entrevistas.

Em sua trajetória, integrou a equipe inicial do Sistema Paulo Freire de Educação de Adultos, sendo preso e precocemente aposentado pelo regime militar em 1964. Apesar das perseguições, continuou atuante e contestador nas salas de aula, formais e informais, com passagem pelas universidades federais da Paraíba e de Pernambuco. Escreveu, entre outros, o livro Do Modernismo à Bossa Nova, prefaciado por Glauber Rocha (que ainda lhe escreveu esta bela carta). Formado em Filosofia, contribuiu com a movimentação do Tropicalismo, assinando o manifesto Porque Somos e Não Somos Tropicalistas (1968).

Dentre as múltiplas atuações e ações de Jomard Muniz de Britto — também chamado por suas iniciais JMB — proponho enfatizar aqui sua presença no meio cinematográfico. Com imagens e experimentações audiovisuais, começou a desenvolver sua poética e anarquia contestadora com uma câmera de uso doméstico. Nos anos 1970 e 1980, Jomard foi um dos mais atuantes do Movimento Super-8 em Pernambuco, junto a Geneton Moraes Neto, Celso Marconi, Fernando Spencer e Paulo Cunha.

JMB/Reprodução

Sua filmografia soma mais de 30 filmes e vídeos, entre eles alguns trabalhos realizados em conjunto ao Vivencial Diversiones, grupo teatral olindense que inspirou Hilton Lacerda na criação do grupo Chão de Estrelas do filme Tatuagem. Os curtas Vivencial I (1974), Inventário de um Feudalismo Cultural Nordestino (1978) e Jogos Frugais Frutais (1979) formam uma trilogia que, ainda que promova críticas direcionadas (aos dogmas, ao conservadorismo, ao consumo do corpo), se propõe à experimentação e evocação queer de corpos e gestos dissidentes. Falo mais sobre a referência de Tatuagem e a realização desses três curtas no terceiro episódio do podcast do Assiste Brasil.

Em paralelo às realizações com o Vivencial, Jomard dirige O Palhaço Degolado (1976/1977), um de seus curtas de maior repercussão e uma das principais obras do Ciclo Super-8 do Recife. O Palhaço interage com a narração do poema Outdoors de Recado, de Wilson Araújo de Souza, em sátiras corrosivas dos mestres da cultura pernambucana encenadas no simbólico espaço da Casa da Cultura de Pernambuco. O local funcionava até 1973 como prisão, construído em forma de cruz para possibilitar a visão de todas as celas. A Casa da Cultura foi usada, inclusive, para prender presos políticos do período da ditadura civil-militar (1964–1984).

A vanguarda contra a retaguarda! A loucura contra a burrice! O impacto contra a mediocridade! O sexo contra os dogmas! A realidade contra os suplementos! A radicalidade contra o comodismo!

Trecho do Manifesto Tropicalista Porque Somos e Não Somos Tropicalistas

Em O Palhaço Degolado são feitas críticas irônicas à obra do escritor Gilberto Freyre e de outros intelectuais atuantes em Pernambuco. O título do filme se associa ao livro de Ariano Suassuna, O Rei Degolado (1976), que traça uma relação paródica do rei com o bobo da corte. Jomard interpreta o Palhaço do filme, degolado pela opressão cultural no contexto da ditadura e por pensamentos provincianos da elite intelectual. Ele prova como a linguagem pode encantar e manipular o outro com frases bem elaboradas, mas que escondem e não desvelam a realidade.

Diversos filmes de Jomard estão disponíveis online na Cinemateca Pernambucana e no YouTube. Alguns outros interessantes curtas do realizador são Uma Experiência Didática (1974), um experimento de aproximação imagética e sensorial do corpo, gesto contestador marca de sua obra; Recinfernália (1976), documentário observacional dos corpos em movimento, que se exibem, caminham e se escondem na cidade do Recife nos anos 1970; e Olho Neles (1982), manifesto contra a censura, com as vozes de Glauber Rocha e Caetano Veloso. A realização mais recente do cineasta é Aquarelas do Brasil (2005), narrado pelo próprio JMB que fala sobre seus sentimentos pelo Brasil.

Para conhecer as múltiplas e complexas camadas do tropicalista marginal, recomendo o documentário JMB, O Famigerado (2011), de Luci Alcântara, o vídeo Eternamente Ágora (1989), de Alexandre Figuerôa e George Moura, e o Inquérito Doméstico Cultural (2017), do Coletivo Acrobata. Está disponível também a recente “não biografia” Jomard Muniz de Britto – Professor em Transe (CEPE, 2017), escrita por Aristides Oliveira e Fabiana Moraes, lançada em celebração aos seus 80 anos.

Filmografia

2005 – Aquarelas do Brasil (curta)

1996 – TAO e TÃO, Quem é ELA? (curta)

1995 – Arrecife de Desejo ou O Palhaço Redegolado

199? – Valores do Presente (curta)

1984 – Bandeira Opus 0 (curta)

1982 – Outras Cenas da Vida Brasileira (curta)

1982 – Tieta do Litoral (curta)

1982 – Olho Neles (curta) 

1982 – Tieta do Litoral (curta)

1982 – Cidade dos Homens (curta)

1982 – Esperando João (curta)

1982 – Paraíba Masculina Feminina Neutra

1981 – A Lua Luta por Lula (curta)

1981 – Noturno Em Ré-cife Maior (curta)

1981 – 1ª Exposição Internacional de Art-Door

1981 – Amanhecendo (curta)

1980 – Exercícios (curta)

1979 – Jogos Labiais Libidinais

1979 – Jogos Frugais Frutais (curta)

1978 – Inventário de um Feudalismo Cultural (curta)

1978 – Cheiro de Povo

1978 – Imitação da Vida

1977 – Discurso Classe Média (curta)

1977 – O Palhaço Degolado (curta)

1977 – Alto Nível Baixo (curta)

1976 – Recinfernália (curta)

1976 – Copo Vazio (curta)

1976 – Palavras

1975 – Toques (curta)

1975 – Folionas ou Paixão de Carnaval (curta)

1975 – Esses Moços, Pobres Moços (curta)

1974 – Ensaio de Androginia

1974 – Infernolento

1974 – Mito e Contramito da Família Pernambucanobaiana (curta)

1974 – Uma Experiência Didática (curta)

1974 – Lixo ou Lixo Cultural (curta)

1974 – Vivencial I (curta)

1974 – Babalorixá Mário Miranda – Maria Aparecida no Carnaval (curta)

* Os filmes foram organizados por ano provável e não corresponde, necessariamente, a ordem de lançamentos. Diversos títulos, hoje dispersos no YouTube, estavam organizados na Plataforma JMB, site não mais disponível. As informações são dos sites Cinemateca Pernambucana e Cinema Pernambucano.