‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais

‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais


Durante pouco mais de uma hora, o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro reúne testemunhos da quase intocável elite brasileira. A classe apresentada em Um Lugar ao Sol (2009) não é aquela que transita entre a classe média, mas que já nasceu em berço de ouro e cresceu vendo o Brasil “por cima”, como explica uma das personagens entrevistadas.

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‘A Frente Fria que a Chuva Traz’ e a luxúria da high society juvenil

‘A Frente Fria que a Chuva Traz’ e a luxúria da high society juvenil


A Frente Fria que a Chuva Traz nos apresenta tudo que há de mais bonito e melancólico no Rio de Janeiro. Na cena inicial, a bela carioca chega em seu conversível importado no Vidigal, favela onde é possível gozar de uma das mais belas vistas da cidade. Para a socialite, não bastava tomar sol em frente à praia do seu bairro nobre. Era preciso também experimentar o marginal. E cinema marginal é justamente a vanguarda de Neville de Almeida, cineasta que volta aos circuitos com mais transgressões, agora ao lado do excêntrico Michel Melamed, o talentoso apresentador de Bipolar Show, do Canal Brasil.

No primeiro álbum de sua carreira, o rapper Criolo fez a música “Vasilhame”, que fala sobre o consumo de drogas e seus efeitos sociais. Seus trechos e o enredo de A Frente Fria que a Chuva Traz são uma (in)feliz coincidência.

Um inocente goró, depois um doce, uma balinha/ O perréco atiçando com as mina de sainha/ Amanhece tubarão e vai dormir sardinha/ Tira sarro dos irmão que só colam com tubaína/ Cheio das graça com um copo de caipirinha/ Saber quem é mais macho no jogo do vira-vira!

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Algo inerente a todos as juventudes, não importa a geração, é o desejo de experimentar. Ostentar experiências, sentir-se incluído e obter prazer a todo custo. Sob estes precedentes, um grupo de jovens aluga uma laje no Vidigal para dar uma festa e experimentar o que é estar numa comunidade, mas claro, sem abrir mão dos luxos da high society: a bebida importada, a balinha, o MD, a maconha e a cocaína.

E eu ouvi falar que umas mina quer entornar/ Enxugar o caneco pra depois snif, snif/ Aaah!/ Os maluco tão ali ó,/ Ah!/ Eles não vão perdoar

Os protagonistas são dois renomados atores globais (Johnny Massade e Chay Suede) e seus personagens são ambos clássicos estereótipos. Homens héteros, brancos, machistas, arrogantes e de classe alta. Ambos convidaram suas amigas socialites, as quais são o tempo todo hiperssexualizadas e tanto elas quanto parecem obter intenso prazer disso, protagonizando cenas que dariam ótimas teses sobre a cultura do estupro.

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“Me vê uma balinha”

“Só por um boquete”

“Tá, vamo ali”.

O grupo de meninas lembra muito as ninfetas da Disney em Spring Breakers e as socialites cleptomaníacas de Bling Ring, dois outros filmes que exploram o niilismo juvenil. Elas sentem prazer no perigo, usam seus corpos para conseguir drogas, bebidas, status e sexo, além de alienarem-se perante a sua condição de personagens fúteis e reprodutoras do machismo. O que Melamed e Neville fazem é expôr a crueza da realidade. Durante a sessão, mais de meia dúzia de pessoas se retiraram da sala. Se vivenciar as cenas do filme já ofende, imagina só vivenciá-las ao vivo? No Rio de Janeiro contemporâneo, é costumeiro. Assim como em Ibiza, Miami, Londres…

“Eu era muito fútil, sabe? Era mesmo”, diz uma personagem enquanto puxa um beque de maconha. “Era muito desrespeitada no bar onde eu trabalhava. Mas aí resolvi sair de lá e abrir meu brechó. Virei uma mulher livre, independente”, revela.

Uma terceira pessoa habita a área VIP do niilismo. Amsterdã é o nome da protagonista interpretada por Bruna Linzmeyer, completa de tomada, entregando uma performance ao mesmo tempo singela e degradante.

Em sua cena de apresentação, Amsterdã explica ao segurança contratado para a festa (Mario Bortolotto, autor da peça que inspirou o filme) o motivo pelo qual ela está ali. Deita-se no chão sujo do banheiro debaixo da privada e alega que não gosta de nenhum dos presentes e apenas vai às suas festas para conseguir droga. “Afinal, rico gosta de gastar em droga cara”. Ela diz ainda como adquiriu a heroína com a qual havia acabado de se picar: através de um boquete.

Além do segurança, dois personagens secundários, mas não menos importantes, compõem o pequeno grupo social do longa —  grupo este que representa uma enorme parcela da sociedade. O dono da laje, “visionário” empreendedor Gru (Flavio Bauraqui), vive a eterna contradição se odeia ou não os playboys que o sustentam. Gru ainda faz o papel de aviãozinho. Afinal,playboy que é playboy não vai à boca.

“Vai lá, Gru, traz pra mim”. Gru recebe uma nota de 100 euros. “Só aceito em dólar, mas vou quebrar um galho pra tu”.

Além do dono da laje, um ex-morador da comunidade e atual cantor sertanejo faz parte da festa. Ele (Michel Melamed) vem descolado, à moda sertanejo universitário, e pede às suas fãs que busquem um copo de uísque importado. Uma das várias fãs inclusive raspa a virilha em sua homenagem, fazendo jus ao refrão de sucesso do artista, o qual fala sobre uma tal mulher “raspadinha”.

O filme apresenta outros três aspectos dignos de mérito: trilha sonora, fotografia e interpretações. A sequência inicial é embalada por um remix do hit “Summer”, de Calvin Harris, com o nostálgico “Sou Foda”, dos Avassaladores, hit do funk carioca que fez sucesso há alguns anos. O funkeiro MC Livinho, conhecido pelas músicas extremamente explícitas, eróticas e machistas, é prestigiado com “Bela Rosa”. A trilha também conta com a figurinha carimbada em festas: “Vamos Beber”, do MC Sapão.

Sem contar com o privilégio de fotografar um filme no alto do Vidigal. Uma estranha ponte conecta a obra a Terrence Malick e Neville de Almeida, em função das cenas com aspecto onírico e por vezes fabuloso, usando uma lente super desfocada.

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Para finalizar, as interpretações são sarcasticamente reais. Por ser adaptado de uma peça teatral, alguns dos diálogos são monólogos carregadíssimos, a nível de palanque público. Os atores entraram na onda e deram seu máximo em cena, fazendo dramalhões quando necessário e jamais medindo palavras.

Perto do fim, Amsterdã apresenta um monólogo arrasador e existencialista em meio a uma festa. Um desabafo, um grito por atenção. A menina aponta o dedo para todos e para si mesma, numa desesperada tentativa de tirar sentido naquilo tudo. Naquele eventos, naquelas pessoas, em si mesma e no estilo de vida de toda uma geração e de toda uma cidade.

A Frente Fria que a Chuva Traz é um retrato cru de quem melhor sabe lidar com o escatológico do ser humano. Neville de Almeida, transgressor do cinema marginal brasileiro, volta com tudo após 18 anos e entrega uma obra que incomoda. Dividi minha atenção entre os boquetes nas mamadeiras cheias de uísque e os senhores que saiam da sessão. Talvez ocupados, entediados ou simplesmente enojados. A high society juvenil é um misto de lírico e melancólico, prato cheio para o cinema. Em meio à paisagem sempre haverá o morro.

Tropa de Elite e o estado patológico de nossa sociedade

Tropa de Elite e o estado patológico de nossa sociedade


A história de Capitão Nascimento (Wagner Moura), Matias (André Ramiro), do tráfico, da polícia e da segurança pública na cidade do Rio, contada em Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010), fixou na mente de grande parte do país. Esses filmes foram vistos por muitos. Juntos, os dois levaram cerca de 14 milhões de espectadores aos cinemas, sem contar com aqueles que assistiram em DVD (pirateado ou não) e também nos diversos reprises na TV a cabo.

Lembro-me de tentar ir ao cinema uma semana pós estreia e não conseguir assistir a Tropa de Elite 2. A fila dava voltas e se estendia pelos corredores do shopping. A popularidade do filme era transparecida nas falas, que se tornaram bordões, e nas cenas icônicas, repetidas e reencenadas em rodas de conversa entre amigos e familiares. E é aí que quero chegar.

Basta questionar a si mesmo, ou para conhecidos, a primeira cena que vem em mente quando se fala de Tropa de Elite. Certamente, muitos vão lembrar do momento em que Capitão Nascimento estapeia um soldado aos gritos de “pede pra sair”. Também pode ser que se lembre da cena em que, novamente ele, Capitão Nascimento, ao ser questionado sobre o destino de um traficante, recomenda que o mesmo seja posto ”na conta do Papa”. Na sequência, o homem é assassinado a sangue frio.

É possível afirmar que em Tropa de Elite a maioria das cenas trazidas à tona são as de violência. Mas por que não se lembrar do momento em que Nascimento, transtornado com a morte de um fogueteiro numa das operações do BOPE, decide voltar à comunidade para procurar o corpo do jovem? Se não da fala de início do próprio Nascimento, numa CPI instaurada pelo deputado Fraga (Irandhir Santos) que investiga a Polícia Militar do Rio de Janeiro? Nesta cena não menos marcante, o personagem de Wagner Moura, depois de servir mais de 20 anos à instituição, diz que a polícia do Rio de Janeiro deve acabar.

Violência em foco

No livro Espreme que Sai Sangue, de Danilo Angrimani, é feita uma análise sobre a prática do sensacionalismo na imprensa e na mídia. Sexo, escândalos privados, apelo linguístico e, ressaltando, violência. Os filmes de Tropa de Elite não são sensacionalistas. Afirmo isso pelo fato de que as histórias são bons recortes de realidades existentes no país. No entanto, é inegável: são bastante violentos.

Quando digo “bastante violentos”, quero na verdade dizer que a violência, aos olhos de alguns espectadores, ultrapassa, em termos de percepção, as principais críticas e levantamentos dos filmes, que são a corrupção policial, o alto nível de humanidade e estresse existentes na vida de um policial, além da crise na segurança pública na cidade do Rio de Janeiro. A violência em atos, que existe no filme para apontar os fatos apresentados anteriormente, é elevada ao destaque aos olhos do espectador brasileiro.

Émile Durkheim, filósofo francês e um dos pilares da sociologia moderna, afirma que uma sociedade muito violenta, a qual extrapola no quesito violência, é uma sociedade doente. Tropa de Elite apresenta uma sociedade extremamente agressiva e, consequentemente, doente. Sendo as cenas que marcam a memória popular aquelas que apresentam um alto índice de violência, pode-se utilizar os filmes de Tropa de Elite como meios de diagnóstico. Nossa sociedade está doente — tão doente quanto aquela apresentada na tela do cinema.

Sobrepor e destacar a violência do filme às críticas sociais que o mesmo apresenta é um sintoma gravíssimo de uma sociedade que se perdeu em algum ponto de sua recente história. Quem assistiu aos filmes fomos eu, você, as pessoas com as quais convivemos, as autoridades representadas e os moradores das comunidades que aparecem no longa. Quem sobrepõe a violência somos nós, também. Deixar a violência tomar essa proporção é coisa de moleque. Seria a solução “pedir pra sair”?

Documentário discute segregação nos estádios do futebol

Documentário discute segregação nos estádios do futebol


Uma denuncia da segregação social nos estádios de futebol brasileiros. Esse é o mote do documentário Adeus, Geral, dirigido por Gustavo Altman, Martina Alzugaray, Matheus Bosco, Pedro Arakaki e Pedro Junqueira. O filme, que trata da “elitização” nas arquibancadas e suas consequências econômicas, sociais e culturais, estreou em uma exibição gratuita no Museu de Imagem e Som (MIS) e será disponibilizado na íntegra na internet este mês.

O documentário faz uma crítica ao crescente custo dos ingressos nos últimos ano e a exclusão da famosa “geral” dos estádios – áreas em que os ingressos eram baratos e eram geralmente ocupadas por torcedores de baixa renda. “As arenas foram sendo construídas e os preços dos ingressos foram aumentando. Assim, muitas pessoas deixaram de ir aos estádios porque os ingressos estão caros. Antes das arenas os preços já estavam caros, mas a partir da Copa aumentou mais”, explica o diretor Gustavo Altman.

Por causa da elitização dos estádios, mostra o documentário, o futebol deixou de ser uma fonte de lazer para todas as classes da população, tornando-se exclusivo para uma camada social de mais poder aquisitivo. Altman conta que os torcedores são a representação, nas arquibancadas, da desigualdade social. “O futebol é um microcosmo da realidade, é uma representação social da realidade. Portanto, como quem tem dinheiro manda, no futebol, o mesmo se aplica.”

Gustavo conta que o processo de elitização, com o afastamento do “povão” dos estádios, teve início após o chamado “Desastre de Hillsborough”, em 1989, na Inglaterra – quando 96 torcedores morreram pisoteados num estádio superlotado para uma partida entre Liverpool e Nottingham Forest. Depois da tragédia, a então primeira-ministra Margaret Thatcher anunciou uma série de medidas que levaram à “modernização” e elitização do futebol, com a exclusão das camadas sociais mais pobres.

O documentário mostra que, no Brasil, após a Copa do Mundo de 2014, a elitização ganhou mais força com a construção das arenas. “A elitização faz com que palmeirenses fanáticos não consigam entrar no Allianz Parque. Da mesma forma, há corintianos que nunca foram ao estádio de Itaquera. O preço dos ingressos selecionou quem faz parte do espetáculo”, afirma Juca Kfouri, em entrevista ao Adeus, Geral.


Por Felipe Mascari, publicado originalmente na Rede Brasil Atual (com modificações) 

Dia do Cinema Brasileiro que critica o Brasil

Dia do Cinema Brasileiro que critica o Brasil


No dia 19 de junho, comemora-se o Dia do Cinema Brasileiro. Falar do cinema nacional vivendo na segunda década deste século é moleza. O circo generalizado na política e sociedade civil são prato cheio para a criatividade artística. Alguém falou uma frase do tipo “o que seria da arte sem a crise?” — não exatamente com essas palavras — mas serve pra ilustrar. Não listo aqui os “melhores filmes brasileiros de todos os tempos” ou agrego todos os meus tantos favoritos. Doeu não botar Kleber Mendonça e Eduardo Coutinho, mas tal qual a sociedade brasileira, preciso abrir mão de interesses próprios a fim de construir algo interessante para a coletividade.

Cronicamente Inviável e as ramificações da flor murcha brasileira

Temos Sergio Bianchi, um cineasta com o qual professores de sociologia adorariam tomar café. Em 2000, Bianchi faz Cronicamente Inviável, que consiste em várias esquetes violentas sobre a miséria de moradores de rua, arrogância da high society, racismo velado e explícito, agressão doméstica, desapropriação de terra, carnaval como manobra de alienação social, discriminação com indígenas, manipulação midiática, abuso de poder dentro do ambiente de trabalho, abuso de poder policial, trabalho infantil, caos no transporte público, cinismo e manipulação midiática, improbidade administrativa dos órgãos públicos e, finalmente, alienação religiosa — esta última concluindo o longa.

Ufa.

Deleite-se com um trecho da infeliz maldade fruto do convívio em sociedade:

Glauber Rocha e os presságios de quase 50 anos atrás

Não é do feitio da geração atual ver filmes como os de Glauber Rocha. Seria cinismo da minha parte dizer que foi divertido pra caramba assistir Terra em Transe. Não foi. Imagens desconfortáveis para os olhos e para a mente, em sua limitação técnica e roteiro pouco palatável. Mas “ser agradável” nunca foi a intenção de Glauber. No filme, o político conservador que agradece em nome de Deus enquanto é coroado é de uma premonição irônica.

Por outro lado, o populista torna-se hipócrita graças a mínima sensação de poder. Cumprimenta o pobre durante a campanha eleitoral mas depois lava as mãos com sabonete. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Quase 50 anos depois, o movimento do Cinema Novo Brasileiro ainda é atual. Já estamos na vanguarda do Novíssimo e o assunto ainda é desigualdade social e corrupção. O transe dura 516 anos.

José Padilha e as Notícias de uma Guerra Particular contra o cinema comercial acrítico

Apesar das inúmeras qualidades, a linguagem de Glauber ainda assim é elitista. Só quem tem paciência para assistir a seus filmes é a elite cultural (e ele sabia disso). Como fazer cinema crítico para as massas? Tropa de Elite tentou, mas o problemático Capitão Nascimento virou herói na opinião pública. Eu lembro quando vi o primeiro filme. A frase “bandido bom, é bandido morto” nunca fez tanto sentido pra mim. Foi preciso revê-lo há alguns meses para discernir a verdadeira face do comandante do BOPE.

Lembro quando assisti Tropa de Elite 2, ainda muito garoto. Odiava o deputado representante dos Direitos Humanos. “Como pode um cara defender bandido?”. Com o passar dos anos, descobri que o deputado não “defendia” bandido, mas a reeducação. Percebi que a sede de matar do BOPE não os faz sair como vitoriosos, muito menos soluciona qualquer problema social. O cinema de massa sempre sofrerá com interpretações imaturas e distorcidas. Que desafio!

Agora, afinal, para quem é a polícia? Ela tem critérios? Ela representa o poder público? Ela representa o poder paralelo? A polícia faz a segurança? É seguro ter polícia? Quem protege e a favela: o poder público ou paralelo? A UPP é realmente pacificadora? A UPP é corrupta? A polícia é corrupta? A gente quer uma polícia que não seja corrupta? Assista Notícias de uma Guerra Particular, de Katia Lund (a que o Meirelles não creditou devidamente em Cidade de Deus) e João Moreira Salles (o produtor do Eduardo Coutinho. Viu, Coutinho? Arranjei uma maneira de te colocar aqui). Enquanto isso, segue um trecho que talvez responda algumas das perguntas.

Pro Dia Nascer Feliz numa sala da aula da educação sucateada

O currículo mínimo da Base Nacional Comum de educação pública é uma vergonha. Só funciona para Sudeste e Sul, pois não considera as diferenças regionais num país multicultural. A educação pública aceitou por anos sua mediocridade e evoluiu — quando não está retrocedendo — a passos de tartaruga. Um lampejo de esperança veio com o fenômeno das ocupações em escolas de redes estaduais. Foi preciso uma pausa na linha de montagem para repensarmos escola.

João Jardim estaria orgulhoso. O documentarista rodou o país para fazer Pro Dia Nascer Feliz, filme que retrata as diferentes formas de fazer educação nas redes públicas de cada região. A beleza do poema utópico de uma menina pobre do sertão, arrepia; mas quem ganha as principais competições literárias ainda é o menino do Sudeste.

Mas não se enganem: o Sudeste não é nenhum supra-sumo. Apenas o menos pior. Em Duque de Caxias, na baixada fluminense, o que impera é a violência, dentro e fora de sala de aula. No entanto, João Jardim chegou a visitar um colégio particular, o tradicional Colégio Santa Cruz, da classe alta paulista. Por lá, alguns alunos que gozam do mais “alto nível” de cultura fizeram algumas reflexões sobre, por exemplo, a pobreza. “Eu fico assim: pô, eu queria ir lá fazer um trabalho voluntário, num sei o quê… Mas vou ter que deixar de ir pra minha aula de natação”…

Macunaíma e o carnavalesco povo brasileiro

Na minha escola, estudamos modernismo esse ano. Dentre os revoltados modernos de plantão lidos em sala, estava Mário de Andrade: criador de Macunaíma, anti herói da literatura nacional, adaptado pro cinema às lentes de Joaquim Pedro de Andrade. Macunaíma é um homem sem caráter; um índio negro; uma criança sexualmente precoce; um 171 de primeira. Em suma: exímio brasileiro.

Numa das passagens mais caricaturais, Macunaíma acha fonte de água numa zona árida, em seu êxodo rural. Ele toma banho e vira branco. No fundo, ele acredita que “se lavar” vai torná-lo branco e permitir que desfrute de alguma ascensão social na metrópole. E na sociedade (não tão) imaginária de Mário de Andrade, Macunaíma desfruta da boa vida que é ser mau caráter num país onde tudo dá certo para este tipo de gente.

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O anti herói brasileiro na Rua Brasil (em algum lugar do Brasil). Foto: Reprodução

O cinema nacional homenageou o Brasil diversas vezes e de diversas formas. Tudo bem que não é uma homenagem tão encantadora, mas fazer cinema por aqui não é lá uma tarefa muito fácil e requer uma sensibilidade mais dura. Há muitas coisas a serem ditas e poucos recursos para conseguirmos dizê-las. No Dia do Cinema Brasileiro, deixo minha homenagem a todos os cineastas que conseguiram a proeza de dizer o que precisava ser dito, além de fazer um pedido: ouça o que essa galera tem a dizer e faça-se ser ouvido.


victorhugoVictor Hugo Liporage

Texto publicado originalmente no Medium.

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