As Duas Irenes e o que encontraram através do espelho

As Duas Irenes e o que encontraram através do espelho


Irene (Priscila Bittencourt) não é mais criança para se sujar enquanto brinca, mas também é reprimida quando pede para pintar as unhas de vermelho. Ela é a filha do meio de três irmãs e se sente à margem dos acontecimentos familiares: enquanto a atenção está centrada na festa de debutante da primogênita, a caçula não perde o lugar no colo.

O desprazer de encontrar-se em um limbo atinge o ápice quando descobre que seu pai tem outra família – e uma outra filha, de sua idade, também Irene (Isabela Torres). O segredo que desvenda e guarda a coloca em um turbilhão de sentimentos. Ela não esconde a ira ao arremessar uma pedra contra a casa de sua “nova” irmã. Aos 13 anos, transforma-se em uma “rebelde sem causa”.

As Duas Irenes, premiado filme de estreia de Fábio Meira, inspira-se na trivial história do homem que trai e se sustenta em mentiras. A trama desenvolve as consequências desse fato, mas não se propõe questionar ou desconstruir paradigmas do patriarcado. Tonico, o pai (Marco Ricca), está sempre rodeado por mulheres subservientes a esperar que alguém tire as botas de seus pés ou sirva sua refeição na cabeceira da mesa.

As Duas Irenes se encontram na entrada do cinema. Descobrem-se "diferentes, mas parecidas". Foto: Divulgação/As Duas Irenes

As Duas Irenes se encontram na entrada do cinema. Descobrem-se “diferentes, mas parecidas”. Foto: Divulgação/As Duas Irenes

A história se centra nas meias-irmãs. O contraste entre as personagens é propositalmente forçado. Está na maneira que se vestem, como agem e até onde vivem (moram em lados extremos da mesma cidade). Nessa jornada de descobertas sobre um “outro eu”, busca-se saber onde começa e termina cada Irene. A ponto que a relação se intensifica, fica mais difícil definir esse limite.

Elas contrariam a impossibilidade de um vínculo, tornam-se cúmplices e confessam experiências no despertar para a sexualidade. A Irene interpretada por Isabela Torres é mais segura acerca de seu corpo e de sua liberdade. Esse aspecto se expressa no figurino e na autoconfiança da personagem, que tem a iniciativa de beijar um garoto, mas extrapola a barreira para a erotização com uma cena de nudez que pouco acrescenta à narrativa.

As Irenes compartilham momentos de reflexão e descobertas em frente ao espelho. Foto: Divulgação/As Duas Irenes

As Irenes compartilham momentos de reflexão e descobertas em frente ao espelho. Foto: Divulgação/As Duas Irenes

Reflexos e espelhos

A câmera, em posição contemplativa, imerge o espectador na atmosfera de revelações e questionamentos. O cuidadoso trabalho de iluminação engrandece e dialoga com o ambiente contagiado pela tensão. Um detalhe está na presença constante de espelhos que formam quadros simbólicos e unem as Irenes de realidades paralelas, mas coexistentes.

Não à toa, um longo plano evidencia “As Meninas”, enigmática pintura de Velázquez que confunde a perspectiva do observador frente à composição. Nesse instante, as duas Irenes chegam a um entendimento tão profundo uma da outra que passam a compartilhar mais do que um nome ou um segredo.

O Filme da Minha Vida: um suspiro em meio ao caos

O Filme da Minha Vida: um suspiro em meio ao caos


Terceiro longa-metragem de Selton Mello, O Filme da Minha Vida pode ser interpretado em seu sentido literal. O filme tem grandes chances de se tornar o grande filme da vida do diretor, roteirista e ainda ator, que ainda poderá figurar um clássico do cinema nacional pelo conjunto de sua obra.

O enredo é baseado no livro Um Pai de Cinema, de Antonio Skarmeta. Selton mostra-se inspirado como diretor, apresenta uma composição impecável de personagem como ator e consegue oferecer uma história emocionante e sem exageros como roteirista. Essa, possivelmente, seja sua melhor performance artística.

Selton Mello e Johnny Massaro em cena de O Filme da Minha Vida.

Selton Mello e Johnny Massaro em cena de O Filme da Minha Vida.

A história é de Tony Terranova (Johnny Massaro), um jovem de Remanso, cidadezinha na Serra Gaúcha, que retorna à sua cidade natal após alguns anos de estudos na capital. Ao chegar, descobre que seu pai Nicolas (Vincent Cassel) voltou para a França no mesmo trem de sua chegada. Tony acaba tornando-se professor e vive conflitos típicos do inicio da fase adulta em paralelo à ausência do pai.

O visual e a fotografia encantam juntamente com uma trilha sonora original. Esses aspectos fílmicos nos transportam para dentro do universo emocional de Tony e proporcionam vivenciar todas as descobertas e agruras de vida do protagonista. Seus problemas, apesar de focados no dilema interno com seu pai, não se limita a isso. Ele também enfrenta instabilidades no cotidiano morando com a mãe Sofia (Ondina Clais) e divide seu coração apaixonado pelas irmãs Madeiras (Bruna Linzmeyer e Bia Arantes).

Luna Madeira (Bruna Linzmeyer), doce e quase ingênua, compartilha a fase de descobertas amorosas junto com ao protagonista Tony Terranova.

Luna Madeira (Bruna Linzmeyer), doce e quase ingênua, compartilha a fase de descobertas amorosas junto com ao protagonista Tony Terranova.

Em todo o filme permeia o sentimento de afeto. As relações familiares, os desdobramentos da ausência de um pai, os primeiros grandes eventos de uma juventude, como a perda de virgindade, o primeiro grande amor e a iniciação da vida profissional. Isso tudo retratado com uma dose de humor muito peculiar, um toque da autoria do diretor.

Com ares de cinema italiano, fotografia em tons pastéis e a junção do popular ao cult, Selton Mello mantém a essência cinematográfica de O Palhaço (2011). A película afetuosa resgata as relações íntimas, tão guardadas no inconsciente de cada um, que vêm à tona na tela de um modo sensível e tocante. O Filme da Minha Vida provoca um suspiro de alívio em meio ao caos.

 

Saudade e a iminência de partir em ‘A Cidade Onde Envelheço’

Saudade e a iminência de partir em ‘A Cidade Onde Envelheço’


Quando dirigiu seu segundo filme, em 2008, Marília Rocha já flertava com a incerteza do pertencer, essa arritmia causada pela iminência da partida. Acácio conta a história verídica de um casal português que deixou o país de origem para encontrar novas oportunidades de vida em Angola, vindo morar no Brasil após 30 anos de estadia na colônia lusa, às vésperas de sua independência. Num segmento da película, Marília narra: “Acácio e Conceição nos receberam em uma casa povoada de bibelôs portugueses e peças africanas. Ela trazia ecos do passado, e indicava que o Brasil era para eles um lugar sem raízes, de onde planejavam um dia retornar à terra natal.”

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Brasileiro não vê cinema alternativo brasileiro porque não se vê nele

Brasileiro não vê cinema alternativo brasileiro porque não se vê nele


Adoro filmes brasileiros. Já foi tempo em que eu cruzava a cidade pra assistir filme brasileiro. Detalhe no cruzar a cidade. É literalmente cruzá-la.

É que moro na zona norte e os cinemas cult do Rio estão na zona sul, eixo rico da cidade. Filme brasileiro não-comercial, simplesmente por sê-lo, entra no bolo “cult”.

E olha que nem moro em bairro periférico. Apesar de levar uma hora pra chegar no cinema, pegava apenas um ônibus. Tem quem leve a duração de um filme pra chegar no cinema.

Ah, e outra: você faz o quê às 14h? Trabalha, né. Sabe que horas passa o filme brasileiro? Adivinha.

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Por que precisamos falar sobre assédio?

Por que precisamos falar sobre assédio?


“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”. Susllem Meneguzzi Tonani, 28 anos, figurinista na Rede Globo, assediada no trabalho por José Mayer, 67 anos, ator renomado.

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