Um convite ao olhar para si em ‘Casa’, de Letícia Simões

Um convite ao olhar para si em ‘Casa’, de Letícia Simões


Fazer cinema é expressar subjetividades e perspectivas em um universo constituído por sons, textos e imagens projetadas na tela. Um filme resulta de um arcabouço de significados adquiridos a partir de uma experiência particular no mundo. O exercício da crítica compartilha dessa mesma premissa, só que no outro extremo desse sistema de emissão, recepção e resposta. Assim, não poderia escrever sobre Casa, longa documental dirigido por Letícia Simões, sem ser afetada por minha própria existência.

Assim como eu, e como tantas, a diretora – que também é narradora e personagem – integra uma família que foge ao ideal que supõe uma organização hierárquica e nos moldes tradicionais. Em um corajoso exercício de observação participante, intercalado pelo resgate de memórias em fotografias e cartas, Letícia registra seu retorno à cidade natal e o reencontro com sua mãe, Heliana, diagnosticada com transtorno de bipolaridade. A câmera, apoiada sobre algum cômodo ou sem estabilidade entre as mãos da diretora, reflete o complexo e instável cotidiano partilhado por gerações de mulheres de uma família de base matriarcal.

A narrativa avança com a construção de uma linha hereditária que perpassa a existência de Letícia, de sua mãe e de sua avó, Carmelita. Resgatando sua ancestralidade, a diretora, ao tempo em que apresenta seu recorte de realidade, também busca compreender as personagens em cena em seus papéis, enquanto avó, mães e filhas, o que inclui a si própria. A história familiar é apresentada sob o enfoque da miscigenação, dos processos migratórios e da violência simbólica nas práticas sociais, transformando o relato pessoal em uma identificação coletiva.

O documentário "Casa", mais do que um resgate da ancestralidade, é um olhar para a impermanência, a fluidez e o tempo sob a perspectiva de mães e filhas

Equilibrado, Casa adiciona ao relato momentos de alívio cômico e não recorre ao suporte emergencial de uma dramaticidade excessiva. Aos momentos de maior emoção, relacionados à saúde mental, fragilidades nas relações, traumas, violências e o medo da morte, Letícia adota um viés poético. O mar, elemento comumente utilizado no cinema para representar emoções, é para a narradora-personagem o lugar de fluxo de memórias, representadas imageticamente por fotografias e corpos em contato com as ondas. 

O documentário, mais do que um resgate da ancestralidade, é um olhar para a impermanência, a fluidez e o tempo. A narrativa avança com o entrelaçamento de três recortes de tempo – o passado, o presente e o presente-futuro – para compreender suas descendências, expor a essência das relações e, ao final, se desconstruir. Para evitar o engessamento, a montagem, apesar de oferecer uma linearidade, é guiada também por um fluxo de questionamentos.

De momentos explosivos, de negação, em que questiona “por que minha mãe é assim”, Letícia conclui a narrativa com serenidade. Invertendo os papéis, ela convida sua mãe a assumir o seu lugar de entrevistadora. “Você queria ter uma mãe normal?”, pergunta. A reflexão que de propõe é a de não enxergar essas mulheres, mães e filhas, como modelos sociais, mas aceitá-las no contexto de suas existências, em suas complexidades, em seus instantes.

Filme visto no 12º Janela Internacional de Cinema do Recife, em novembro de 2019.

Janela de Cinema 2019: guia para os filmes brasileiros da programação

Janela de Cinema 2019: guia para os filmes brasileiros da programação


O Janela Internacional de Cinema do Recife 2019, que acontece entre os dias 6 e 10 de novembro, assume a missão de dissipar a escuridão com a luz que nos desperta para novos mundos e olhares através das telas. A décima segunda edição do festival supera percalços, reagindo com o apoio da coletividade aos ataques políticos e ideológicos que buscam inviabilizar a existência de iniciativas de arte e cultura no Brasil.

Encontrando como alternativa uma campanha de financiamento coletivo, o festival abraçou a tarefa de acontecer de qualquer forma, mesmo que em versão enxuta e com orçamento mínimo. Entretanto, poucos dias antes de ser anunciada a programação completa, três boas surpresas transformaram os rumos da história: o patrocínio da Prefeitura do Recife, a concessão de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual e mais de 270 apoios que atingiram a meta no crowdfunding.

A edição deste ano ganha mais força e, como escreve a equipe em uma carta aberta, reforça a importância de estar junto. A arte do cartaz, assinada por Clara Moreira, enfatiza o sentimento coletivo ao destacar o Art. 215 da Constituição: “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. Em destaque, o Janela traz sessões comentadas, exibições de clássicos, trilha sonora ao vivo e debates em diversos programas.

Agora vamos, enfim, ao objetivo central desta matéria: montar um guia para não perder nenhum filme brasileiro da programação do Janela de Cinema 2019! Contabilizando produções e coproduções, entre curtas e longas-metragens, 27 títulos serão exibidos em cinco dias de festival. Para nossas leitoras e leitores, o Assiste Brasil organizou as exibições por data, local e horário, para garantir que nada fique de fora.

As salas dos cinemas São Luiz, Fundação/Derby, UFPE e do Porto Digital recebem a programação do Janela de Cinema 2019. O preço dos ingressos varia de acordo com o local: no São Luiz, R$ 5 (longas) e R$ 3 (curtas); no Cinema da Fundação/Derby, R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada); e no Porto Mídia e UFPE, R$ 5 (preço único). É possível adquirir os ingressos para as sessões no São Luiz e no Porto Digital antecipadamente pelo site

Dia 06/10, quarta-feira:  Curtas + Trilha sonora ao vivo + O Farol

[Cinema São Luiz]

  • 17h15: especial Programa Farol Aceso com exibição, seguida de debate com as/os realizadores, de cinco curtas-metragens brasileiros: 

_ Cinema Contemporâneo, de Felipe André Silva (PE, 2019, 5’)

_ Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias (PE, 2019, 23’)

_ Tempestade, de Fellipe Fernandes (PE, 2018, 20’)

_ A Mulher que Sou, de Nathália Tereza (PR, 2019, 15’)

_ Swinguerra, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (PE, 2019, 23’)

  • 19h30: primeira exibição no Brasil do média-metragem Jogos Dirigidos, do alagoano Jonathas de Andrade, com trilha sonora ao vivo. No filme, pessoas da comunidade de surdos e mudos do povoado de Várzea Queimada (PI) participam de jogos ao ar livre e narram suas histórias utilizando uma linguagem de signos criada por eles próprios. 
  • 21h: sessão de abertura com O Farol (The Lighthouse), de Robert Eggers. O filme tem coprodução brasileira da RT Features, assinada por Rodrigo Teixeira (A Vida Invisível, A Bruxa). A história revela os estranhos fenômenos que acontecem em um farol após o guardião do local contratar um jovem ajudante. Estrelado por Willem Dafoe e Robert Pattinson, foi vencedor do Prêmio da Crítica da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes.

Dia 07/10, quinta-feira: Curtas + Casa + Bacurau com comentários

[Cinema São Luiz]

  • 15h40: competitiva de curtas no Programa Criar as Leis com sessão seguida de debate. Serão exibidos três títulos:

_ Quebramar, de Cris Lyra (SP, 2019, 27’)

_ Para Todas as Moças (For All The Ladies), de Castiel Vitorino Brasileiro (ES, 2019, 3’)

_ Sete Anos em Maio (Seven Years in May), de Affonso Uchôa (MG, 2019, 42′)

[Cinema do Porto Digital]

  • 17h: sessão de Bacurau comentada pelos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

[Cinema São Luiz]

  • 19h30: sessão especial do longa-metragem Casa, de Letícia Simões, seguida por debate. O documentário é um relato sobre o retorno de uma filha à sua cidade natal e a reaproximação com sua mãe diagnosticada com transtorno bipolar. 

Dia 08/10, sexta-feira: Internacional + Curtas + Divino Amor com comentários

[Cinema São Luiz]

  • 14h: entre os selecionados (lista abaixo) para o Programa Avistados por Vagalumes está a coprodução Brasil/Canadá/EUA Rise, dirigida por Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Os realizadores estão também com o curta Swinguerra, no Programa Farol Aceso.

_ Past Perfect, de Jorge Jácome (Portugal, 2019, 23’)

_ Traveling Shoes (Sapatos de Viagem), de Kevin Jerome Anderson (EUA, 2019, 7’)

_ Rise, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Brasil/Canadá/EUA, 2019, 20’)

_ Vever (For Barbara)/Vever (Para Barbara), de Deborah Stratman (Guatemala/EUA, 2019, 12’)

_ Parsi, de Eduardo “Teddy” Williams e Mariano Blatt (Guiné Bissau/Argentina/Suíça, 2018, 23’)

  • 16h: competitiva de curtas brasileiros no Programa Mudar de Rota, com debate. Quatro títulos integram a exibição:

_ Thynia, de Lia Letícia (PE, 2019, 15′)

_ Teoria Sobre Um Planeta Estranho (Strange Planet Theory), de Marco Antônio Pereira (MG, 2019, 15’)

_ Looping, de Maick Hannder (MG, 2019, 12’)

_ Peixe, de Yasmin Guimarães (MG, 2019, 17’)

[Cinema do Porto Digital]

  • 17h: sessão comentada de Divino Amor comentada por Gabriel Mascaro.

Dia 09/10, sábado: Indianara + SuperOutro + A Febre + Curtas

[Cinema São Luiz]

  • 14h: exibição especial de Indianara, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa. O documentário acompanha a trajetória política e social da ativista transexual Indianara Siqueira na luta pelos direitos de pessoas LGBTI+. Exibido na mostra paralela ACID, no Festival de Cannes. O curta Rosário, de Juliana Soares e Igor Travassos (PE), abre a sessão (seguida de debate). 
  • 18h50: exibição em 35mm do clássico brasileiro SuperOutro (1989), de Edgard Navarro, seguida de debate com a presença do realizador. O super-herói do filme é uma pessoa louca, em situação de rua, que vive em Salvador. De todas as maneiras, ele tenta libertar a si mesmo da miséria e realizar seu grande sonho: voar sobre as ruas da cidade. A Cristalização de Brasília, de Guerreiro do Divino Amor (RJ/DF), é o curta de abertura. 
  • 20h30: na competitiva de longas, A Febre (The Fever), de Maya Da-Rin, coprodução Brasil/França/Alemanha. Ambientada em Manaus, a ficção conta a história de Justino, um indígena Desana de 45 anos, viúvo e que trabalha como vigia no porto de cargas. Sua rotina é quebrada pelo aparecimento de uma criatura misteriosa, a chegada de um novo vigia, a visita de seu irmão e as lembranças de seu passado na aldeia. 

Dia 10/10, domingo: Passagens + Um Filme de Verão + Abismo Tropical

[Cinema São Luiz]

  • 11h: Passagens não é uma produção brasileira, mas volta seu olhar para o cinema brasileiro e por isso integra nosso guia. Codirigido por Lúcia Nagib, professora da Universidade de Reading, no Reino Unido, e por Samuel Paiva, da Universidade Federal de São Carlos, o documentário mostra uma seleção de filmes brasileiros em que a utilização de expressões artísticas constitui uma passagem para as realidades social e política. Apresenta entrevistas com importantes profissionais do cinema, como Kleber Mendonça Filho, Adelina Pontual, João Vieira Júnior e Tata Amaral.

[Cinema da Fundação/Derby]

  • 14h: programa convidado Brasil Distópico Vol. 2 com O Jardim das Espumas (1970), de Luiz Rosemberg Filho. Por trinta anos foi considerado um filme perdido, até a descoberta de uma cópia na França, em 2014. A história é ambientada em um planeta pobre, dominado pela irracionalidade e opressão. O sequestro de um emissário dos planetas ricos colocará toda a verdade em cheque. Rosemberg Filho, falecido este ano, tem como uma das marcas mais fortes de sua produção as questões políticas. Sessão reprise.
  • 16h: na competitiva de longas, o documentário Um Filme de Verão (Sun Inside), de Jô Serfaty. Quatro adolescentes no verão carioca buscam saídas inventivas para escapar de uma cidade em crise. Menção honrosa no DocLisboa e Prêmio Helena Ignez na Mostra de Tiradentes. O curta de abertura é Ilhas de Calor, de Ulisses Arthur (AL, 2019, 20’), também em competição. Sessão reprise.

[Cinema São Luiz]

  • 18h30: exibição especial de Abismo Tropical (Tropical Abyss), do pernambucano Paulo Caldas. O documentário retrata a angústia do diretor/narrador no dia das eleições presidenciais no Brasil em 2018. Sessão seguida de debate. 

A programação completa, com títulos internacionais, atividades e reprises, está disponível no site do Janela Internacional de Cinema do Recife.

// Atualização feita no dia 8 de novembro, às 9h50, devido a alterações de horário na programação oficial \\

Janela de Cinema: como contribuir para que edição de 2019 aconteça

Janela de Cinema: como contribuir para que edição de 2019 aconteça


Um dos mais importantes eventos cinematográficos do Recife, o Janela Internacional de Cinema busca viabilizar a edição 2019 através de financiamento coletivo pelo site Benfeitoria. Os cortes direcionados à Cultura promovidos pela atual gestão do governo federal afetaram os principais editais de apoio, o da Petrobras e do Funcultura, do Governo de Pernambuco.

O Janela de Cinema busca atingir até o dia 7 de novembro metas que vão de R$ 30 mil, mínimo para realizar uma edição simples do festival, até R$ 200 mil, que possibilitaria um festival de maiores proporções. Não há valor mínimo para contribuir com a campanha, entretanto, há recompensas variadas para colaborações a partir de R$ 20.

Segundo a organização, desde a estreia do festival, em 2008, foram contabilizados 130 mil espectadores utilizando em média duas salas de cinema. Entre curtas, médias e longas-metragens, foram exibidos aproximadamente 1.400 filmes contabilizando as 12 edições do festival.

O texto de descrição da Benfeitoria revela que foi cogitada a não realização do Janela este ano. “Logo chegamos ao sentimento de que seria uma prova enorme de coragem cancelá-lo. Não temos esse tipo de bravura. Imaginar a Rua da Aurora deserta à noite esse ano, nas datas reservadas ao Janela, não é uma opção”, completa.

A ação de financiamento coletivo foi a alternativa adotada recentemente pelo Festival do Rio, que caminha com uma campanha bem-sucedida e inicia uma nova fase. Meses antes, o Anima Mundi, segundo maior festival de animação do mundo e o maior da América Latina, foi viabilizado apenas com a colaboração do público após anunciar o congelamento e corte de seus recursos.

Recompensas do Janela de Cinema

Além de contribuir com a realização do 12º Janela Internacional de Cinema do Recife, as/os apoiadores recebem recompensas, tanto simbólicas quanto materiais. O nome das pessoas que fizerem colaborações a partir de R$ 20 recebe menção nos agradecimentos do Janela. Para valores entre R$ 50 e R$ 500, as recompensas variam entre cartazes em A3 do festival e do filme Bacurau (autografado), convites ou passaportes para as sessões e camisas.

Há ainda duas categorias de “Patrono”, para apoios de R$ 1 mil. Além das recompensas anteriores, a/o apoiadora/apoiador pode escolher entre uma reprodução do desenho original das artistas Clara Moreira ou Juliana Lapa ou um kit com 11 pôsteres das edições anteriores.

As/Os apoiadores que contribuírem com R$ 5 mil, ganham camisas e ecobags estampadas com as artes históricas do Janela, além do kit da edição deste ano, cartaz autografado de Bacurau e passaporte de acesso. Por fim, duas opções com foco em empresas oferecem as chancelas de “Patrocinador” (R$ 10 mil) e de “Apresenta” (R$ 25 mil) em todos os materiais e sessões.

Imagem em destaque de Victor Jucá/Divulgação.

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