‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais

‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais


Durante pouco mais de uma hora, o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro reúne testemunhos da quase intocável elite brasileira. A classe apresentada em Um Lugar ao Sol (2009) não é aquela que transita entre a classe média, mas que já nasceu em berço de ouro e cresceu vendo o Brasil “por cima”, como explica uma das personagens entrevistadas.

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“Boi neon”, de Gabriel Mascaro, é o candidato brasileiro ao Goya

“Boi neon”, de Gabriel Mascaro, é o candidato brasileiro ao Goya


O filme “Boi neon“, do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro, irá representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano do Prêmio Goya. Organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha, a premiação é considerada o “Oscar” espanhol e acontece em fevereiro de 2017.

A Comissão de Seleção que escolheu o indicado brasileiro foi composta por profissionais do setor audiovisual a partir de consulta realizada pela Ancine. “Boi neon” foi escolhido a partir de uma lista de 17 candidatos que enviaram suas inscrições. O filme competiu com “Califórnia”, de Marina Person; “Chatô, o Rei do Brasil”, de Guilherme Fontes; “O roubo da taça”, de Caito Ortiz; e “Pequeno segredo”, de David Shurmann, que representará o Brasil no Oscar 2017.

Lançado em 2015, “Boi Neon” participou de diversos festivais nacionais e internacionais, somando mais de 20 prêmios, entre eles o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, melhor filme no Festival do Rio e nos festivais de Cartagena, Adelaide e Varsóvia. O diretor do filme retirou sua inscrição da seleção do Oscar 2016 em repúdio à Comissão Especial do Oscar.

Os finalistas do Prêmio Goya serão anunciados até dezembro. A categoria de Melhor Filme Ibero-Americano é formada por quatro finalistas.

Diretor de ‘Boi Neon’ não irá submeter filme à seleção do Oscar

Diretor de ‘Boi Neon’ não irá submeter filme à seleção do Oscar


O cineasta Gabriel Mascaro comunicou oficialmente que seu filme “Boi Neon” não será candidato na disputa pela indicação do Brasil ao Oscar. A decisão surge em um momento de polêmicas envolvendo a Comissão Especial do Oscar e o filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho.

O diretor disse não se sentir confortável em “participar de um processo seletivo de interesse público que tem demonstrado imparcialidade questionável.” A fala se refere à indicação de Marcos Petrucelli à comissão que escolhe o representante na disputa por uma vaga no Oscar. Petrucelli se manifestou contra Kleber Mendonça Filho devido a seu posicionamento político e criticou “Aquarius” antes mesmo de assistir ao filme.

Na página oficial do Facebook de “Boi Neon”, foi divulgado um comunicado oficial, que diz:

“Decidimos tornar pública a nossa decisão de não submeter o filme BOI NEON à comissão brasileira que indica o representante nacional ao OSCAR 2017. É lamentável que o Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, endosse na comissão de seleção um membro que se comportou de forma irresponsável e pouco profissional ao fazer declarações, sem apresentação de provas, contra a equipe do filme Aquarius, após o seu protesto no tapete vermelho de Cannes. Aquarius foi o único filme latino-americano na competição oficial de Cannes, tendo sido aclamado pela crítica internacional. Diante da gravidade da situação e contrários à criação de precedentes desta ordem, registramos nosso desconforto em participar de um processo seletivo de imparcialidade questionável”

Mascaro, que é pernambucano assim como Mendonça Filho, afirmou ter retirado seu filme da disputa em “solidariedade à recepção politizada de ‘Aquarius'”. “Espero que encoraje outros filmes brasileiros em situação semelhante a pensar a legitimidade do processo”, afirmou à Folha.

Classificação indicativa

Mais um ataque a “Aquarius” veio à tona quando o Ministério da Justiça determinou a classificação indicativa do filme para maiores de 18 anos. A justificativa para tal escolha seriam as cenas de “sexo explícito e drogas”. A distribuidora entrou com recurso, alegando que outros filmes com cenas mais fortes de sexo e uso de drogas tiveram classificação indicava de 16 anos. No entanto, o recurso foi negado.

A título de comparação, “Boi Neon” contém intensas e polêmicas cenas de sexo e recebeu classificação indicativa de 16 anos ao ser lançado no Brasil em 2015. O filme de Mascaro também teve ampla repercussão internacional, tendo sido premiado nos festivais de Toronto, Veneza e do Rio.

Híbrido de cabeça e coração: uma entrevista com Gabriel Mascaro

Híbrido de cabeça e coração: uma entrevista com Gabriel Mascaro


Ideias aparente simples, mas que ao final revelam sua complexidade singular. Retratando a vida cotidiana e trazendo aos olhos questões sociais, o pernambucano Gabriel Mascaro construiu uma carreira sólida em passagem pelos maiores e principais festivais de cinema do Brasil e do mundo.  

Trazendo em suas obras o hibridismo de documentário e ficção, Mascaro revela as variadas faces de um Brasil. Indo de realidades luxuosas, no polêmico Um Lugar ao Sol (2009), às mais populares, como em Avenida Brasília Formosa (2010); tratando da questão de divisão de classes, discutido em Doméstica (2012), e sem esquecer de quebrar e rediscutir estereótipos, como em Boi Neon (2014).  

Ao longo de 10 anos de carreira, o artista e cineasta de 32 anos traz em seu currículo oito filmes, de longas e curtas-metragens, e divide seu tempo entre produzir instalações artísticas, escrever roteiros e, claro, dirigir filmes. Em uma entrevista sobre carreira, mercado e futuro, Gabriel Mascaro fala sobre seus trabalhos e compartilha do sentimento de estar por trás e frente às câmeras.  

Qual o conceito do cinema feito por Gabriel Mascaro?

É difícil definir isso de forma genérica e pragmática. Estou dentro de mim e não me olho de forma distanciada. Prefiro deixar esse trabalho para os críticos. A minha criação é orgânica: sai da alma, da cabeça, da pele e do coração.

Em sua filmografia, percebe-se o cuidado em produzir um cinema conceitual, sempre com uma pegada crítica. Por que optar pela busca de assuntos “polêmicos”?

Não é uma busca pela polêmica, mas sim o desejo de deslocar um ponto de vista. Fazendo isso, conseguimos chegar a “outros lugares”, onde a polêmica termina fazendo parte desse novo jogo de olhar.

Entre ficção e documental, alguns de seus filmes transitam no estilo híbrido. O que você considera no momento de optar por esse método?

É uma pergunta curiosa, mas na verdade não tem regra. Cada trabalho eu me envolvo com novos processos, novos desafios, e tento sair da minha zona de conforto. Em Boi Neon, meu último filme, por exemplo, foi a primeira vez que dirigi atores com experiência.

E em Ventos de Agosto, seu primeiro longa de ficção, você, além de dirigir, também atuou…

Neste filme, precisei acumular várias funções no processo para que meu corpo de realizador também entrasse no jogo de afeto e esforço do qual o filme estava a propor. Foi um processo de construção extremamente corpóreo e artesanal.

Acumular funções para você, no caso, foi uma opção, mas poderia ter sido uma necessidade. Quais as dificuldades enfrentadas pelos cineastas no mercado audiovisual que você destaca?

Fora as dificuldades para captar recursos de produção, o grande desafio a ser vencido numa escala maior é fazer com que os filmes cheguem ao público. Mas essa é uma briga que envolve até acordos na Organização Mundial do Comércio, devido ao lobby do cinema americano no Brasil. Um exemplo claro desse problema pode ser comprovado com Boi Neon. O filme, que entrou em cartaz no Estados Unidos e foi exibido no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, não entrou na programação das salas de cinema comerciais do Rio Mar e Shopping Recife, dois grandes shoppings de Recife (PE).

Quanto ao cinema pernambucano em geral. Como você prevê o crescimento de produções e do mercado local?

Estamos vivenciando em Pernambuco um processo muito saudável que mistura projetos de filmes ousados e originais, que se somam a uma consolidação de uma política pública estadual que até agora vem valorizando esse cinema de invenção. No entanto, está em curso uma série de mudanças nas leis de incentivo no estado de Pernambuco. Espero que não tenhamos retrocesso na política pública.

Para finalizar, uma autorreflexão. Você é um dos poucos cineastas desta década que, em tão pouco tempo, produziu filmes quase que ininterruptamente e esteve muito presente em festivais nacionais e internacionais, sempre colhendo bons resultados. O que você tem a dizer sobre isso? 

Trabalhei exaustivamente nestes últimos anos 10 anos para conseguir materializar as ideias. Hoje sinto que “bateu a canseira”. Os anos passaram e preciso diminuir o ritmo. O corpo já não acompanha mais a velocidade do cabeça, sempre a mil. Já estou trabalhando em um novo projeto, mas não ligado ao cinema. Meu próximo trabalho será uma série fotográfica sobre separações, chamado Desamar.

Edição: Fernanda Mendonça 

Valeu um boi, valeu um homem

Valeu um boi, valeu um homem


Uma cena não resume tudo, mas abre caminho para o baião. Imagine a imagem clichê do riacho com lama petrificada no meio do sertão. Como clichê, comunica o lugar de referência para muitos de nós sobre uma região inteira do Brasil. Mas um filme é aclamado quando reconstrói o discurso e, justamente, sugere novas imagens. É o que  faz Boi neon, que abriu na última sexta-feira (6) a mostra competitiva de longas do oitavo ano do Festival Janela Internacional de Cinema do Recife. A imagem do mesmo riacho seco é agora revisitada com uma chuva colorida de retalhos desovados pela indústria têxtil. Dali saíram saias, shorts, blusas e um vaqueiro costureiro.

O filme está esperto para o lugar que o sertão e o sertanejo passaram a ser, onde convivem a tradição com pezinho nos séculos 17 e 18 da vaquejada e a produção industrial. E não é de agora: em 2013, cidades como Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, todas no interior de Pernambuco, já acumulavam oito mil empreendimentos ligados à fabricação de roupas. À época, era o segundo polo têxtil do país, título conseguido após uma década de investimentos. A vaquejada, por outro lado, também se transforma. A prática secular deixa de ser um mero divertimento entre fazendeiros que criam o gado solto no mato para ser uma atividade amplamente capitalista, de criação pecuária e espetacularização, com circuito de shows e patrocínio de empresas multinacionais.

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Boi Neon, de Gabriel Mascaro/Reprodução

Esse espaço em mudança ganha voz com Iremar (Juliano Cazarré), Galega (Maeve Jinkings), Zé (Carlos Pessoa) e Cacá (Aline Santana), que vivem de criar gado. No roteiro, Cacá pode ser comparada à personagem Jéssica (Camila Márdila), de Que horas ela volta?, uma vez que funciona como um catalisador e questionador da posição social de cada um, inclusive dela mesma. O filme de Gabriel Mascaro prefere mostrá-la sempre perto dos animais e longe do ambiente doméstico. A menina sonha em conhecer o pai e é filha de Galega, que a criou junto aos vaqueiros e ao curral. O maior sonho de Cacá, porém, é comprar um cavalo, principalmente em uma realidade onde os bois são derrubados e comem terra enquanto os equinos reinam. Mas é claro que Cacá não está longe do contexto em que está inserida e reproduz alguns estigmas (em uma cena, ela chama a mãe de puta por comprar uma “calcinha sexy”).

Na outra ponta está Iremar, cujo papel no desenrolar da trama desperta surpresa, pela tentativa de fugir do lugar comum na representação. Uma cena que alinhava isso acontece entre o vaqueiro, sentado ao volante do caminhão, e Galega, posicionada de joelhos e de bruços para Iremar. Enquanto o público espera que os dois se beijem, a sequência seguinte é de Iremar tirando as medidas do corpo da mulher para o que virá a ser a nova roupa dela. Em dias de vaquejada, Galega faz danças sensuais vestida com as criações de Yremar (enquanto costureiro, o vaqueiro assume nome artístico) e uma máscara com forma de cavalo. É uma provocação ao papel da mulher na sociedade e uma relação de humanização-animalização no filme.

A figura do vaqueiro não esbarra em Iremar e no parceiro Zé. Mascaro põe em cena um novo cabra: Júnior (Vinicius de Oliveira), que usa presilha para dar conta do cabelão, alisado com chapinha e esmero nas manhãs. O personagem aparece para substituir Zé, que roubara o sêmen de um cavalo reprodutor valioso em um leilão de vaquejada.

 

Sexo como chancela

Talvez o pecado do filme seja a forma como a sexualidade do cabra Iremar é “chancelada”. Isso aparece em uma das últimas sequências da película, em que ele e Geise (Samya de Lavor) transam. Os dois se conhecem aparentemente por acaso, quando a vendedora Geise oferece cosméticos para o tratador de boi. É como se essa posição desconstruída do papel do vaqueiro (que assina roupas brilhosas e decotadas para Galega, que não se masturba ao ver uma mulher nua na revista pornô, que trabalha para comprar uma máquina de costura Overlock) tivesse que gritar a heterossexualidade a partir, unicamente, do sexo.

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Maeve Jinkings é Galega em Boi Neon/Divulgação

O mesmo ocorre ao longo do filme quando a sexualidade de Iremar é questionada pelo parceiro e cuidador de bois Zé. Em alguns momentos, Iremar retoma o preconceito com a mesma moeda e chama o amigo de “frango”, um vocativo pejorativo que significa homossexual para os nordestinos e com uso similar a “viado”. O argumento do diretor pode ser o de que os diálogos não se desenvolvem a parte de uma realidade, e sim estão colados em um contexto de desigualdes e de representações de gênero e sexo. Esse contexto gritante em que os personagens se inserem é marcado em todo o filme, também, pela escolha de músicas e letras. Exemplo: a cena em que Iremar costura enquanto ouve Meu vaqueiro, meu peão (Eu estou sempre onde ele está/ Forró, vaquejada, qualquer lugar/ Eu vou seguindo o meu peão), cuja temática reforça a paixão entre uma mulher e um vaqueiro, de certa forma submissa.

Boi neon é o grande vencedor do Festival do Rio, ganhador do Prêmio Especial do Júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza e condecorado com menção honrosa no Festival Internacional de Toronto. É sobre o sertão, a vaquejada, a moda, as relações de animalização e humanização (como na última cena da película, em que Iremar imita o mugido do boi e os olha com o mesmo olhar meticuloso com que medira a cintura de Galega dias atrás) e, sobretudo, sobre o preenchimento de subjetividades nesse campo árido e vasto. Valeu, boi!

Realizador

O nome por trás da direção e do roteiro de Boi neon é Gabriel Mascaro, um dos cineastas mais engajados da produção audiovisual em Pernambuco. Mascaro tem uma trajetória, no cinema, muito ligada a temas sociais e é marcante o gosto pelo gênero do documentário. A exemplo de KFZ-1348 (2009), sobre a história de um fusca que percorre o Brasil desde 1965, passa por oito proprietários e vira sucata no Recife; e Um Lugar ao Sol (também lançado em 2009), que discute o universo de moradores de coberturas em cidades como Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Antes de Boi neon, Mascaro guiou o longa Ventos de agosto, sobre uma relação de amor em crise sob o pano de fundo do vento e da maresia e de um processo de migração ou retomada cidade grande-vila. O longa tem como protagonistas Dandara de Morais e Geová Manoel dos Santos e foi premiado, entre outros, no Festival de Brasília, no Janela Internacional de Cinema do Recife, no Festival de Cinema Luso-Brasileiro e no Festival Internacional de Filmes Independentes de Istambul.

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