Geneton Moraes Neto e suas histórias imortalizadas por Jorge Furtado

Geneton Moraes Neto e suas histórias imortalizadas por Jorge Furtado


O jornalista, escritor e também cineasta Geneton Moraes Neto faleceu nesta segunda-feira (22), aos 60 anos, no Rio de Janeiro. Ele entrevistou personagens históricos, entre eles Ariano Suassuna, Woody Allen e o assassino de Martin Luther King. Como diretor, gravou o documentário “Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro”, que revela a visão de Glauber Rocha sobre a política no Brasil.

Em 2014, foi um dos personagens entrevistados por Jorge Furtado para o documentário sobre mídia e democracia “O Mercado de Notícias”. Geneton fala sobre sua trajetória como jornalista, que iniciou precocemente, aos 13 anos, com uma coluna no caderno infantil do Diário de Pernambuco. Uma conversa repleta de ensinamentos, histórias e de poesia do cotidiano.

A entrevista está disponível na íntegra no canal do YouTube da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre. Assista:

Kleber Mendonça Filho se posiciona sobre Comissão Especial do Oscar

Kleber Mendonça Filho se posiciona sobre Comissão Especial do Oscar


Na última semana, o Ministério da Cultura (MinC) divulgou os nomes que integram a Comissão Especial que irá escolher o filme represente do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017. Entre os nove escolhidos, está o crítico Marcos Petrucelli, que criticou o filme “Aquarius” antes mesmo de assisti-lo e se manifestou como contrário ao posicionamento político do diretor Kleber Mendonça Filho.

Estrelado por Sonia Braga, “Aquarius” conquistou a atenção da crítica internacional ao concorrer ao Palma de Ouro no Festival de Cannes, um dos três maiores e mais tradicionais festivais de cinema do mundo. No tapete vermelho, Kleber Mendonça Filho e elenco do filme fizeram um protesto contra o impeachment da presidenta eleita Dilma Roussef, denunciando o golpe em curso no Brasil.

aquarius tapete vermelho

Definida a comissão do Oscar, com nomes indicados pelo secretário do Audiovisual Alfredo Bertini, o repórter Guilherme Genestreti escreveu a notícia de que o “crítico contrário a Kleber Mendonça Filho vai integrar comissão do Oscar“. Em resposta, Petrucelli escreveu um artigo em que tenta negar as observações feitas, ressaltando que seu posicionamento contrário a Kleber Mendonça Filho é de cunho político e contesta que “Aquarius” seja “candidato natural” à vaga.

Em uma tréplica, o repórter Genestreti voltou a falar, desta vez comentando a resposta do membro da comissão. Ele justifica a afirmação de que “Aquarius” deve ser considerado candidato natural à disputa e diz que o crítico usou o “espaço do jornal como arena para mais uma vez despejar ingênuos argumentos do Fla-Flu partidário”, faltando-lhe “argumentos cinematográficos”.

O que acha Kleber Mendonça Filho

Apesar da repercussão nas redes sociais e livre discussão via colunas da Folha, Kleber Mendonça Filho vinha se mantendo neutro diante à nomeação de Marcos Petrucelli à Comissão Especial. Em seu perfil do Facebook, o cineasta fez uma postagem em que escreveu: “Vou precisar me posicionar sobre essa questão que está borbulhando há mais de uma semana sobre a Comissão que escolhe o filme brasileiro do Oscar.”

E falou. Em entrevista ao The Intercept Brasil, Kleber falou sobre a polêmica e também deu sua opinião sobre o processo de impeachment e compartilhou suas expectativas para o lançamento do filme no Brasil. Após o protesto de Cannes, o ministro interino da Cultura Marcelo Calero criticou abertamente a atitude da equipe. O cineasta rebateu a crítica de Calero, lembrando que “isso faz parte do jogo democrático”.

Questionado sobre um possível “boicote” do MinC a “Aquarius” e fazer campanha contra o filme, disse achar cedo demais para se posicionar. “O que tenho em mãos é o fato de uma das pessoas da Comissão Especial responsável pela seleção, o crítico de cinema Marcos Petrucelli, desde o festival de Cannes, vir atacando de uma maneira muito raivosa não só ao filme, mas a mim e à equipe. Me parece algo completamente inadequado. Isso sim, é material para ser questionado”, falou.

Sobre a decisão do atual secretário do Audiovisual de convidar para integrar a comissão alguém que já vinha se manifestando abertamente contra seu filme, antes mesmo de assistir, Kleber avalia: “Me parece extremamente inadequado que essa pessoa que já vinha se posicionando publicamente seja especificamente convidada para compor a comissão de escolha do filme brasileiro que vai ao Oscar em 2016.”

Leia a entrevista na íntegra realizada pela repórter Helena Borges no site do The Intercept Brasil.

Quando as câmeras de Glauber Rocha chegaram à Espanha franquista

Quando as câmeras de Glauber Rocha chegaram à Espanha franquista


Nos anos 1960, até meados da década seguinte, Glauber Rocha liderou no Brasil o movimento do Cinema Novo, corrente artística que atacava o modelo narrativo importado dos Estados Unidos e se inspirava fortemente pelos movimentos europeus da Nouvelle Vague e Neorrealismo Italiano. Em 1970, quando já era um cineasta reconhecido por Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, viajou até a Espanha para gravar seu quinto longa-metragem: Cabeças Cortadas.

O reencontro de Glauber com a conexão Brasil-Espanha aconteceu por intermédio de Fermín Sales Segarra. Licenciado em Comunicação Audiovisual pela Universidade Jaume I de Castelló, realizou o seu primeiro documentário quando cursava especialização em Cinema Documentário pela Universidade Autónoma de Barcelona, no Mestrado de Documentário Criativo da UAB.  Nasceu, assim, o curta-metragem documental El Viaje Glauber.

As gravações de Cabeças Cortadas aconteceram na Espanha durante a ditadura do general Francisco Franco, período conhecido como franquismo. O longa retrato uma história de decadência, poder e delírio protagonizada por um ditador latinoamericano. O curta de Fermín , El viaje Glauber, parte do fracasso de Cabeças Cortadas para reivindicar o filme e o cinema de Glauber Rocha e o cineasta explica em detalhes na entrevista exclusiva para o Assiste Brasil:

Fermín, como aconteceu o despertar de seu interesse pelo cineasta brasileiro Glauber Rocha?

Descobri o Glauber aos dezoito anos numa viagem à Barcelona. No museu MACBA, na exibição chamada Estão Preparados para a Televisão?, projetaram numa tela gigante um programa inteiro de Abertura, que contava com a participação Glauber Rocha e era exibido na TV Tupi durante os anos de redemocratização do Brasil. Impactou-me muito ver aquela pessoa, assim, em primeiro plano, discursando e falando fervorosamente sobre as coisas que gostava e também as que não gostava; de seus costumes culturais. Essa fascinação me fez querer descobrir mais, foi assim que o conheci como um cineasta de primeira ordem mundial.

Foi então essa fascinação que fez surgir a ideia inicial do que viria a se tornar o seu primeiro documentário?

A ideia original nasceu de uma base obsessiva, partindo de meu interesse pelo tema. Interessa-me o cinema espanhol, o cinema da modernidade ou o grande cinema das periferias, e conhecendo o Glauber descobri que ele já havia filmado na Espanha. Na época, seu filme teve um sucesso estranho quanto à produção e resultado final. Saber disso me motivou a querer ir a fundo nesse pensamento. Parecia-me uma história muito interessante e totalmente desconhecida, a qual poderia ser transformada em uma peça documental.

Cabeças Cortadas (1970) é o quinto filme de Glauber Rocha e foi gravado na Espanha franquista. Foto: Reprodução

Como foi esse caminho da ideia à produção final?

Quando estava cursando o mestrado, pensei no projeto que desde o primeiro momento consistia nisso: Glauber Rocha filmou na Espanha nos anos 1970 e seria bom revisar o porquê, as causas do fato dessa filmagem em plena ditadura franquista, já que é uma coisa complexa ou estranha. Esse era um bom ponto de partida. Daquele instante em diante, o projeto foi tomando forma, passando por fases de produção e se desenvolvendo mais. Cade vez iam se incorporando mais companheiros ao meu trabalho e, finalmente, em um pitching de seleção de projetos para televisão pública catalana e espanhola, tive minha ideia escolhida para ser produzida e financiada.

Houve mudanças e adaptações nesse processo?

Da ideia original à ideia final, realmente mudou bastante. Vendemos o projeto no início como uma viagem à memória. Seria uma explícita: queríamos ir para um lugar e para outro, como um road movie, buscando as pegadas de Glauber. No teaser que apresentamos já tínhamos incluído duas cenas, uma da praia e outra filmada em Sant Pere de Rodes, mesmas locações utilizadas por Glauber em 1970. Foi um grande processo, com muitas crises e discussões, positivas e negativas, e também muitas mudanças. O que parecia sere um filme fácil no início, tornou-se um filme difícil; e depois foi fácil de novo. Foram muitos altos e baixos, como todas as produções, suponho.

Sobre a correspondência, as cartas trocadas entre o diretor e o produtor, como você as descobriu e decidiu utilizá-las na montagem?

Eu sabia da existência das cartas, mas as tinha rejeitado desde o início porque não as achava importantes. Elas nunca estiveram presentes no processo de construção do roteiro. No entanto, as cartas acabaram sendo introduzidas na montagem como voz de Glauber: que pensava o próprio diretor sobre o seu filme? Foi com essa questão que chegamos à conclusão de que poderiam ser válidas e complementar, assim, o diário de filmagem. Rapidamente a Filmoteca Valenciana as cedeu a nossa equipe. Esse detalhe realmente deu um peso fundamental, principalmente ao final do filme.

Cartas de Glauber Rocha que compõem a montagem do documentário El Viaje Glauber. Foto: Reprodução

No final do filme, numa das correspondências, o Rocha diz que Cabeças Cortadas foi uma biografia audiovisual do inconsciente de Franco. Você acha que isso foi assim desde o início?

Bom, ele dá esta visão dupla, que também reforça a mitologia e a simbologia que o filme pretende passar. Acho que Glauber não pensava em Franco quando escrevia o roteiro. Aquela era simplesmente uma continuação de Terra em Transe noutro contexto mais europeístico, mais cavaleirístico, mas que também trazia uma a referência nacional. Mas acredito também que essa comparação com o Franco é totalmente legítima.

Por quais festivais passou o documentário El Viaje Glauber e qual é a sensação de colher esses resultados?

Fico muito contente com o reconhecimento que teve o filme. Passamos na seleção oficial do Festival de Málaga, o mais prestigioso do estado, dedicado exclusivamente ao cinema espanhol, e também marcou presença em outros festivais de curta-metragens, como Corto y Creo, no Santander, e o Zinebi, em Bilbao. Esteve presente também no Festival de Sitges, numa secção paralela dedicada a novos criadores, além da estreia internacional no festival brasileiro FestcurtasBH, que pelo que eu sei é bastante prestigioso dentro do mundo da curta-metragem, com quem, portanto, também estou muito agradecido.

Assista ao documentário El Viaje Glauber, de Fermín Sales Segarra, Víctor Sanz, Estel.la Muñiz, Cristina Algarra y Davani Varillas, na íntegra:

 

Híbrido de cabeça e coração: uma entrevista com Gabriel Mascaro

Híbrido de cabeça e coração: uma entrevista com Gabriel Mascaro


Ideias aparente simples, mas que ao final revelam sua complexidade singular. Retratando a vida cotidiana e trazendo aos olhos questões sociais, o pernambucano Gabriel Mascaro construiu uma carreira sólida em passagem pelos maiores e principais festivais de cinema do Brasil e do mundo.  

Trazendo em suas obras o hibridismo de documentário e ficção, Mascaro revela as variadas faces de um Brasil. Indo de realidades luxuosas, no polêmico Um Lugar ao Sol (2009), às mais populares, como em Avenida Brasília Formosa (2010); tratando da questão de divisão de classes, discutido em Doméstica (2012), e sem esquecer de quebrar e rediscutir estereótipos, como em Boi Neon (2014).  

Ao longo de 10 anos de carreira, o artista e cineasta de 32 anos traz em seu currículo oito filmes, de longas e curtas-metragens, e divide seu tempo entre produzir instalações artísticas, escrever roteiros e, claro, dirigir filmes. Em uma entrevista sobre carreira, mercado e futuro, Gabriel Mascaro fala sobre seus trabalhos e compartilha do sentimento de estar por trás e frente às câmeras.  

Qual o conceito do cinema feito por Gabriel Mascaro?

É difícil definir isso de forma genérica e pragmática. Estou dentro de mim e não me olho de forma distanciada. Prefiro deixar esse trabalho para os críticos. A minha criação é orgânica: sai da alma, da cabeça, da pele e do coração.

Em sua filmografia, percebe-se o cuidado em produzir um cinema conceitual, sempre com uma pegada crítica. Por que optar pela busca de assuntos “polêmicos”?

Não é uma busca pela polêmica, mas sim o desejo de deslocar um ponto de vista. Fazendo isso, conseguimos chegar a “outros lugares”, onde a polêmica termina fazendo parte desse novo jogo de olhar.

Entre ficção e documental, alguns de seus filmes transitam no estilo híbrido. O que você considera no momento de optar por esse método?

É uma pergunta curiosa, mas na verdade não tem regra. Cada trabalho eu me envolvo com novos processos, novos desafios, e tento sair da minha zona de conforto. Em Boi Neon, meu último filme, por exemplo, foi a primeira vez que dirigi atores com experiência.

E em Ventos de Agosto, seu primeiro longa de ficção, você, além de dirigir, também atuou…

Neste filme, precisei acumular várias funções no processo para que meu corpo de realizador também entrasse no jogo de afeto e esforço do qual o filme estava a propor. Foi um processo de construção extremamente corpóreo e artesanal.

Acumular funções para você, no caso, foi uma opção, mas poderia ter sido uma necessidade. Quais as dificuldades enfrentadas pelos cineastas no mercado audiovisual que você destaca?

Fora as dificuldades para captar recursos de produção, o grande desafio a ser vencido numa escala maior é fazer com que os filmes cheguem ao público. Mas essa é uma briga que envolve até acordos na Organização Mundial do Comércio, devido ao lobby do cinema americano no Brasil. Um exemplo claro desse problema pode ser comprovado com Boi Neon. O filme, que entrou em cartaz no Estados Unidos e foi exibido no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, não entrou na programação das salas de cinema comerciais do Rio Mar e Shopping Recife, dois grandes shoppings de Recife (PE).

Quanto ao cinema pernambucano em geral. Como você prevê o crescimento de produções e do mercado local?

Estamos vivenciando em Pernambuco um processo muito saudável que mistura projetos de filmes ousados e originais, que se somam a uma consolidação de uma política pública estadual que até agora vem valorizando esse cinema de invenção. No entanto, está em curso uma série de mudanças nas leis de incentivo no estado de Pernambuco. Espero que não tenhamos retrocesso na política pública.

Para finalizar, uma autorreflexão. Você é um dos poucos cineastas desta década que, em tão pouco tempo, produziu filmes quase que ininterruptamente e esteve muito presente em festivais nacionais e internacionais, sempre colhendo bons resultados. O que você tem a dizer sobre isso? 

Trabalhei exaustivamente nestes últimos anos 10 anos para conseguir materializar as ideias. Hoje sinto que “bateu a canseira”. Os anos passaram e preciso diminuir o ritmo. O corpo já não acompanha mais a velocidade do cabeça, sempre a mil. Já estou trabalhando em um novo projeto, mas não ligado ao cinema. Meu próximo trabalho será uma série fotográfica sobre separações, chamado Desamar.

Edição: Fernanda Mendonça 

“Reza a Lenda é um filme sobre opressão”, afirma diretor

“Reza a Lenda é um filme sobre opressão”, afirma diretor


Desde a adolescência, Homero Olivetto foi seduzido pelo universo dos quadrinhos e teve o imaginário povoado por histórias do sertão contadas por seu avô. Foi unindo o útil ao agradável que realizou Reza a Lenda, sua mais recente produção. Chamado de “Mad Max do Sertão”, o longa é a prova de que o cinema brasileiro é capaz de fazer um filme de ação de baixo orçamento.

Na trama, Ara (Cauã Reymond) é o líder de um bando de motoqueiros armados que acredita em uma lenda que promete libertar o povo da região. Ao realizarem um ousado feito, acabam despertando a fúria de Tenório (Humberto Martins). Em meio a perseguições, a jovem Laura (Luisa Arraes) é resgatada de um acidente e obrigada a seguir com Ara, despertando ciúmes em Severina (Sophie Charlotte).

Em uma conversa especial com o Assiste Brasil, o cineasta Homero Olivetto falou sobre o processo de produção, representatividade feminina e o resultado de Reza a Lenda. Confira:

Ao assistir Reza a Lenda, nota-se que o filme vai contra as tendências do atual cenário audiovisual brasileiro e aposta na mistura de ação, western e road movie. O que o levou a apostar nessa ideia?

Quando idealizei Reza a Lenda, meu pensamento foi o de fazer um filme que eu gostaria de assistir. Assim, apostei em uma linguagem universal para falar sobre temas que sempre me fascinaram. É a revelação de um Sertão metafísico e do banditismo social, heroico e controverso de alguns personagens marcantes da região. Ainda não parei para comparar o resultado final com o roteiro, mas acho que, na mensagem que eu gostaria que o filme passasse, ficou bem próximo ao que esperava no princípio.

O filme permeia o universo religioso e também político. Como é lidar com esses contextos tão emblemáticos em um único projeto?

Reza a Lenda é um filme sobre opressão. Ele trata de um indivíduo lidando com uma natureza dura e implacável. Em lugares assim é mais fácil usar a religião e a política como instrumentos de opressão, infelizmente. A chuva, na cabeça de Ara e seu bando, em um primeiro momento, é a ferramenta mais óbvia e direta para derrubada deste universo opressor.

Um aspecto que chama bastante atenção em Reza a Lenda é a sua estética. Como foi o trabalho realizado “por trás das câmeras” para apresentar este resultado?

A estética do filme foi fruto de anos de pesquisa sobre o Sertão, o cangaço e de uma preparação de meses na região de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), buscando localmente todos os elementos estéticos do filme. As roupas dos motoqueiros, por exemplo, foram criadas tendo como base as pessoas que vimos trabalhando lá, sob o sol. As cabeças cortadas vêm da época das volantes e do cangaço; os balões são referência às festividades de São João e por aí vai. O filme, esteticamente, é completamente brasileiro.

Você destacou que foram “anos” de pesquisas e “meses” de preparação para realizar Reza a Lenda. Afinal, quanto tempo foi dedicado à produção do longa, desde a concepção da ideia até a sua finalização?

O primeiro tratamento do roteiro foi escrito em 2006. De lá até 2014 foi feito todo o levantamento de dinheiro e estruturação para produzir o filme. Em 2014, começamos a preparar as gravações em março, mas só vieram acontecer na prática entre os meses de outubro e novembro, em seis intensas semanas. A pós-produção, da montagem, edição de som e mixagem até a finalização de imagem, levou quase um ano.

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Sophie Charlotte em uma das cenas de “Reza a Lenda”. Foto: Divulgação

E o maior desafio enfrentado pela equipe durante este processo foi…

No meu caso, foi na hora de filmar. Era preciso conseguir fazer tudo o que o roteiro pedia em apenas 6 semanas, já que era aquilo que o orçamento do filme comportava. Na realidade, o roteiro pedia mesmo eram oito semanas de filmagens.

Os atores Cauã Reymond e Sophie Charlotte dividiram tarefas nesse projeto e, além de atuarem, também produziram. Quais foram seus papéis nesse processo?

Os dois tiveram papéis distintos. Cauã participou da captação do filme, opinou no roteiro, além de ter divulgado o filme como ninguém. Já a Sophie entrou mais tarde, quando já estávamos perto de filmar. Seu papel na produção foi ligada diretamente à divulgação, que também fez de uma maneira incrível. Na frente das câmera, Cauã e Sophie foram maravilhosos. O processo deles e o resultado superaram minhas mais otimistas expectativas.

Acredita que ter no elenco nomes conhecidos da televisão ajudou o filme a ganhar mais espaço nas salas de cinema pelo Brasil? 

Imagino que sim, mas pouco. Se o Brasil tem um star system, ainda está muito mais concentrado nos comediantes.

Reza a Lenda é repleto de referências a grandes obras do cinema e também do universo das HQs. Quais foram as principais inspirações para Reza a Lenda?

No tema do filme, as inspirações vieram das estórias que meu avô me contava. O filme é dedicado a ele. Na linguagem, foram várias as referências. Desde a série de mangás Afro Samurai, na sua pegada sensorial pop, até o estilo do cineasta Sam Peckinpah, principalmente nos tiroteios caóticos. Mas, como um todo, posso afirmar que os westerns foram a principal fonte de inspiração para construir a linguagem de Reza a Lenda.

Reza a Lenda foi chamado de “Mad Max do Sertão” em uma comparação ao filme de George Miller, Mad Max: Estrada de Fúria, destaque no Oscar 2016. No entanto, essa relação não se justifica apenas por questões estéticas. Assim como a produção norte-americana, seu filme, coincidentemente, trouxe a mulher com uma representatividade marcante no enredo. Como foi a recepção do público diante a esse olhar sobre as personagens femininas?

Acho que as pessoas se surpreenderam muito com a Sophie [Charlotte] de Severina. É uma personagem forte, mas ao mesmo tempo é uma líder natural que abre mão de muita coisa e mete os pés pelas mãos pelo amor cego que sente por Ara. Quanto a Laura, personagem de Luisa [Arraes], quando aparece na garupa de Ara, expõe a fragilidade e insegurança que Severina não conhecia. Severina, neste recorte do filme, está justamente em um momento frágil, de crise, assim como a maioria dos outros personagens, tanto homens como mulheres.

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