Crítico de cinema Rodrigo Fonseca é acusado de assédio e afastado de funções

Crítico de cinema Rodrigo Fonseca é acusado de assédio e afastado de funções


Na última quarta-feira (25), o BuzzFeed Brasil publicou uma reportagemnoticiando o afastamento do crítico de cinema Rodrigo Fonseca da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, após treze alunas relatarem que foram vítimas de assédio, moral e sexual. A repercussão do caso gerou diversas manifestações nas redes sociais e trouxe mais relatos de mulheres que passaram por situações semelhantes. Fonseca negou que tenha cometido qualquer tipo de assédio e afirmou em uma postagem no Facebook  (posteriormente apagada, mas registrada peloEstadão) que está “sendo vítima de uma absurda acusação” e que o objetivo da matéria seria de o “difamar com uma odiosa mentira”.

A Escola de Cinema Darcy Ribeiro, em nota, referiu-se a Fonseca como “ex-professor” e confirmou sua saída do quadro de professores, do qual fazia parte desde 2013. O crítico pediu afastamento da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), onde exerceria a função de presidente. Ana Rodrigues, agora à frente da associação, disse ao Globo que estão “aguardando uma formalização e uma apuração das denúncias, para que tudo seja totalmente esclarecido”.

Fonseca faz colaborações em diversos veículos, entre eles O Estado de S. Paulo, Almanaque Virtual, Jornal do Brasil e Omelete, além de roteirista contratado pela TV Globo e, esporadicamente, professor na Academia Internacional de Cinema (AIC). O Omelete publicou uma nota de esclarecimento informando que “em respeito às estudantes da Escola de Cinema Darcy Ribeiro (…) encerramos imediatamente a colaboração com o crítico”. A AIC esclareceu que o crítico não tem no momento um contrato firmado, mas que “não o contrataria até que a situação fosse esclarecida”.

Denúncias

Após as denúncias das estudantes, a direção da escola promoveu uma reunião com mais de 80 alunos. Três alunas que foram vítimas de assédio concederam uma entrevista ao Estadão. As histórias compartilhadas se assemelham: o professor fazia um convite para tomar uma café ou cerveja e tentava beijá-las. Diante da recusa, a represália vinha em sala de aula, onde passavam a ser destratadas ou ignoradas. Houve ainda relatos de mensagens enviadas pelo professor em que dizia que estava “com saudades”.

A decisão conjunta de formalizar a denúncia à instituição veio após Fonseca destratar um dos alunos. “Como tenho déficit de atenção, fiquei entrando e saindo toda hora na aula dele. Quando resolvi ver o resto da aula, ele me censurou dizendo que não podia fazer perguntas por eu ter saído e entrado várias vezes. E me mandou ‘sentar o rabinho’”, relatou ao jornal O Globo.

As três alunas que compartilharam seus relatos com o Estadão afirmaram que não levaram o caso à polícia anteriormente por medo de represálias, devido a forte influência do crítico e professor a nível nacional.A Darcy Ribeiro destacou em nota que todas as alunas estão sendo acompanhadas e apoiadas “através de assistência social, psicológica e assessoria jurídica”.

Repercussão

A crítica Maria Caú compartilhou um extenso relato em seu Facebook sobre sua experiência com Rodrigo Fonseca. “Hoje saiu uma matéria sobre os repetidos assédios do Rodrigo Fonseca contra alunas. Pelo menos treze mulheres o denunciaram. Queria aproveitar essa ocasião para falar da minha experiência com o machismo absurdo do presidente da ACCRJ”, escreveu. Caú relatou um caso de assédio moral e revelou que houve tentativas do crítico para inviabilizar sua carreira profissional, tentando até mesmo investir contra uma palestra ministrada por ela.

O aluno da Darcy Ribeiro Renato Prata Biar, da turma que realizou a denúncia, comentou na postagem de Rodrigo Fonseca no Facebook (imagens no final da matéria) reafirmando que foram mais de dez mulheres compartilhando depoimentos “extremamente fortes, emocionantes e revoltantes”. “Não existe a mínima possibilidade de ele ser a vítima e elas serem as algozes fingidas. Foram depoimentos sinceros, regados a muitas lágrimas”, escreveu.

Além dele, houve uma manifestação conjunta da turma através de uma carta aberta (leia na íntegra abaixo). “Docente notável, sempre tentando aproximar-se e agradar os alunos, levava comida e livros para distribuir durante as aulas, sempre sorridente e simpático. Mas sua simpatia tinha interesse restrito e direcionado. Desde as primeiras aulas dava orientações profissionais às suas alunas; os biscoitos e ofertas de livros logo viraram ingressos para filmes e debates, entradas gratuitas em eventos e cursos, bajulações sem fundamento profissional que poucos ou nenhum homem recebiam”, afirmaram.

A carta revela ainda mais detalhes dos casos de assédio. “Ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquerosos, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos. A bondade e atenção viraram constatação: a contribuição dele não era profissional, mas sim, dotada de interesse sexual, que como nunca foi correspondido, resultou em inúmeras ofensivas por parte do professor”.

Defesa

O primeiro veículo a entrar em contato com Fonseca foi o BuzzFeed Brasil. O crítico negou as acusações e informou que só estava tendo conhecimento do caso porque o repórter entrou em contato. Em sua postagem no Facebook após a publicação da reportagem, informou que estaria tendo apoio jurídico.

O advogado Ricardo Brajterman questionou em seu posicionamento ao Estadão o porquê das denúncias não terem sido levadas à polícia. “Fica parecendo mais uma vingança contra ele, contra o professor que é um profissional respeitado, com uma carreira consolidada. Isso é muito perigoso”, falou. Ao Globo, o advogado acrescentou que “era considerado o melhor professor do curso até ter cobrado dos alunos mais dedicação no período de avaliações”, questionando a veracidade das denúncias.

No sábado (28), Rodrigo Fonseca divulgou uma carta aberta (disponível na íntegra no final da matéria), publicada pelo Jornal do Brasil, jornal do qual é colaborador. “É uma postura rígida, avessa a conversinhas paralelas e olhadelas a celulares que hoje soam como retaliação ou… assédio, o moral… que alguns confundem com o sexual”, escreveu. Fonseca questiona a decisão da turma de se manifestar publicamente. “Diante de uma relação tão aberta, por que eu não fui procurado por eles, alunos, para que me expusessem, diretamente, seus possíveis incômodos? E por que a reclamação apareceu justamente na véspera da prova, que eles tanto temiam fazer?”, destaca.

Veja na íntegra a carta aberta dos alunos da Darcy Ribeiro

“CARTA ABERTA DOS ALUNOS DA DARCY RIBEIRO

Em reunião realizada no dia 09 de julho de 2018, 13 alunas da Escola de Cinema Darcy Ribeiro relataram às turmas de Roteiro, Direção, Montagem e Produção I assédio sofrido pelo professor Rodrigo Fonseca ao longo das aulas do primeiro semestre do ano corrente.

Rodrigo Fonseca tornou-se professor da turma em março do ano de 2018, aparentemente cordial e prestativo. Docente notável, sempre tentando aproximar-se e agradar os alunos, levava comida e livros para distribuir durante as aulas, sempre sorridente e simpático. Mas sua simpatia tinha interesse restrito e direcionado. Desde as primeiras aulas dava orientações profissionais às suas alunas; os biscoitos e ofertas de livros logo viraram ingressos para filmes e debates, entradas gratuitas em eventos e cursos, bajulações sem fundamento profissional que poucos ou nenhum homem recebiam.

A partir disso, as alunas, crendo em sua boa fé, começaram a ver-se em situações constragedoras. Ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquesoros, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos. A bondade e atenção viraram constatação: a contribuição dele não era profissional, mas sim, dotada de interesse sexual, que como nunca foi correspondido, resultou em inúmeras ofensivas por parte do professor.

O docente não respondia mais às perguntas das alunas assediadas, e quando o fazia, era sem seriedade, demonstrando fúria e imaturidade, colocando-as em posição de extrema opressão. Durante as aulas, fazia piadas vexatórias com as alunas abordadas, com intenção de humilhação.

Com o tempo as aulas se esvaziaram, muitas mulheres ausentes; mulheres disciplinadas, assíduas, já não frequentavam as aulas. Um estranhamento começou a ocorrer, e com ele, uma identificação. As alunas começaram a se falar, e enfim, estavam num grupo de 13 mulheres relatando as mesmas vivências e opressão, do mesmo assediador.

Durante a reunião, foram relatados inúmeros assédios, desde simples cantadas, presentes dados às alunas pelo professor, ligações inexcrupulosas, ameaçadoras e em horários inapropriados, a uma tentativa de beijo na boca de uma aluna sem consentimento e perseguição a outra durante um evento. Cabe ressaltar que todas as alunas que informaram ser comprometidas deixaram de contar com a mesma atenção.

Além dos relatos de assédio sexual, foram presenciados durante as aulas assédio moral, com ameaças de perda de pontos para quem questionasse o professor em qualquer conceito que não o agradasse. O mais grave ocorreu no dia 04 de julho, quando o professor disse, grosseiramente e de modo alterado, a um aluno que não responderia nenhuma pergunta enquanto ele “não sentasse o rabinho na cadeira”. Durante a reunião, outras pessoas denunciaram falas racistas, xenófobicas, homofobicas, preconceituosas e intolerantes. Todas travestidas de piada e licença poética.

Cabe ressaltar que o assédio pode vir de uma atitude verbal ou física, com ou sem testemunhas, e acontecer em sala de aula, ônibus, ambiente de trabalho, boates, consultórios médicos, na rua, em templos religiosos. O assédio não tem um local específico. No caso, há clara relação de poder de um professor, reconhecido no mercado, investindo contra alunas que sentem-se intimidadas com as consequências de suas denúncias.

Quando um homem tem interesse em conhecer uma mulher, ou elogiá-la, ele não lhe dirige palavras que a exponham ou a façam sentir-se invadida, ameaçada ou encabulada. Caracteriza-se como assédio verbal (artigo 61, da Lei das Contravenções Penais n. 3.688/1941), quando alguém diz coisas desagradáveis ou invasivas – como podem ser consideradas as famosas “cantadas” – ou faz ameaças.

Diante dos inúmeros relatos, reiterados de forma contundente e emocionada, a turma comunicou à coordenação da Escola de Cinema Darcy Ribeiro em uma reunião com a presença de cerca de 80 alunos, naquele mesmo dia, cobrando providências. Com a gravidade dos fatos e dos inúmeros relatos das alunas, a coordenação se comprometeu em frente aos presentes a desligar o professor, ratificando que esse tipo de comportamento não pode ser aceito pela instituição.

Destarte, reiteramos tudo que foi exposto na reunião e com o pronunciamento oficial da escola, para resguardar a integridade e a honra das alunas denunciantes, que foram vítimas de assédio.

Esta carta não é somente uma denúncia pública e coletiva, mas também uma resposta ao senhor Rodrigo Fonseca. As vítimas são muitas e estão unidas, fortes e tranquilas de sua postura, contando com o apoio da instituição, de todos os discentes e da opinião pública.

Não nos intimidaremos. Não nos silenciará. Somos muitos! Ao contrário do que você e muitos imaginam ao assediar, nós nos falamos e nos cuidamos e denunciamos, sim, cada assédio sofrido. A cada assédio denunciado, outros tantos aparecem. Não por histeria coletiva, não estamos fantasiandos, e não queríamos estar aqui hoje, perdendo saúde, tempo e vida para berrar os assédios sofridos; queríamos não ter sido, mas fomos, por você.

Os inocentes não ficarão calados, por mais difícil que seja falar.

ASSINADO: TODOS os alunos do Módulo I”

Nota da Darcy Ribeiro, também disponibilizada na página da instituição no Facebook:

Print da publicação feita por Rodrigo Fonseca em seu perfil no Facebook:

Jornalista Chico Felitti se manifestou no Facebook após a publicação de sua reportagem sobre o caso Rodrigo Fonseca no BuzzFeed Brasil:

Atualizações feitas dia 30 de julho de 2018, às 12h20, para acréscimo do pronunciamento de Rodrigo Fonseca. 

Leia na íntegra a carta do crítico Rodrigo Fonseca 

‘Injusta avalanche de acusações’

Rio de Janeiro, 27 de julho de 2018.

Desde 2007, a docência é parte oficial e regular de minhas atividades, e sempre fiz do rigor e da exigência um padrão: dou prova, aplico testes de surpresa, cobro participação… e de todos. É uma postura rígida, avessa a conversinhas paralelas e olhadelas a celulares que hoje soam como retaliação ou… assédio, o moral… que alguns confundem com o sexual.

Em 2012, comecei a lecionar na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, instituição pela qual sempre tive, e ainda tenho, absoluto respeito, apesar do turbilhão de acusações que agora recebo, ecoando de lá. Foi uma surpresa o teor das acusações, descabidas e inverídicas, e mais surpreendente ainda, o fato de elas virem de uma turma que dizia me adorar. A recíproca era, e ainda é, verdadeira. Foram cerca de 80 pessoas com quem trabalhei de março a julho, diante de salas lotadas, buscando sempre dar o melhor de mim e buscar — palavra fundamental — entender como melhor servir a todos. Várias vezes, quando precisei recomeçar uma explicação do zero, insistia em dizer que esse era um direito deles. Nunca me furtei a responder nada. E, logo no primeiro dia, escrevi meu e-mail e meu celular no quadro, como faço em todas as turmas, oferecendo-os como opção para que todos pudessem me acessar, fosse para comentar os trabalhos, fosse para tirar dúvidas. Daí vem a minha pergunta mais sincera: diante de uma relação tão aberta, por que eu não fui procurado por eles, alunos, para que me expusessem, diretamente, seus possíveis incômodos? E por que a reclamação apareceu justamente na véspera da prova, que eles tanto temiam fazer?

Depois de uma reportagem na internet, assinada por um repórter que já me interpelou com acusações, virei alvo de um linchamento público alimentado de forma viral, descontrolada e irresponsável nas redes sociais, difamando a minha honra. Vejo hoje, com tristeza, a utilização midiática sensacionalista do meu nome e da minha conduta profissional e não quero alimentar mais fofocas anônimas e suposições infundadas, mas, em respeito aos meus amigos, colegas de trabalho, da minha família, do Jornalismo e do Cinema Brasileiro, prestarei aqui alguns esclarecimentos.

Sempre me comportei de maneira solícita com meus alunos sem deixar que questões pessoais se impusessem na minha maneira de trata-los. Estive disponível mesmo fora dos horários letivos, sempre que procurado, para tirar dúvidas sobre provas e lições. Atendi, por WhatsApp, demandas de mulheres e homens.

Levava brindes (livros, DVDs e ingressos) pra sala de aula com intuito motivacional (estimular a leitura ou apresentar alguma cinematografia) e sorteava-os em público, sem favorecer este ou aquele. E, muitas vezes, alunos e alunas vinham me dizer: “Poxa, até agora o senhor não me sorteou. Fui o único que não ganhei nada”. Mas, em sala, não tolerava dispersão e era ríspido, o que vem sendo confundido com assédio moral.

Sempre respeitei minhas alunas, prezando por manter minha postura profissional e jamais forcei ninguém (fosse estudante ou não) a me beijar. E jamais me recusei a respondê-las por qualquer quer fosse o motivo.

Vejo agora que meu posicionamento crítico, inerente à minha atividade como resenhista de filmes, passou a ser (mal) interpretado como atitude intolerante ou preconceituosa. Não há nada em minhas atitudes que possa ser qualificado como homofóbico, racista ou xenófobo.

Diante de toda essa execração pública covarde e falaciosa, não me resta alternativa senão aguardar a passagem dessa injusta avalanche de acusações, em relação a qual não detenho força e nem mesmo mecanismos para enfrentar. Mas sei que os estragos por ela causado serão irreparáveis e eternos.

‘Chega de fiu fiu’ exige a liberdade dos corpos femininos nos espaços públicos

‘Chega de fiu fiu’ exige a liberdade dos corpos femininos nos espaços públicos


Uma pesquisa de 2015 da ONG ActionAid revelou que 86% das brasileiras já sofreram assédio em espaços urbanos. Entre elas, 77% já receberam assobios e 57% ouviram comentário de cunho sexual. Não é difícil encontrar mulheres que comprovem a veracidade desses números. O documentário “Chega de fiu fiu” inicia sua narrativa com relatos em off de vítimas de assédio sexual. Elas relembram agressões verbais, psicológicas e físicas que sofreram em locais públicos. As vozes são tantas que se somam, confundem-se e ecoam pela cena rotineira da cidade.

Com uma equipe majoritariamente feminina, as diretoras Fernanda Frazão e Amanda Kamanchek realizam um filme compacto, com pouco mais de 70 minutos, e também poderoso na essência de seu discurso. A premissa é apresentada desde o título: “Chega de fiu fiu” faz uma explanação sobre as múltiplas formas de assédio e violências de gênero que, em diversas situações, são praticadas sem pudor e impunemente. A realização faz parte da campanha homônima, criada pela Think Olga, para denunciar o assédio contra mulheres.

Três personagens de diferentes regiões do Brasil são centrais na narrativa. São elas: a artista visual Rosa Luz, do Gama (GO), mulher preta e trans; a estudante de enfermagem e manicure Raquel Carvalho, de Salvador (BA), preta, periférica, lésbica e vítima da gordofobia; e a professora Tereza Chavez, de São Paulo (SP), mulher branca e de classe média-alta. É elementar à construção do documentário a diversidade de vozes e olhares, que não se restringe a essas personagens. A narrativa em si transmite essa pluralidade, desenvolvendo-se em três modos: a partir das histórias das personagens, das falas de especialistas, de uma câmera subjetiva e de uma câmera que observa.

A montagem alternada entre as diferentes perspectivas dá um ritmo fluido e conexo à narrativa, iniciando com o resgate histórico das mulheres na sociedade e concluindo com corpos femininos ocupando as ruas da cidade. A trilha sonora surge em momentos pontuais do filme, trazendo a voz de mulheres que cantam sobre o empoderamento feminino e abominam a violência de gênero. Na questão visual, enquadramentos cuidadosos não se limitam aos planos médios e fechados das entrevistadas. O sentimento de medo, palavra recorrente na fala das personagens, revela-se imageticamente nas ruas, escadarias e becos desertos, mal iluminados, ou nas silhuetas de homens desconhecidos que caminham em direção à câmera.

Para além das análises, relatos, denúncias e representação da resistência feminina, que encoraja as mulheres espectadoras a não se calarem e reconhecerem que não estão sós, “Chega de fiu fiu” se propõe a construir um diálogo com o público masculino. Apresentando dados e manchetes jornalísticas, Frazão e Kamanchek trazem a constatação de que, tão importante quanto falar sobre o feminismo, é falar sobre a masculinidade. As diretoras são assertivas ao distanciar a câmera para registrar uma roda de diálogo formada apenas por homens, brancos e pretos, de distintas realidades sociais, que refletem sobre as atitudes que consideram aceitáveis. A desconstrução de papéis e comportamentos dos homens cabe a eles próprios.

Nessa zona de conforto em que os homens interagem com semelhantes, a voz masculina reproduz discursos que escancaram a masculinidade tóxica. Um dos integrantes fala sem titubear que existem mulheres que “pedem” para serem assediadas devido à roupa que usam. A cena que precede esse momento traz Tereza Chavez mostrando roupas que estava usando em momentos que foi assediada: de saia ou de calça, o assédio aconteceu. Outro participante do grupo de homens considera inadmissível chamar uma mulher de “gostosa” no ambiente de trabalho, mas acredita que algumas, devido a roupa que usam, “gostam de ser assediadas”.

Com uma câmera escondida, uma das personagens ou uma das diretoras (a identidade não é revelada) caminha pela cidade. Assobios, buzinadas, sussurros e até mesmo um enfrentamento direto de um homem que se sente em seu direito ao encarar uma desconhecida porque a considera bonita. O uso da câmera subjetiva funciona para o espectador como uma comprovação prática das teorias, reflexões, dados e das histórias compartilhadas pelas personagens sobre o que é ter seu corpo objetificado. No entanto, o alcance desse recurso é restrito a uma realidade específica, não representando o que uma mulher da periferia, preta ou trans, por exemplo, enfrenta no espaço em que ocupa.

Esses dois olhares, do observador e do participante, são pontos altos da narrativa, pois apresentam quem são os assediadores. Não são monstros, mas sim homens integrantes da sociedade feita para homens, masculinos, e de uma cultura que consente com comportamentos nocivos, machistas e misóginos. “Chega de fiu fiu” investiga, denuncia, desconstrói e questiona. O documentário cumpre com excelência o papel de reunir vozes contra o assédio sexual e de fortalecer possibilidades de transformações sociais, seja por meio do debate, pelo combate ou pelas políticas públicas. O que se quer é que a violência não continue a passar despercebida.

O documentário “Chega de fiu fiu” foi selecionado para o FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema e exibido na mostra “Lute como uma mulher”. 

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