A noite desta sexta-feira (29) na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes será de filme e dança. Previsto para ser apresentado no Cine-Tenda no começo da madrugada, o longa-metragem “Being Boring”, de Lucas Nassif, estará na Sessão Bendita. A exibição do filme experimental-pop, com a música-título, um clássico da banda Pet Shop Boys, tocando em looping, enquanto são mostrados dois personagens hedonistas, terá uma novidade em sua presença na Mostra: serão retiradas 50 cadeiras da sala para dar espaço a uma pista de dança, permitindo que o público possa se levantar e bailar ao som da música e ao estímulo das imagens.

É uma experiência inédita no evento, que aposta na interação e na confraternização do público através de um filme que se permite a este tipo de experimentação, ao mesmo tempo em que investiga as possibilidades da linguagem, dos conceitos e da tecnologia. Feito com quase nenhum orçamento, “Being Boring” dialoga diretamente com obras da pop art e das instalações audiovisuais. A sessão está prevista para começar às 23h59.

Mais cedo, no Cine-Teatro, às 15h, acontece o debate Espaços em Conflito – Recuos e Atenuantes”, que se conecta ao tema centra da Mostra este ano. O período entre 2005 e 2015 foi marcado, no cinema autoral brasileiro, por narrativas que, mesmo quando lidam com espaços em tensão, tenderam a enfoques nos quais os personagens não se confrontam ou o confronto é deixado fora de quadro. Houve uma tendência a rarefação dos conflitos cultivados pelos filmes? Na mesa participam João Luiz Vieira (professor), Hernani Heffner (curador-adjunto da Cinemateca do MAM e curador da CineOP) e Rubens Machado Jr (professor).

Na programação de filmes, a Mostra Aurora tem mais duas sessões, no Cine-Tenda: às 20h, “Jovens Infelizes ou um Homem que Grita não é um Urso que Dança”, de Thiago B. Mendonça; e às 22h30, “Animal Político”, de Tião. Na Mostra Transições, na mesma sala, às 18h, passa “Planeta Escarlate”, de Dellani Lima e Jonnata Doll. Antes, a Mostra Panorama de Curtas acontece às 16h30, com quatro filmes. No Cine BNDES na Praça, “Geraldinos”, de Pedro Asbeg e Renato Martins, começa às 21h.

DEBATES MOBILIZAM PÚBLICO NO CINE-TEATRO

Os Encontros com a Crítica, o Diretor e o Público na quinta-feira foram alguns dos mais movimentados este ano na Mostra. Todos os três debates enchera o Cine-Teatro, e os mediadores tiveram trabalho para controlar o tempo diante de uma plateia ávida por perguntas e observações sobre os filmes da noite anterior. Na mesa sobre “Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois”, Petrus Cariry falou sobre a “trilogia da morte”, que inclui seus longas anteriores, “O Grão” (2007) e “Mãe e Filha” (2011). Ele disse que, com o novo trabalho, concluiu um ciclo. “Meu próximo filme será mais solar. Acho que essa fase sombria eu terminei. Me libertei”, disse, ao ser perguntado se havia alguma coisa dele mesmo na construção da personagem central.

A sessão de “Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois” foi realizada na noite de quarta-feira no Cine-Tenda, enquanto chovia torrencialmente do lado de fora. O barulho da água invadiu a sala, especialmente nas cenas de maior silêncio. Depois de se incomodar, Petrus relaxou e acabou por gostar. “A chuva e os trovões criaram algumas novas camadas ao filme”, brincou.

Na conversa a respeito do documentário “Taego Ãwa”, a dupla Marcela Borela e Henrique Borela falaram de como se deu a aproximação com os indígenas retratados no filme. Marcela disse que se incomodava com a falta de informação sobre a tribo e, junto com Henrique, partiram para um contato que construísse uma relação vertical com os indígenas. “Nós fizemos o que a gente chama de ‘mise-en-scène compartilhada’. Nenhuma cena foi registrada sem conversarmos antes com os Ãwa”, contou ela.

Marcela relatou ainda a dificuldade de conseguirem financiamento para “Taego Ãwa”. “Fomos recusados muitos e muitas vezes. Só conseguimos aprovar num edital depois que criamos uma espécie de roteiro de ficção de 80 páginas”, revelou a diretora.

Por fim, a mesa sobre a Série 3 da Mostra Foco, dedicada aos curtas-metragens, teve a presença dos diretores de três filmes: “Levante”“Entre Imagens – Intervalos” e “A Vez de Matar, a Vez de Morrer”. Eles responderam a perguntas sobre a construção e estrutura dos filmes e dúvidas relativas a determinadas escolhas estéticas. O diretor Reinaldo Cardenuto, de “Entre Imagens – Intervalos”, chamou atenção para a relação direta que ele vê entre os filmes da Foco este ano. “Percebo que, mesmo muito diferentes entre si, a maior parte deles mostra questões em torno do autoritarismo e da repressão do Estado na sociedade. Isso me parece algo muito presente hoje”, afirmou.