No dia 19 de junho, comemora-se o Dia do Cinema Brasileiro. Falar do cinema nacional vivendo na segunda década deste século é moleza. O circo generalizado na política e sociedade civil são prato cheio para a criatividade artística. Alguém falou uma frase do tipo “o que seria da arte sem a crise?” — não exatamente com essas palavras — mas serve pra ilustrar. Não listo aqui os “melhores filmes brasileiros de todos os tempos” ou agrego todos os meus tantos favoritos. Doeu não botar Kleber Mendonça e Eduardo Coutinho, mas tal qual a sociedade brasileira, preciso abrir mão de interesses próprios a fim de construir algo interessante para a coletividade.

Cronicamente Inviável e as ramificações da flor murcha brasileira

Temos Sergio Bianchi, um cineasta com o qual professores de sociologia adorariam tomar café. Em 2000, Bianchi faz Cronicamente Inviável, que consiste em várias esquetes violentas sobre a miséria de moradores de rua, arrogância da high society, racismo velado e explícito, agressão doméstica, desapropriação de terra, carnaval como manobra de alienação social, discriminação com indígenas, manipulação midiática, abuso de poder dentro do ambiente de trabalho, abuso de poder policial, trabalho infantil, caos no transporte público, cinismo e manipulação midiática, improbidade administrativa dos órgãos públicos e, finalmente, alienação religiosa — esta última concluindo o longa.

Ufa.

Deleite-se com um trecho da infeliz maldade fruto do convívio em sociedade:

Glauber Rocha e os presságios de quase 50 anos atrás

Não é do feitio da geração atual ver filmes como os de Glauber Rocha. Seria cinismo da minha parte dizer que foi divertido pra caramba assistir Terra em Transe. Não foi. Imagens desconfortáveis para os olhos e para a mente, em sua limitação técnica e roteiro pouco palatável. Mas “ser agradável” nunca foi a intenção de Glauber. No filme, o político conservador que agradece em nome de Deus enquanto é coroado é de uma premonição irônica.

Por outro lado, o populista torna-se hipócrita graças a mínima sensação de poder. Cumprimenta o pobre durante a campanha eleitoral mas depois lava as mãos com sabonete. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Quase 50 anos depois, o movimento do Cinema Novo Brasileiro ainda é atual. Já estamos na vanguarda do Novíssimo e o assunto ainda é desigualdade social e corrupção. O transe dura 516 anos.

José Padilha e as Notícias de uma Guerra Particular contra o cinema comercial acrítico

Apesar das inúmeras qualidades, a linguagem de Glauber ainda assim é elitista. Só quem tem paciência para assistir a seus filmes é a elite cultural (e ele sabia disso). Como fazer cinema crítico para as massas? Tropa de Elite tentou, mas o problemático Capitão Nascimento virou herói na opinião pública. Eu lembro quando vi o primeiro filme. A frase “bandido bom, é bandido morto” nunca fez tanto sentido pra mim. Foi preciso revê-lo há alguns meses para discernir a verdadeira face do comandante do BOPE.

Lembro quando assisti Tropa de Elite 2, ainda muito garoto. Odiava o deputado representante dos Direitos Humanos. “Como pode um cara defender bandido?”. Com o passar dos anos, descobri que o deputado não “defendia” bandido, mas a reeducação. Percebi que a sede de matar do BOPE não os faz sair como vitoriosos, muito menos soluciona qualquer problema social. O cinema de massa sempre sofrerá com interpretações imaturas e distorcidas. Que desafio!

Agora, afinal, para quem é a polícia? Ela tem critérios? Ela representa o poder público? Ela representa o poder paralelo? A polícia faz a segurança? É seguro ter polícia? Quem protege e a favela: o poder público ou paralelo? A UPP é realmente pacificadora? A UPP é corrupta? A polícia é corrupta? A gente quer uma polícia que não seja corrupta? Assista Notícias de uma Guerra Particular, de Katia Lund (a que o Meirelles não creditou devidamente em Cidade de Deus) e João Moreira Salles (o produtor do Eduardo Coutinho. Viu, Coutinho? Arranjei uma maneira de te colocar aqui). Enquanto isso, segue um trecho que talvez responda algumas das perguntas.

https://www.youtube.com/watch?v=EJ_4C5xdCAA

Pro Dia Nascer Feliz numa sala da aula da educação sucateada

O currículo mínimo da Base Nacional Comum de educação pública é uma vergonha. Só funciona para Sudeste e Sul, pois não considera as diferenças regionais num país multicultural. A educação pública aceitou por anos sua mediocridade e evoluiu — quando não está retrocedendo — a passos de tartaruga. Um lampejo de esperança veio com o fenômeno das ocupações em escolas de redes estaduais. Foi preciso uma pausa na linha de montagem para repensarmos escola.

João Jardim estaria orgulhoso. O documentarista rodou o país para fazer Pro Dia Nascer Feliz, filme que retrata as diferentes formas de fazer educação nas redes públicas de cada região. A beleza do poema utópico de uma menina pobre do sertão, arrepia; mas quem ganha as principais competições literárias ainda é o menino do Sudeste.

Mas não se enganem: o Sudeste não é nenhum supra-sumo. Apenas o menos pior. Em Duque de Caxias, na baixada fluminense, o que impera é a violência, dentro e fora de sala de aula. No entanto, João Jardim chegou a visitar um colégio particular, o tradicional Colégio Santa Cruz, da classe alta paulista. Por lá, alguns alunos que gozam do mais “alto nível” de cultura fizeram algumas reflexões sobre, por exemplo, a pobreza. “Eu fico assim: pô, eu queria ir lá fazer um trabalho voluntário, num sei o quê… Mas vou ter que deixar de ir pra minha aula de natação”…

Macunaíma e o carnavalesco povo brasileiro

Na minha escola, estudamos modernismo esse ano. Dentre os revoltados modernos de plantão lidos em sala, estava Mário de Andrade: criador de Macunaíma, anti herói da literatura nacional, adaptado pro cinema às lentes de Joaquim Pedro de Andrade. Macunaíma é um homem sem caráter; um índio negro; uma criança sexualmente precoce; um 171 de primeira. Em suma: exímio brasileiro.

Numa das passagens mais caricaturais, Macunaíma acha fonte de água numa zona árida, em seu êxodo rural. Ele toma banho e vira branco. No fundo, ele acredita que “se lavar” vai torná-lo branco e permitir que desfrute de alguma ascensão social na metrópole. E na sociedade (não tão) imaginária de Mário de Andrade, Macunaíma desfruta da boa vida que é ser mau caráter num país onde tudo dá certo para este tipo de gente.

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O anti herói brasileiro na Rua Brasil (em algum lugar do Brasil). Foto: Reprodução

O cinema nacional homenageou o Brasil diversas vezes e de diversas formas. Tudo bem que não é uma homenagem tão encantadora, mas fazer cinema por aqui não é lá uma tarefa muito fácil e requer uma sensibilidade mais dura. Há muitas coisas a serem ditas e poucos recursos para conseguirmos dizê-las. No Dia do Cinema Brasileiro, deixo minha homenagem a todos os cineastas que conseguiram a proeza de dizer o que precisava ser dito, além de fazer um pedido: ouça o que essa galera tem a dizer e faça-se ser ouvido.


victorhugoVictor Hugo Liporage

Texto publicado originalmente no Medium.