Saudade e a iminência de partir em ‘A Cidade Onde Envelheço’

Saudade e a iminência de partir em ‘A Cidade Onde Envelheço’


Quando dirigiu seu segundo filme, em 2008, Marília Rocha já flertava com a incerteza do pertencer, essa arritmia causada pela iminência da partida. Acácio conta a história verídica de um casal português que deixou o país de origem para encontrar novas oportunidades de vida em Angola, vindo morar no Brasil após 30 anos de estadia na colônia lusa, às vésperas de sua independência. Num segmento da película, Marília narra: “Acácio e Conceição nos receberam em uma casa povoada de bibelôs portugueses e peças africanas. Ela trazia ecos do passado, e indicava que o Brasil era para eles um lugar sem raízes, de onde planejavam um dia retornar à terra natal.”

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Brasileiro não vê cinema alternativo brasileiro porque não se vê nele

Brasileiro não vê cinema alternativo brasileiro porque não se vê nele


Adoro filmes brasileiros. Já foi tempo em que eu cruzava a cidade pra assistir filme brasileiro. Detalhe no cruzar a cidade. É literalmente cruzá-la.

É que moro na zona norte e os cinemas cult do Rio estão na zona sul, eixo rico da cidade. Filme brasileiro não-comercial, simplesmente por sê-lo, entra no bolo “cult”.

E olha que nem moro em bairro periférico. Apesar de levar uma hora pra chegar no cinema, pegava apenas um ônibus. Tem quem leve a duração de um filme pra chegar no cinema.

Ah, e outra: você faz o quê às 14h? Trabalha, né. Sabe que horas passa o filme brasileiro? Adivinha.

Por que só rico faz cinema alternativo no Brasil?

Assistir cinema, sobretudo cinema brasileiro, na segunda maior metrópole do país, não é lá tão acessível, geograficamente falando. Imagina nos outros cantos do Brasil.

E o muro que citei nem é o maior. Tem outro que grita, mas parece que os cineastas tão de fone pra não ouvir: o social. Qual a raiz disso?

Fazer cinema no Brasil é um baita privilégio. Pra começar: estudar cinema, fora da faculdade pública, é caro. Na faculdade pública, a concorrência é gigante (no Rio, é tipo Direito. Sem caô) e a tendência são salas com gente que fez pré-vestibular pra passar. Quem pôde pagar pré-vestibular é, sem dúvida, privilegiado.

Depois vem o fazer cinema. Equipamentos são caríssimos. Se você não tem dinheiro pra comprá-los, se inscreve num edital público. Mas editais pra iniciantes costumar pagar R$ 20 mil. Risos. Editais com valores decentes requerem portfólio bacanudo. Como tu vai ganhar esse edital se nunca conseguiu filmar pra criar portfólio?

É mó correria, queridas leitoras e leitores. Pra fazer cinema sem dinheiro no Brasil, vai ter que trabalhar dobrado. Em todos os sentidos da palavra.

O resultado disso são filmes com um olhar característico de determinado grupo social: o privilegiado.

O cinema brasileiro não é feito pelo povo brasileiro

E quando digo “povo”, me refiro à classe popular.

Os realizadores mais prestigiados do cinema alternativo brasileiro não conseguem e estão longe de conseguir cativar o grande público.

O negro é, normalmente, o traficante. Quando não, o miserável. O sertanejo, igualmente miserável. O índio, objeto de estudo antropológico.

Repare: é importante usar o cinema como ferramenta para expôr os males sociais, mas para quem vive diariamente esses problemas, assistir sua miséria não é lá tão cativante.

Além disso, é preciso muita responsabilidade pra mostrar as mazelas sociais. Houve muitos que viram Capitão Nascimento como herói a partir do Tropa de Elite ou Zé Pequeno como exemplo em Cidade de Deus.

Será que não existe beleza na classe popular? Pra falar de favela, só pode ser sobre tráfico? Não dá pro índio fazer seu próprio filme, à sua maneira e linguagem? A única cultura do sertanejo é a seca?

Cinema Novo e Cinema Marginal não atingiram quem estava à margem

Tenho a impressão de que, nessa época, fazia-se filme sobre o povo, mas para a elite. Filmes que tratavam o povo como objeto de estudo dos grandes intelectuais. E essa prática ecoa até hoje.

O cinema marginal foi feito por quem nunca esteve à margem. Aliás, os cineastas do período têm vergonha dessa denominação. Se autodenominam “cineastas de invenção”.

O Cinema Novo não foge disso. Homens brancos e ricos que monopolizaram o mercado e, por isso, criaram rixa com o cinema marginal. Uma batalha de egos pra definir quem era “mais cinema”.

Sem contar com a linguagem. A rebeldia contra o televisivo os fez entrar num poço de experimentação que, arrisco dizer, nem eles mesmos compreendiam.

Já dizia Bezerra da Silva:

É o que os intelectuais hoje fazem com a gente. Vão pra escola, aprendem laracutom, bangandom e essas coisas lá. Aí chega com você e fala de você o que quer e você não entende nada. Aí a gente fica ‘sim, senhor, doutor. Tá bem, doutor. Sim, senhor, doutor’ e a gente não sabe nem o que é.

O resultado foi um povo que teve sua imagem exotizada, folclorizada e, sobretudo, explorada.

Homens dirigiram 80,7% dos filmes brasileiros lançados em 2016

E olha que foi a menor porcentagem da história.

Se mulher não faz cinema, dificilmente ela se verá representada no cinema. Um filme famoso que fala sobre uma mãe, aliás, tem a mãe interpretada por um homem.

A figura feminina, em boa parte das vezes, não reflete as mazelas femininas urgentes. Boa parte das mulheres que consegue espaço no cinema goza de seus privilégios de classe e raça. Correndo por fora, Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra do país, só foi reconhecida agora.

A personagem feminina do cinema nacional ano passado era uma mulher branca, rica e intelectual. Há discussões muito pertinentes sobre a solidão da mulher nesse filme, mas a que mulher ele atinge? Diria que uma pequena parcela.

Sem contar que é mais uma história de mulher contada por um homem, e por mais talentoso que seja esse homem, isso é algo simbólico.

O cinema alternativo brasileiro é fantástico, sim. Filmes que denunciam as mazelas da nossa sociedade são extremamente relevantes e estudar o desenvolvimento do nosso cinema é fundamental. Mas quais as perspectivas pro futuro?

Que tal abrir espaço para diretoras e diretores que fazem parte das minorias falarem sobre ficção científica? Eles não são obrigados a falarem só de tragédia.

Que tal diretoras e diretores que vivem as mazelas realizarem os trabalhos sobre os seus?

Que tal buscar uma linguagem própria, exorcizando-se de alguns vícios eurocentrista?

Que tal deixar realizadoras falarem sobre si e para as suas?

Que tal democratizar o acesso ao ensino do cinema através de escolas populares de cinema?

Bezerra completou o que ele disse (e citei lá em cima) fazendo uma exaltação à gíria.

A gíria é uma cultura negra. A base dela foram os escravos. Eles quando tinham alteração do plano de fuga… No quilombo, aquela coisa… Falavam aquilo em gíria. Que era pra eles (os brancos) não entenderem. É justamente o que os intelectuais fazem com a gente (…). Mas a gente também pode conversar com o doutor do mesmo jeito e ele ficar o dia todo sentado sem entender nada também! Aí é zero a zero.

A gíria pode ser um ponto de fuga pro cinema popular.

O povo não é apenas objeto de estudo do nosso cinema. Ele também pode ser agente.

Publicado originalmente no Trendr. Imagem de destaque: Carlos Latuff

Crítica: Laerte-se, de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum

Crítica: Laerte-se, de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum


Cada movimento, com ou sem bandeira, tem o seu imperativo, a sua sugestão, a sua ordem. “Vem pra rua”. “Assuma seus cachos”. “Adote um animal”. “Compre batom”. Laerte-se, além de ser o título dado ao primeiro documentário brasileiro original da Netflix, é também um imperativo. Se abraçarmos a palavra “Laerte” enquanto verbo, como o nome do filme propõe. Laerte-se é um imperativo em forma de convite, daqueles escritos à mão, sabe, e entregue pessoalmente a quem estiver disposto a recebê-lo. Não precisa gostar da festa – ou do filme -, mas Laerte-se se configura num convite irrecusável à revolução que a sensibilidade é capaz de reverberar.

O documentário é sobre a cartunista Laerte Coutinho, uma mulher transgênero (indivíduo que possui identidade ou expressão de gênero diferente da atribuída ao nascer). Três casamentos e três netos, cerca de quarenta anos de uma carreira premiada, sua identificação enquanto mulher e trans veio à tona aos quase 60 anos de idade. Produzido pela independente Tru3Lab, dirigido por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, Laerte-se é roteirizado pela dupla ao lado de Raphael Scire, com colaborações de Nani Garcia.

“Tô descobrindo, dentro do que existe do universo das coisas oferecidas pra mulher, aquilo que me serve, aquilo que me cai, aquilo que me expressa”, confessa uma Laerte íntima e cotidiana, como é desenhada no filme. O tom do enredo é dado pelas conversas “de sofá” entre a protagonista e Eliane Brum, jornalista e escritora, que inclusive aparece nas imagens de forma a compor o documentário, e não trazê-lo para si.

A cartunista Laerte Coutinho durante as gravações do documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum. Foto: Adrian Teijido/Divulgação

O filme traça um percurso que segue o ritmo da vida de Laerte. Às vezes só, às vezes gatos, às vezes família, às vezes vestido, às vezes quadrinho, às vezes São Paulo. Durante as gravações, a casa de Laerte está em reforma, o que se torna um gatilho muito especial posto sem medo no documentário, mas em doses homeopáticas. Enquanto a casa é ajustada ao tempo presente de Laerte, o desejo – não o dever – de colocar seios vem à tona, assim como suas questões de discussão urgente acerca do radicalismo no movimento feminista e, segundo a própria Laerte, o fascismo de determinados discursos trans-ativistas, mostrando que não apenas a vivência trans é algo particular, como a vivência enquanto mulher também.

Mais viva que nunca e ao mesmo tempo se sentindo “derrotada”, a relação conflituosa da cartunista com o movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Transgêneros), e em específico o das mulheres transsexuais, é narrado por ela mesma em diversos momentos do filme. “Quem quer estar na luta e representar precisa também estar em todos os lugares. Eu não sei, eu não consigo estar em tudo, minha energia vai acabando. (…) Tô me sentindo velha, tô me sentindo derrotada dentro de uma parte do movimento ou dentro do movimento. Qual que é o movimento? Existe um movimento?”.

O corpo de Laerte é casa para seus questionamentos, subjetividades e caminhos. Ela mesma diz, no filme, que “o corpo é uma parte de uma negociação complicada”. Estar no mundo, entre identificações com o outro e busca por uma identidade, é também estar sujeito a conflitos, em que os internos sempre falam mais alto. “A transformação genital pra mim é um pouco assustadora porque ela envolve uma revolução, quase uma batalha travada numa região”, diz Laerte no filme.

Ela não esconde, por exemplo, sua vontade de ter peitos através de cirurgia plástica, nem o seu incômodo com a chamada bolsa ou saco escrotal: “saco é um saco”, afirma. Mas suas vivências enquanto mulher transgênero com mais de 60 anos de idade a levam a perceber posicionamentos, dentro do próprio movimento LGBT, com os quais não se reconhece e, portanto, sente-se excluída do “clube”. “Há uma questão de carteirinha. É um horror isso”, dispara.

Às vezes só, às vezes gatos, às vezes família, às vezes vestido, às vezes quadrinho, às vezes São Paulo. Laerte em “Laerte-se”. Foto: Netflix/Divulgação

Dizem que a arte imita a vida, e no caso de Laerte, arte e vida se misturam, se pintam e se enchem de balangandãs. Através do personagem Hugo/Muriel, a cartunista traz desde 2009 a questão do crossdresser, do feminino, do ser mulher. Hoje, Hugo é, definitivamente, Muriel, e Laerte continua Laerte ao menos no nome. Suas tirinhas acompanham o desenvolvimento da mulher em si. “Tô fazendo uma investigação da mulher que eu posso ser”, afirma. Não buscando se resumir a um corpo, mas tendo consciência do que um corpo e suas vestimentas representam, Laerte e Muriel são criador e criatura de um feminino possível.

Em Laerte-se, os trabalhos de quadrinhos e pintura assinadas pela cartunista são parte do documentário, o que ilustra e reforça a personalidade curiosa, inteligente e sem tempo a perder da protagonista. Assim como em sua arte, o discurso de Laerte posto no filme não vem seguido de pontos finais e cortes bruscos. O silêncio, as reticências, o olhar que busca as palavras certas e mais honestas a serem ditas no momento em que é questionada, trazem a ideia de transição e fluxo presentes na vida e arte de Laerte. Ela não parece ser uma mulher que se resume em uma frase, ou tirinha, e inclusive se diz no filme “aterrorizada” com a ideia de que sua opinião sirva para orientar as pessoas. “Meu problema com charge era cagar regra”, confessa.

Por vezes discreta, quase escondida, em outras exibida, Laerte-se mostra a Laerte que assina as tirinhas e continua sua vida enquanto mulher, pai, amante e transgênero no mundo. Um registro lindo, atual, cheio de pele, de humanidade, sobre uma pessoa que de tão imperativa e em constante dinamismo, virou verbo. Laerte está velha, está reflexiva, está loira, está vestida. Laerte está nua, de saco cheio de ter saco. Laerte está avô, Laerte faz as unhas, Laerte tem gatos. Laerte está maravilhosa e isso é da nossa conta. Assistam Laerte-se.

Sugestão de produções audiovisuais acerca da questão de gênero e da transsexualidade no Brasil:

A série Liberdade de Gênero, dirigida e produzida por João Jardim, do canal a cabo GNT (Globosat).
Meu Nome É Jacque, documentário dirigido por Angela Zoé sobre Jacqueline Rocha Côrtes, mulher transsexual e militante.

Crítica: Joaquim, de Marcelo Gomes

Crítica: Joaquim, de Marcelo Gomes


A estreia de Joaquim, de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), às vésperas do feriado nacional de Tiradentes é simbólica. Nas telas do cinema, a história de Joaquim José da Silva Xavier é contada sob uma ótica humanizada e personificada do então revolucionário nacional.

No filme, que concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2017, Julio Machado interpreta o histórico personagem, protagonista do movimento que seria chamado posteriormente de Inconfidência Mineira. Tiradentes foi uma das figuras-chave na conspiração separatista que visava por fim à exploração de minérios praticada por Portugal no Brasil Colônia.

Apesar de ser uma obra livremente inspirada e não ser fidelizada à história real, somos imersos no mundo do revolucionário, mas também amante personagem. Sua paixão pela escrava Zuaa (Isabél Zuaa) é sua motivação para conquistar a promoção a tenente da corte portuguesa (assim, poderia comprá-la e livrá-la da opressão). Também faz parte de sua saga liderar uma equipe de quatro homens para encontrar terras com ouro à mando da rainha portuguesa.

Joaquim não se trata de uma cinebiografia, mas pelo contrário. A heroicidade e veneração histórica de Tiradentes são colocadas em questionamento no filme. O protagonista é retratado como um homem bruto, sem nada de psicologia em mente. A ficção questiona a ideia de realidade dos fatos históricos e o diretor trabalha constantemente a humanização do homem da Inconfidência Mineira.

Não só o lado humano é retrato contra a romantização ou heroicização. Joaquim também revela o lado obscuro da história. A segregação racial e social, defendidas pelo escravo João (Welket Bungué) e o índio Inhambupé (Karay Rya Pua), e o machismo opressor sofrido pela escrava e negra Zuaa são provocações feitas ao longo do filme. A corrupção da elite também é um tema que não ficou de fora, sendo retratado com sutileza nas entrelinhas.

Os eventos de cunho político-social são sem a intenção de ser didático. Muito do que Joaquim quer transmitir está implícito e o objetivo é estimular o público a pensar, como também fazer um paralelo com os dias atuais. Surgem na mente questionamentos sobre como a sociedade brasileira lidou com questões como preconceito e corrupção ao longo de sua evolução histórica.

Joaquim é muito mais que uma obra de entretenimento. Com autoridade e segurança, Marcelo Gomes apresenta um cinema pensante, capaz de despertar uma visão filosófica e sociológica de como devemos lutar contra o retrocesso (ou a favor da evolução histórica).

‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais

‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais


Durante pouco mais de uma hora, o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro reúne testemunhos da quase intocável elite brasileira. A classe apresentada em Um Lugar ao Sol (2009) não é aquela que transita entre a classe média, mas que já nasceu em berço de ouro e cresceu vendo o Brasil “por cima”, como explica uma das personagens entrevistadas.

Com auxílio de um curioso livro que mapeia e revela o nome da elite brasileira, foram localizados os 125 donos de coberturas de prédios, dos quais apenas nove concordaram em ceder uma entrevista para o documentário. Os moradores de coberturas são das cidades de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo e debatem sobre status e poder, revelando um lado do Brasil pouco investigado pelo audiovisual brasileiro.

Historicamente, o cinema brasileiro, seja ele de ficção ou documental, acostumou o espectador a assistir a produções que trazem a pobreza e exclusão social do sertão da seca e da fome e das favelas da desordem e violência. Mascaro apresenta em seu documentário um tipo brasileiro que parece novo, mas que revela a sua tradição histórica em um país socialmente polarizado.

O documentário não só transgride o convencional trazendo personagens que escancaram o seu conservadorismo, elitismo, falta de empatia ou mínimo conhecimento acerca da realidade da maioria no Brasil. O choque do espectador também acontece diante da montagem que, ocultando as perguntas feitas pelo entrevistador, constrói sua narrativa utilizando apenas as palavras ditas pelos nove entrevistados.

Inevitavelmente, os pensamentos e realidade revelada pelas lentes de Mascaro causam risos, seja por desconhecimento de uma realidade relativa e por vezes absurda, esta observada sob ponto de vista do espectador ou do entrevistado; ou pelo constrangimento das declarações preconceituosas, arrogantes, inescrupulosas, que beiram o ridículo ou o assustador. No entanto, são negadas ao espectador as perguntas que motivaram tais respostas.

Analisando a decisão da montagem, pode-se questionar os objetivos dos realizadores a recolherem os depoimentos e manipularem a voz dos “intocáveis” contra eles próprios. Muitos que aceitaram o convite por vaidade, talvez para exibir suas vidas surreais, são encurraladas e postas diante de um falso espelho.

Enquanto afirmam que suas preces são ouvidas primeiro por estarem “mais perto de Deus”, olham para o mundo abaixo com desprezo e desconhecimento, exaltando a segregação social e racial. A luta de classes é emoldurada por cenas de contrastes. Subindo em um elevador panorâmico à beira-mar, a agitação e realidade são deixadas para trás – ou para baixo. Do chão, pescadores trabalham à sombra dos prédios (e sonhos) inatingíveis.

Inclusive, a construção social da paisagem urbana e verticalização também são temas retratados em Um Lugar ao Sol. Anterior ao documentário, Mascaro realizou uma intervenção urbana chamada Quando a Tarde Cai (2009), que inicia uma reflexão a partir da relação entre a luz do Sol e sombra dos prédios na orla da praia de Boa Viagem. O distanciamento de classes sociais e construção de realidades divergentes no mesmo espaço é fato que reflete na arquitetura das coberturas, barracos, palafitas e favelas.

Após oito anos do lançamento de Um Lugar ao Sol e ao assistir documentários mais recentes de Mascaro que exploram a relação de classes, tais como Avenida Brasília Formosa (2010) e Domésticas (2012), pode-se afirmar que o diretor filmou aqueles que podem ser chamados de inimigos. Presos em uma armadilha, os personagens sentem-se seguros, como também assumem a postura defensiva, e revelam quem são e aquilo que representam – e ainda a quem não representam. Esta é a prova de que o Brasil sempre esteve dividido.

Por que precisamos falar sobre assédio?

Por que precisamos falar sobre assédio?


“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”. Susllem Meneguzzi Tonani, 28 anos, figurinista na Rede Globo, assediada no trabalho por José Mayer, 67 anos, ator renomado.

Ela falou, publicou uma carta aberta e o caso virou polêmica nacional. Dividiram-se as opiniões, a Rede Globo precisou enfrentar uma crise de imagem. Assim vieram explicações (ainda que bem controversas e difíceis de engolir), ações punitivas contra o agressor e campanhas contra o assédio ganharam forças. Tudo isso porque ela falou.

E falar sobre o assédio e o agressor é um passo para a denúncia e a exposição de atitudes que não deveriam ser toleradas com “normalidade” no meio social. Essa situação de violência, infelizmente, é mais cotidiana do que homens ou até mesmo as próprias mulheres possam reconhecer.

Um projeto para dar voz às vítimas

Para ampliar as discussões de gêneros que se propagaram nas redes sociais através de hashtags como #meuprimeiroassedio #agoraequesaoelas #meuamigosecreto, surgiu o projeto Precisamos Falar do Assédio. A iniciativa propõe levar as discussões da internet para além dos caracteres, ocupar as ruas, provocar as pessoas, instigar a falar, mostrar a importância de não se calar. As duas grandes faces do projeto estão na criação do site e um documentário, de nome homônimo, que reuniu depoimentos de vítimas de assédio sexual.

Precisamos Falar do Assédio tem a premissa de destacar números reais, expor casos e dar voz às mulheres. Dirigido por Paula Sacchetta (Verdade 12.528 e Quanto Mais Presos, Maior o Lucro) e com produção da Mira Filmes, o documentário passou pelas telas de alguns dos maiores festivais nacionais e inicia agora sua carreira de exibições comerciais, em canais de TV paga e serviços de streaming (o filme está disponível gratuitamente no NET NOW).

Falar para externar, ouvir para entender e conhecer para mudar

Por que remexer em uma experiência tão doída e, às vezes, que já acontecera há tanto tempo? Por que relembrar? Por que mostrar o rosto quando se passou por algo tão horrível? Por que esconder o rosto quando se passou por algo tão horrível? Por que não se ter ao certo pra quem recorrer? Por que é difícil conseguir justiça nos casos? Por que falar do assédio?

As gravações do filme Precisamos Falar do Assédio aconteceram dentro de um estúdio móvel que percorreu nove regiões entre São Paulo e Rio de Janeiro durante a semana da mulher, em 2016. Nesse período, 140 mulheres de diferentes classes sociais e padrões de estética deram seus depoimentos. Elas tinham idades entre 14 e 85 anos quando foram violentadas em diferentes ambientes e contextos, desde o mais banalizado tipo de assédio nas ruas até casos de estupro.

Assistir aos 26 casos que estão narrados no filme não é fácil. Por vezes há a necessidade de parar, respirar, enxugar as lágrimas e conter a vontade de gritar bem alto. São 26 casos. São 26 mulheres. São 26 vidas. Mais triste ainda pensar que esse número não é um limite e que iguais a elas existem tantas outras com experiências semelhantes.

O assédio infelizmente é muito comum e a mulher, em um mundo que une elementos do machismo, da desigualdade e violência de gênero, torna-se uma presa. Um terço das 140 mulheres gravadas usou máscara. Podemos imaginar explicações para isso, como o medo de aparecer e ser reconhecida, de ser encontrada pelo agressor, por sentir vergonha, tristeza, desconforto ou qualquer outro sentimento intraduzível.

Detalhe da gravação de um dos depoimentos que compõem o documentário “Precisamos Falar do Assédio”, de Paula Sacchetta. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O que fica claro é que, independente do tempo que se passa do ocorrido, aquelas mulheres que relataram suas experiências, sozinhas, numa van escura, tiveram suas vidas mudadas para sempre. Algo foi arrancado delas. Questiona-se o por quê de ver um documentário que carrega tanta dor, angústia, violência; do por que escutar horrores e por que aquelas mulheres quiseram reviver horrores através de suas memórias compartilhadas.

A resposta que parece mais acertada passa pelo próprio intuito do projeto: precisamos falar do assédio para combatê-lo. Quando uma mulher fala, denuncia, o tabu do silêncio se quebra e possibilita chegarmos ao problema para, então, trabalhar para resolvê-lo.

Não há o que se falar em culpabilização da vítima: são vítimas. Ela não está errada, não está querendo e nem pedindo por usar qualquer tipo de roupa. Somente o agressor gera a agressão e esses são os únicos culpados. As mulheres são livres e de iguais direitos. Não há hierarquia no trabalho, casamento, a hora que sai e como sai na rua.

O documentário esclarece aquilo que não deveria ser questionado: não há justificativa para cometer o crime de assediar uma outra pessoa. A fala da mulher é uma ferramenta social transformadora, que pode aquecer o debate e, assim, provocar questionamentos, o reconhecimento e o combate à violência sexual, verbal ou psicológica.

Precisamos Falar do Assédio é um projeto dinâmico e vivo, que se refaz a todo momento por aquelas que relatam suas experiências e para quem as ouve, transpondo as barreiras do isolamento e da escuridão que essa violência acarreta.

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