Os filmes brasileiros que participam do Festival de Cannes 2019

Os filmes brasileiros que participam do Festival de Cannes 2019


O Festival de Cannes 2019, que acontece entre os dias 14 e 25 de maio, reúne estreantes e veteranos em uma programação vasta e variada. Entre os selecionados, estão quatro filmes brasileiros e duas coproduções. Uma delas é “Bacurau”, ficção dirigida por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que concorre à Palma de Ouro e fará sua estreia internacional nesta quarta-feira (15), às 22h, no Théâtre Lumière.

Além da indicação ao prêmio principal em Cannes, cineastas brasileiros marcam presença também nas mostras paralelas e especiais. “Sem seu sangue”, longa de estreia da carioca Alice Furtado, participa da Quinzena dos Realizadores, histórica mostra independente e não competitiva do festival. O drama conta uma obsessiva e intensa história de amor adolescente.

O cearense Karim Aïnouz, que participou do festival em 2002 com “Madame Satã”, retorna com “A vida invisível de Eurídice Gusmão” na mostra Um Certo Olhar/Un Certain Regard. O filme é uma adaptação do livro homônimo de Martha Batalha e traz Fernanda Montenegro no elenco. O diretor define sua nova realização, ambientada nos anos 1950, como um “melodrama tropical cheio de afeto e paixão, vermelho e verde flúor”.

 “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz, participa da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2019. Foto: Divulgação

“A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de
Karim Aïnouz, participa da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2019. Foto: Divulgação

Além das ficções, a produção documental “Indianara”, codirigido pelo brasiliense Marcelo Barbosa e pela francesa Aude Chevalier-Beaumel, será apresentada na mostra ACID. O documentário acompanha a trajetória política e social da ativista transexual Indianara Siqueira na luta pelos direitos de pessoas LGBT. As realizações selecionadas para a ACID têm em comum o cunho político, experimental, radical e independente.

Bacurau e a Palma de Ouro

O filme brasileiro “Bacurau” concorre com outros 20 títulos à premiação principal este ano. Entre os selecionados estão “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, e “Era uma vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino. Além de Tarantino, outros cinco diretores indicados já foram vencedores da Palma de Ouro em anos anteriores: o norte-americano Terrence Malick, o britânico Ken Loach, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne e o francês Abdellatif Kechiche.

Esta é a segunda vez que Kleber Mendonça Filho concorre ao prêmio em Cannes. A primeira aconteceu em 2016, com “Aquarius“, o segundo longa-metragem de sua carreira. Em “Bacurau”, Kleber é codiretor junto a Juliano Dornelles, que assinou a direção de arte dos premiados “Recife Frio“, “O Som ao Redor” e também em “Aquarius”.

“Bacurau” mescla aventura e ficção científica em uma história que se passa no sertão do Seridó, divisa entre Rio Grande do Norte e Paraíba. Dias após a morte de Dona Carmelita, a tranquilidade do pequeno povoado está sob ameaça. Sonia Braga, Bárbara Colen, Karina Telles e Lia de Itamaracá são alguns dos nomes que integram o elenco.

Apesar de acumular mais de 30 indicações, incluindo coproduções, o Brasil foi vencedor da Palma de Ouro apenas duas vezes: em 1959, com “Orfeu do Carnaval”, de Marcel Camus; e em 1962, com “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte. O júri deste ano será presidido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, que anunciará o vencedor da Palma de Ouro no dia 25 de maio.

Brasileiros na coprodução

Maria Fernanda Cândido está em "O Traidor", do italiano Marco Bellocchio, que concorre à Palma de Ouro. Foto: Divulgação
Maria Fernanda Cândido está em
“O Traidor”, do italiano Marco Bellocchio, que concorre à Palma de Ouro. Foto: Divulgação

Dois brasileiros se destacam por trás das produções de filmes selecionados para o Festival de Cannes 2019. Rodrigo Teixeira conhecido por produzir com a RT Features filmes de destaque da cena independente, como “Frances Ha” e “Me chame pelo seu nome” é o nome por trás de “The Lighthouse”. O filme, selecionado para a Quinzena dos Realizadores, tem direção do americano Robert Eggers, que estreou em 2016 com o terror “A Bruxa”, também produzido pela RT Features. Teixeira participa duplamente das indicações, já que também é produtor de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz.

Já “O Traidor” (“Il Traditore”), do italiano Marco Bellocchio, que concorre à Palma de Ouro, conta com a coprodução da brasileira Gullane, dos irmãos Fabiano e Caio Gullane, e participação da atriz Maria Fernando Cândido. Com locações na Itália, Alemanha e Brasil, a história baseia-se na trajetória de Tommaso Buscetta, o primeiro mafioso do alto escalão a se transformar em um informante.

Foto em destaque: “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Créditos: Victor Jucá

Quais são as produções do cinema negro e  indígena contemporâneo?

Quais são as produções do cinema negro e indígena contemporâneo?

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Dados de pesquisas feitas pelo GEEMA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) escancaram a alarmante desigualdade de gênero e de raça no cinema brasileiro. Dos filmes nacionais de maior bilheteria entre 2002 e 2012, 84% foram dirigidos por homens brancos, seguido de 13% por mulheres brancas e 2% por homens negros. Nesse período de dez anos, nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras.

Entretanto, para além do circuito de produção e distribuição comercial, essa realidade permanece sendo a mesma? Existe um movimento expressivo de realizadores negros e indígenas que resistem e contestam o sistema hegemônico, branco, masculino e heteronormativo do cinema brasileiro? Para responder essas questões, a pesquisadora Iris Regina, pós-graduanda em Artes e Tecnologia na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), realiza a pesquisa “Cinema Negro e Indígena: uma necessidade política e afetiva”.

Através de um levantamento, a pesquisadora busca catalogar realizações brasileiras a partir dos anos 2010 que foram dirigidas, roteirizadas ou produzidas por cineastas negros e indígenas, homens e mulheres. Serão consideradas obras de qualquer gênero cinematográfico, incluindo videoarte e videoclipes, sejam curtas, médias ou longas-metragens. É possível participar da pesquisa até dia 10/04 e enviar as informações através do formulário: http://bit.ly/cinemanegroindigena

Segundo Iris, após o levantamento será possível analisar narrativas distintas do olhar colonizador, as formas de representação e realizar também um recorte de gênero. “A partir da análise dos filmes, busco entender os anseios que impulsionam essas produções e compreender como esses corpos negros transitam no imaginário coletivo. Quero saber quem somos, onde estamos e do que falamos”, diz.

Imagem em destaque do filme “Kbela”, de Yasmin Thayná, disponível para assistir online.

A história do cinema contada a partir de filmes dirigidos por mulheres

A história do cinema contada a partir de filmes dirigidos por mulheres

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Quantos filmes dirigidos por mulheres são reconhecidos e citados como marcos históricos? Quem são as diretoras que fizeram e continuam a fazer a história do cinema? Como seria fazer uma releitura histórica somente a partir de filmes dirigidos por mulheres? Esse debate é proposto pelo curso Mulheres no Cinema, ministrado pelas jornalistas e críticas Joyce Pais, criadora do site Cinemascope, e Luísa Pécora, do Mulher no Cinema, que será realizado no Instituto de Cinema, localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, a partir da próxima terça-feira (2).

A iniciativa foi motivada pela atualidade e relevância do tema, com um recorte raramente visto no mercado. Dividido em três módulos – intitulados “Cineastas pioneiras”, “Vanguarda e resistência” e “Cinema contemporâneo” -, o curso, que conta com 12 encontros, oferece um panorama introdutório do cinema realizado por mulheres no Brasil e no mundo. “Percebo que, com a pauta da representatividade nessa indústria cada vez mais no centro das discussões, o interesse por parte dos cinéfilos em filmes que fogem do cânone também é crescente, e se manifesta tanto nas redes quanto em eventos que participo pelo Brasil”, afirma Joyce Pais.

O programa destaca obras produzidas por realizadoras como Alice Guy-Blaché, Agnès Varda, Chantal Akerman, Helena Solberg, Kathryn Bigelow, Ava DuVernay, Anna Muylaert, entre outras. Serão discutidas, também, como as narrativas abordadas nestes trabalhos estão atreladas, inevitavelmente, a questões históricas, sociais, comportamentais e políticas. Segundo Luísa Pécora, o objetivo do curso “é apresentar e discutir o trabalho de cineastas que contribuíram e contribuem para a produção audiovisual, ampliando o repertório dos alunos e colocando-os em contato com novos olhares, pontos de vistas e linguagens”.

Mulheres do cinema brasileiro

O cinema brasileiro não ficará de fora da releitura histórica. O programa do curso Mulheres no Cinema traz pontuações importantes sobre a participação da mulher no meio cinematográfico no Brasil. Ao longo do curso, serão destacadas realizações de cineastas como Cléo de Verberena (1909-1972) no cinema mudo; Gilda de Abreu (1904-1979), com a chegada do cinema sonoro; Helena Solberg (1938 – ), única diretora do Cinema Novo; Ana Carolina (1949 – ) e Tereza Trautman (1951 – ) na resistência contra a censura da Ditadura Militar; Adélia Sampaio (1944 – ), primeira cineasta negra a dirigir um longa no Brasil e diretora do primeiro filme com temática lésbica; até o cinema brasileiro contemporâneo, representado por Anna Muylaert, Tata Amaral, Laís Bodanzky e Carla Camurati.

O investimento para o curso é de 3 x de R$ 265 e as matrículas podem ser realizadas no site: http://bit.ly/mulheresnocinema-curso-inc. Para mais informações, enviar e-mail para [email protected] e/ou [email protected]

Serviço

QUANDO| A partir do dia 02 de abril de 2019

DIAS DA SEMANA E HORÁRIO |Terça, das 19h às 22h

DURAÇÃO | 12 encontros

CARGA HORÁRIA | 36h

INSCRIÇÕES | http://bit.ly/mulheresnocinema-curso-inc

“Kbela”, premiado curta de Yasmin Thayná, é disponibilizado online

“Kbela”, premiado curta de Yasmin Thayná, é disponibilizado online


Após circular pelo Brasil e pelo mundo em mostras e festivais, Kbela, dirigido e roteirizado por Yasmin Thayná, inicia uma nova carreira, agora no meio virtual. O curta-metragem foi disponibilizado para download gratuito no site oficial, onde também é possível assistir por streamingKbela foi selecionado em 2017 para o Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR) e premiado no Festival Curta Brasília, Festival de Cinema Vitória, Goiana Mostra Curtas e no MOV – Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco. Também marcou presença no Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou (FESPACO), em Burkina Faso, o maior do continente africano, e foi honrado com um prêmio da Academia Africana de Cinema (AMAA).

O filme direciona o olhar sobre a “experiência do racismo vivido cotidianamente por mulheres negras” e realiza “um exercício subjetivo de autorrepresentação e empoderamento”, como descreve a sinopse. Através dos cabelos crespos, as personagens se conectam com sua ancestralidade, transcendem o embranquecimento e superam os obstáculos do machismo e racismo para narrar suas próprias histórias. O elenco foi convocado através das redes sociais e, para realizar o filme, foi feita uma vaquinha online, que teve a contribuição de 117 pessoas.

O roteiro é uma adaptação do conto Mc KBELA, também assinado por Yasmin Thayná, publicado na coletânea Flupp Pensa – 43 novos autores e disponível online. A primeira versão do filme foi idealizada em 2013, em menor formato, mas não chegou a ser finalizada. Vítima de um assalto, a diretora e roteirista perdeu todo o material, restando apenas um teaser. O projeto foi retomado em 2015 e o sucesso de sua primeira exibição pública, com o Cine Odeon (Rio de Janeiro) lotado, impulsionou mais três sessões com meia-entrada para todos.

Assista ao curta-metragem Kbela online ou faça o download gratuito.

 

 

 

Crítico de cinema Rodrigo Fonseca é acusado de assédio e afastado de funções

Crítico de cinema Rodrigo Fonseca é acusado de assédio e afastado de funções


Na última quarta-feira (25), o BuzzFeed Brasil publicou uma reportagemnoticiando o afastamento do crítico de cinema Rodrigo Fonseca da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, após treze alunas relatarem que foram vítimas de assédio, moral e sexual. A repercussão do caso gerou diversas manifestações nas redes sociais e trouxe mais relatos de mulheres que passaram por situações semelhantes. Fonseca negou que tenha cometido qualquer tipo de assédio e afirmou em uma postagem no Facebook  (posteriormente apagada, mas registrada peloEstadão) que está “sendo vítima de uma absurda acusação” e que o objetivo da matéria seria de o “difamar com uma odiosa mentira”.

A Escola de Cinema Darcy Ribeiro, em nota, referiu-se a Fonseca como “ex-professor” e confirmou sua saída do quadro de professores, do qual fazia parte desde 2013. O crítico pediu afastamento da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), onde exerceria a função de presidente. Ana Rodrigues, agora à frente da associação, disse ao Globo que estão “aguardando uma formalização e uma apuração das denúncias, para que tudo seja totalmente esclarecido”.

Fonseca faz colaborações em diversos veículos, entre eles O Estado de S. Paulo, Almanaque Virtual, Jornal do Brasil e Omelete, além de roteirista contratado pela TV Globo e, esporadicamente, professor na Academia Internacional de Cinema (AIC). O Omelete publicou uma nota de esclarecimento informando que “em respeito às estudantes da Escola de Cinema Darcy Ribeiro (…) encerramos imediatamente a colaboração com o crítico”. A AIC esclareceu que o crítico não tem no momento um contrato firmado, mas que “não o contrataria até que a situação fosse esclarecida”.

Denúncias

Após as denúncias das estudantes, a direção da escola promoveu uma reunião com mais de 80 alunos. Três alunas que foram vítimas de assédio concederam uma entrevista ao Estadão. As histórias compartilhadas se assemelham: o professor fazia um convite para tomar uma café ou cerveja e tentava beijá-las. Diante da recusa, a represália vinha em sala de aula, onde passavam a ser destratadas ou ignoradas. Houve ainda relatos de mensagens enviadas pelo professor em que dizia que estava “com saudades”.

A decisão conjunta de formalizar a denúncia à instituição veio após Fonseca destratar um dos alunos. “Como tenho déficit de atenção, fiquei entrando e saindo toda hora na aula dele. Quando resolvi ver o resto da aula, ele me censurou dizendo que não podia fazer perguntas por eu ter saído e entrado várias vezes. E me mandou ‘sentar o rabinho’”, relatou ao jornal O Globo.

As três alunas que compartilharam seus relatos com o Estadão afirmaram que não levaram o caso à polícia anteriormente por medo de represálias, devido a forte influência do crítico e professor a nível nacional.A Darcy Ribeiro destacou em nota que todas as alunas estão sendo acompanhadas e apoiadas “através de assistência social, psicológica e assessoria jurídica”.

Repercussão

A crítica Maria Caú compartilhou um extenso relato em seu Facebook sobre sua experiência com Rodrigo Fonseca. “Hoje saiu uma matéria sobre os repetidos assédios do Rodrigo Fonseca contra alunas. Pelo menos treze mulheres o denunciaram. Queria aproveitar essa ocasião para falar da minha experiência com o machismo absurdo do presidente da ACCRJ”, escreveu. Caú relatou um caso de assédio moral e revelou que houve tentativas do crítico para inviabilizar sua carreira profissional, tentando até mesmo investir contra uma palestra ministrada por ela.

O aluno da Darcy Ribeiro Renato Prata Biar, da turma que realizou a denúncia, comentou na postagem de Rodrigo Fonseca no Facebook (imagens no final da matéria) reafirmando que foram mais de dez mulheres compartilhando depoimentos “extremamente fortes, emocionantes e revoltantes”. “Não existe a mínima possibilidade de ele ser a vítima e elas serem as algozes fingidas. Foram depoimentos sinceros, regados a muitas lágrimas”, escreveu.

Além dele, houve uma manifestação conjunta da turma através de uma carta aberta (leia na íntegra abaixo). “Docente notável, sempre tentando aproximar-se e agradar os alunos, levava comida e livros para distribuir durante as aulas, sempre sorridente e simpático. Mas sua simpatia tinha interesse restrito e direcionado. Desde as primeiras aulas dava orientações profissionais às suas alunas; os biscoitos e ofertas de livros logo viraram ingressos para filmes e debates, entradas gratuitas em eventos e cursos, bajulações sem fundamento profissional que poucos ou nenhum homem recebiam”, afirmaram.

A carta revela ainda mais detalhes dos casos de assédio. “Ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquerosos, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos. A bondade e atenção viraram constatação: a contribuição dele não era profissional, mas sim, dotada de interesse sexual, que como nunca foi correspondido, resultou em inúmeras ofensivas por parte do professor”.

Defesa

O primeiro veículo a entrar em contato com Fonseca foi o BuzzFeed Brasil. O crítico negou as acusações e informou que só estava tendo conhecimento do caso porque o repórter entrou em contato. Em sua postagem no Facebook após a publicação da reportagem, informou que estaria tendo apoio jurídico.

O advogado Ricardo Brajterman questionou em seu posicionamento ao Estadão o porquê das denúncias não terem sido levadas à polícia. “Fica parecendo mais uma vingança contra ele, contra o professor que é um profissional respeitado, com uma carreira consolidada. Isso é muito perigoso”, falou. Ao Globo, o advogado acrescentou que “era considerado o melhor professor do curso até ter cobrado dos alunos mais dedicação no período de avaliações”, questionando a veracidade das denúncias.

No sábado (28), Rodrigo Fonseca divulgou uma carta aberta (disponível na íntegra no final da matéria), publicada pelo Jornal do Brasil, jornal do qual é colaborador. “É uma postura rígida, avessa a conversinhas paralelas e olhadelas a celulares que hoje soam como retaliação ou… assédio, o moral… que alguns confundem com o sexual”, escreveu. Fonseca questiona a decisão da turma de se manifestar publicamente. “Diante de uma relação tão aberta, por que eu não fui procurado por eles, alunos, para que me expusessem, diretamente, seus possíveis incômodos? E por que a reclamação apareceu justamente na véspera da prova, que eles tanto temiam fazer?”, destaca.

Veja na íntegra a carta aberta dos alunos da Darcy Ribeiro

“CARTA ABERTA DOS ALUNOS DA DARCY RIBEIRO

Em reunião realizada no dia 09 de julho de 2018, 13 alunas da Escola de Cinema Darcy Ribeiro relataram às turmas de Roteiro, Direção, Montagem e Produção I assédio sofrido pelo professor Rodrigo Fonseca ao longo das aulas do primeiro semestre do ano corrente.

Rodrigo Fonseca tornou-se professor da turma em março do ano de 2018, aparentemente cordial e prestativo. Docente notável, sempre tentando aproximar-se e agradar os alunos, levava comida e livros para distribuir durante as aulas, sempre sorridente e simpático. Mas sua simpatia tinha interesse restrito e direcionado. Desde as primeiras aulas dava orientações profissionais às suas alunas; os biscoitos e ofertas de livros logo viraram ingressos para filmes e debates, entradas gratuitas em eventos e cursos, bajulações sem fundamento profissional que poucos ou nenhum homem recebiam.

A partir disso, as alunas, crendo em sua boa fé, começaram a ver-se em situações constragedoras. Ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquesoros, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos. A bondade e atenção viraram constatação: a contribuição dele não era profissional, mas sim, dotada de interesse sexual, que como nunca foi correspondido, resultou em inúmeras ofensivas por parte do professor.

O docente não respondia mais às perguntas das alunas assediadas, e quando o fazia, era sem seriedade, demonstrando fúria e imaturidade, colocando-as em posição de extrema opressão. Durante as aulas, fazia piadas vexatórias com as alunas abordadas, com intenção de humilhação.

Com o tempo as aulas se esvaziaram, muitas mulheres ausentes; mulheres disciplinadas, assíduas, já não frequentavam as aulas. Um estranhamento começou a ocorrer, e com ele, uma identificação. As alunas começaram a se falar, e enfim, estavam num grupo de 13 mulheres relatando as mesmas vivências e opressão, do mesmo assediador.

Durante a reunião, foram relatados inúmeros assédios, desde simples cantadas, presentes dados às alunas pelo professor, ligações inexcrupulosas, ameaçadoras e em horários inapropriados, a uma tentativa de beijo na boca de uma aluna sem consentimento e perseguição a outra durante um evento. Cabe ressaltar que todas as alunas que informaram ser comprometidas deixaram de contar com a mesma atenção.

Além dos relatos de assédio sexual, foram presenciados durante as aulas assédio moral, com ameaças de perda de pontos para quem questionasse o professor em qualquer conceito que não o agradasse. O mais grave ocorreu no dia 04 de julho, quando o professor disse, grosseiramente e de modo alterado, a um aluno que não responderia nenhuma pergunta enquanto ele “não sentasse o rabinho na cadeira”. Durante a reunião, outras pessoas denunciaram falas racistas, xenófobicas, homofobicas, preconceituosas e intolerantes. Todas travestidas de piada e licença poética.

Cabe ressaltar que o assédio pode vir de uma atitude verbal ou física, com ou sem testemunhas, e acontecer em sala de aula, ônibus, ambiente de trabalho, boates, consultórios médicos, na rua, em templos religiosos. O assédio não tem um local específico. No caso, há clara relação de poder de um professor, reconhecido no mercado, investindo contra alunas que sentem-se intimidadas com as consequências de suas denúncias.

Quando um homem tem interesse em conhecer uma mulher, ou elogiá-la, ele não lhe dirige palavras que a exponham ou a façam sentir-se invadida, ameaçada ou encabulada. Caracteriza-se como assédio verbal (artigo 61, da Lei das Contravenções Penais n. 3.688/1941), quando alguém diz coisas desagradáveis ou invasivas – como podem ser consideradas as famosas “cantadas” – ou faz ameaças.

Diante dos inúmeros relatos, reiterados de forma contundente e emocionada, a turma comunicou à coordenação da Escola de Cinema Darcy Ribeiro em uma reunião com a presença de cerca de 80 alunos, naquele mesmo dia, cobrando providências. Com a gravidade dos fatos e dos inúmeros relatos das alunas, a coordenação se comprometeu em frente aos presentes a desligar o professor, ratificando que esse tipo de comportamento não pode ser aceito pela instituição.

Destarte, reiteramos tudo que foi exposto na reunião e com o pronunciamento oficial da escola, para resguardar a integridade e a honra das alunas denunciantes, que foram vítimas de assédio.

Esta carta não é somente uma denúncia pública e coletiva, mas também uma resposta ao senhor Rodrigo Fonseca. As vítimas são muitas e estão unidas, fortes e tranquilas de sua postura, contando com o apoio da instituição, de todos os discentes e da opinião pública.

Não nos intimidaremos. Não nos silenciará. Somos muitos! Ao contrário do que você e muitos imaginam ao assediar, nós nos falamos e nos cuidamos e denunciamos, sim, cada assédio sofrido. A cada assédio denunciado, outros tantos aparecem. Não por histeria coletiva, não estamos fantasiandos, e não queríamos estar aqui hoje, perdendo saúde, tempo e vida para berrar os assédios sofridos; queríamos não ter sido, mas fomos, por você.

Os inocentes não ficarão calados, por mais difícil que seja falar.

ASSINADO: TODOS os alunos do Módulo I”

Nota da Darcy Ribeiro, também disponibilizada na página da instituição no Facebook:

Print da publicação feita por Rodrigo Fonseca em seu perfil no Facebook:

Jornalista Chico Felitti se manifestou no Facebook após a publicação de sua reportagem sobre o caso Rodrigo Fonseca no BuzzFeed Brasil:

Atualizações feitas dia 30 de julho de 2018, às 12h20, para acréscimo do pronunciamento de Rodrigo Fonseca. 

Leia na íntegra a carta do crítico Rodrigo Fonseca 

‘Injusta avalanche de acusações’

Rio de Janeiro, 27 de julho de 2018.

Desde 2007, a docência é parte oficial e regular de minhas atividades, e sempre fiz do rigor e da exigência um padrão: dou prova, aplico testes de surpresa, cobro participação… e de todos. É uma postura rígida, avessa a conversinhas paralelas e olhadelas a celulares que hoje soam como retaliação ou… assédio, o moral… que alguns confundem com o sexual.

Em 2012, comecei a lecionar na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, instituição pela qual sempre tive, e ainda tenho, absoluto respeito, apesar do turbilhão de acusações que agora recebo, ecoando de lá. Foi uma surpresa o teor das acusações, descabidas e inverídicas, e mais surpreendente ainda, o fato de elas virem de uma turma que dizia me adorar. A recíproca era, e ainda é, verdadeira. Foram cerca de 80 pessoas com quem trabalhei de março a julho, diante de salas lotadas, buscando sempre dar o melhor de mim e buscar — palavra fundamental — entender como melhor servir a todos. Várias vezes, quando precisei recomeçar uma explicação do zero, insistia em dizer que esse era um direito deles. Nunca me furtei a responder nada. E, logo no primeiro dia, escrevi meu e-mail e meu celular no quadro, como faço em todas as turmas, oferecendo-os como opção para que todos pudessem me acessar, fosse para comentar os trabalhos, fosse para tirar dúvidas. Daí vem a minha pergunta mais sincera: diante de uma relação tão aberta, por que eu não fui procurado por eles, alunos, para que me expusessem, diretamente, seus possíveis incômodos? E por que a reclamação apareceu justamente na véspera da prova, que eles tanto temiam fazer?

Depois de uma reportagem na internet, assinada por um repórter que já me interpelou com acusações, virei alvo de um linchamento público alimentado de forma viral, descontrolada e irresponsável nas redes sociais, difamando a minha honra. Vejo hoje, com tristeza, a utilização midiática sensacionalista do meu nome e da minha conduta profissional e não quero alimentar mais fofocas anônimas e suposições infundadas, mas, em respeito aos meus amigos, colegas de trabalho, da minha família, do Jornalismo e do Cinema Brasileiro, prestarei aqui alguns esclarecimentos.

Sempre me comportei de maneira solícita com meus alunos sem deixar que questões pessoais se impusessem na minha maneira de trata-los. Estive disponível mesmo fora dos horários letivos, sempre que procurado, para tirar dúvidas sobre provas e lições. Atendi, por WhatsApp, demandas de mulheres e homens.

Levava brindes (livros, DVDs e ingressos) pra sala de aula com intuito motivacional (estimular a leitura ou apresentar alguma cinematografia) e sorteava-os em público, sem favorecer este ou aquele. E, muitas vezes, alunos e alunas vinham me dizer: “Poxa, até agora o senhor não me sorteou. Fui o único que não ganhei nada”. Mas, em sala, não tolerava dispersão e era ríspido, o que vem sendo confundido com assédio moral.

Sempre respeitei minhas alunas, prezando por manter minha postura profissional e jamais forcei ninguém (fosse estudante ou não) a me beijar. E jamais me recusei a respondê-las por qualquer quer fosse o motivo.

Vejo agora que meu posicionamento crítico, inerente à minha atividade como resenhista de filmes, passou a ser (mal) interpretado como atitude intolerante ou preconceituosa. Não há nada em minhas atitudes que possa ser qualificado como homofóbico, racista ou xenófobo.

Diante de toda essa execração pública covarde e falaciosa, não me resta alternativa senão aguardar a passagem dessa injusta avalanche de acusações, em relação a qual não detenho força e nem mesmo mecanismos para enfrentar. Mas sei que os estragos por ela causado serão irreparáveis e eternos.

Festival Internacional de Mulheres no Cinema destaca o protagonismo feminino atrás das câmeras e nas telas

Festival Internacional de Mulheres no Cinema destaca o protagonismo feminino atrás das câmeras e nas telas


O mercado audiovisual é um dos que mais cresce no Brasil, movimentando quase R$ 25 bilhões, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). Contudo, a presença feminina no segmento ainda é mínima. Menos de 17% dos filmes brasileiros registrados na Ancine entre 2009 a 2016 e lançados comercialmente foram dirigidos por mulheres. Diante desta realidade, propondo discutir discutir a equidade de gênero na indústria cinematográfica e valorizar narrativas construídas por mulheres, surge o Festival Internacional de Mulheres no Cinema – FMI.

(mais…)

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