Hermila Guedes: várias mulheres em uma só

Hermila Guedes: várias mulheres em uma só


Maria Bonita, Verônica, Suely, Francisca, Karla, Alaíde, Jovelina e Sargento Selma. Todas essas mulheres em uma só: Hermila Guedes. De Cabrobó, interior de Pernambuco, a jovem tímida que sonhava ser guia de turismo foi conduzida pelo destino e levada aos palcos dos teatros. Mas foi no cinema que Hermila se consagrou como atriz. Em 2000, aos 20 anos de idade, recebeu seu primeiro prêmio de melhor atriz no 4º Festival de Cinema de Recife e no 10º Cine Ceará pela participação no curta-metragem O Pedido, de Adelina Pontual.

Daquele momento em diante, a atriz não parou mais e já coleciona prêmios de diversas categorias do audiovisual. Seja no teatro, no cinema ou até mesmo na TV, Hermila encanta com sua forma carismática e peculiar de atuar, levando ao espectador todo encanto do universo lúdico do “ser atriz”.

Você estudou Turismo e Letras na UFPE e chegou até mesmo a trabalhar em agências de viagens. Como foi que descobriu que queria se tornar atriz?

Entrei num grupo para fazer teatro porque poderia ajudar o meu desempenho ao lidar com público. Sou uma pessoa muito tímida e pensava mesmo era seguir carreira como guia de turismo. Mas, como os trabalhos na área de arte foram aparecendo com mais frequência, fui fazendo e começando a gostar. Acabei me apaixonando pela profissão, mas confesso que até hoje, vez ou outra, duvido da minha vocação.

E a transição dos palcos para o cinema? Como aconteceu?

Estava ensaiando a minha primeira peça de teatro e fiz dois testes para o curta O Pedido, dirigido por Adelina Pontual. Por surpresa, passei. Foi o meu primeiro trabalho profissional — primeiro no cinema e primeiro na vida! Depois dele não parei mais e venho sempre desempenhando papéis importantes para minha vida profissional.

Quais as dificuldades para quem deseja entrar no mercado profissional das artes dramáticas com foco no cinema?

Hoje o cinema no Brasil é o sonho de consumo de todo ator e eles não estão pensando apenas no filmes, mas nos diretores e produtores que querem trabalhar. Acho que aí está a dificuldade: na concorrência. A televisão não é mais a única vitrine, e o cinema tem uma linguagem própria, fascinante. O ator tem a chance de viver processos, criar personagens mais densas. Isso o atrai, já que ele tem tempo de fazer melhor seu trabalho e dar o melhor de si na produção.

É fácil ser atriz em Pernambuco?

Não, mas já foi mais difícil, quando não tínhamos esse cinema tão forte. Fazer um filme em Pernambuco já abre muitas portas no mercado fora do estado. A visibilidade do trabalho realizado em Pernambuco já é grande nos festivais brasileiros, que também estão crescendo, e até mesmo em festivais do exterior. O ator é um dos profissionais que se beneficia com isso.

E como você avalia esse crescimento estrondoso e a qualidade do cinema produzido em Pernambuco atualmente?

Acho que devido à originalidade e diversidade das histórias contadas nos nossos filmes, atrelado ao nosso potencial, tanto de equipe, diretores e elenco, o cinema pernambucano vem ganhando visibilidade nacional e internacional. Nosso cinema consegue encher os olhos pela forma poética, verdadeira e bela que é produzido e isso foge do tradicional. Vejo que há um tempo esse estilo vem inspirando produções no Brasil. Temos grandes diretores, que inclusive estão abrindo portas para uma geração cheia de ideias, conceitos e criatividade. Acredito que muita coisa boa vem por aí. Vida longa a esse importante momento do cinema pernambucano!

Qual o diferencial das produções pernambucanas em relação às demais em que já atuou?

Temos uma maneira muito própria de fazer cinema aqui em Pernambuco. Fazemos filmes com poucos recursos e nem por isso eles deixam de ser belos, grandes. Nos apegamos a sonhos, desejamos vida longa e uma jornada feliz daquele trabalho. Acho que arriscamos mais e o resultado é de que cada trabalho feito aqui é único. Confesso que viciei nessa forma de trabalhar do cinema pernambucano.

Hermila Guedes em Era Uma Vez Eu, Verônica. Foto: Divulgação

Hermila Guedes em Era Uma Vez Eu, Verônica. Foto: Divulgação

Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Baixio das Bestas (2007), Assalto ao Banco Central (2011) e Era uma Vez Eu, Verônica (2012) são alguns dos grandes filmes de seu currículo. Como você analisa seu crescimento profissional ao longo dessa jornada?

Acredito que não ter passado por processos acadêmicos fez com que me apegasse à prática. Eu realmente aprendi fazendo. E é lógico que tive muita sorte de encontrar grandes diretores e generosos colegas de trabalho por esses anos afora, que ajudaram bastante no meu crescimento profissional. Todos em especial me fizeram ser a atriz que hoje sou. Tenho certeza de que cada trabalho aconteceu no tempo certo, reforçando a fluidez das minhas escolhas.

E quanto aos diretores com que trabalhou? O que cada um adicionou a sua carreira?

Tudo. Eu sou uma atriz obediente e amo ser dirigida. Cada diretor e cada trabalho foram e são bem especiais para mim. Cada um com sua forma de dirigir, eles foram moldando em mim a forma desejada para cada trabalho. Claro que tenho os meus prediletos, mas acredito que isso seja justificado pelo tempo que estive junto e pela maneira como fui conduzida.

Você é uma atriz que não para de produzir e já interpretou diversas personagens. Qual foi a mais difícil de fazer?

Difícil para mim é fazer uma personagem que não gosto e isso não teve até agora. Fiz boas escolhas, me entreguei igualmente a todos os trabalhos sem nenhum pudor ou julgamento. Claro que não se ganha sempre, mas fico feliz com a repercussão de todos.

Quais atores você destacaria como referência?

Posso citar Geninha da Rosa Borges, por quem tenho muito carinho e também por ser um marco em minha carreira — meu primeiro trabalho no cinema foi com ela. A atriz Laura Cardoso é outra que amo e que, embora nunca tenha contracenado com ela, me identifico bastante com a forma que constrói suas personagens. E os maiores atores do cinema no Brasil hoje são muito especiais para mim: João Miguel e Irhandir Santos. São generosos demais e aprendi muito com eles.

Qual filme nacional te marcou e o que você gosta de assistir no cinema?

Estômago, principalmente pela atuação de João Miguel. Também gosto muito de Cinema, Aspirinas e Urubus por sua poesia sem igual. Pouco vou ao cinema, prefiro ver filmes em casa. Sou um pouco obcecada, gosto de ficar atenta ao elenco, principalmente à atuação. Vejo o filme mais de uma vez e também fico revendo as cenas que gosto para não perder nenhum segundo e apreciar aquele momento.

Zezita Matos: uma trajetória de aprendizados

Zezita Matos: uma trajetória de aprendizados


Em meio a tantos trabalhos, que vão desde palcos de teatro às telas de cinema, a atriz Zezita Matos, com seus 56 anos de trabalho dedicados à arte de representar, reservou um tempinho para conversar conosco sobre sua carreira e projetos. Confira:

Quando descobriu que queria tornar-se atriz?

Foi sendo atriz que descondi que queria ser atriz. Em agosto de 1958, em Campina Grande, num encontro de estudantes, conheci alguns jovens participantes do “Grupo de Teatro Popular de Arte” e recebi o convite de um deles, Breno Mattos, para participar de um espetáculo que estavam ensaiando. O espetáculo era “A Prima Dona” de José Maria Monteiro, com a direção de José Domingos Porto. Entrei para fazer uma pontinha e terminei fazendo o papel principal. Desde então, nunca mais parei.

Como começou sua relação com o cinema?

Na década de 60, especificamente em 1965, quando eu e os integrantes da turma, que faziam teatro na época, fomos chamados para um teste de elenco de Menino de Engenho, filme dirigido por Valter Lima Júnior. Fiz o teste e fui aprovada. Os anos passaram e somente em 2000 Marcus Vilar fez o convite para fazer A Canga, um curta com fotografia de Walter Carvalho. Depois foram surgindo outros convites, a exemplo de Marcelo Gomes com Cinema, Aspirinas e Urubus; Karim Ainoüz com o Céu de Suely; José Joffily com Olhos Azuis; Taciano Valério com Ferrolho; Petrus e Rosemberg  Cariry com Mãe e Filha e Os Pobres Diabos; Daniel Aragão com Boa Sorte, Meu Amor; Eric Laurence com Azul; entre outros.

Baixio das Bestas, Olhos de Botão e A História da Eternidade são alguns dos muitos filmes que você já trabalhou. Como você analisa seu crescimento profissional trabalhando ao longo dessa jornada?

Como não fiz graduação em Artes Cênicas, cada trabalho foi, ainda é e será sempre um aprendizado no metiér de representar. A cada trabalho vou acumulando conhecimentos, tanto da prática como nas leituras que costumo fazer, desde os clássicos, até os pós-modernos, que vão servindo de base à carreira de atriz e de cidadã.

Qual o diferencial das produções paraibanas e pernambucanas nas quais você já trabalhou?

Como sabemos, nas produções, sejam elas paraibanas, pernambucanas e, de certa forma, em todo o Brasil, tudo depende dos editais, entre federais, estaduais ou municipais. Hoje vemos que esta distribuição está mais equilibrada. Entretanto, a demanda cresceu e os recursos continuaram poucos. Os produtores estão criando formas alternativas para realizar seus projetos. Quanto ao número de obras realizadas, é inegável que Pernambuco tem uma história na cinematografia brasileira já consolidada. Cada um na sua forma está criando uma identidade no fazer cinematográfico pernambucano e, portanto, nordestino.

Quais as dificuldades para quem deseja entrar no mercado profissional, das artes dramáticas, com foco no cinema?

Bem, vou falar como atriz: hoje está mais “fácil”, acredito, pois temos em vários estados cursos universitários, como também cursos livres para atores. Porém, isto não garante trabalho e lugar para todos. Como nas outras áreas, em nosso trabalho de ator a concorrência é muito grande. Como sempre afirmo, sou a operária do teatro durante meio século. Foi e está sendo muito bom viver tudo que vivi. Lá se vão cinco décadas de muito aprendizado, de erros e acertos que, se pudesse, parafraseando Gonzaguinha, “começaria tudo outra vez”. O teatro foi o fio condutor desta trajetória. Os filhos e os netos a enriqueceram. E a educação e o cinema chegaram para a completar. O recado seria muita dedicação, estudo, determinação e comprometimento. Como diz o grande Guimarães Rosa: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Com um currículo de dar inveja, você já trabalhou com diretores a exemplo de Claudio Assis, Camilo Cavalcante, Petrus Cariry. O que cada um acresceu em sua carga artística?

Com todos aprendi, revi conceitos. Cada experiência é um mundo de informações e de aprendizagem. Agora me lembrei de um grande educador, Paschoal Lemme. Ao escrever suas memórias ele diz: “é que cada vida é uma vida, e a visão do mundo e as circunstâncias, em cada caso, (cada trabalho) são necessariamente diferentes”. Isto sem dúvida é o que o permite e consolida uma carreira e as opções que são feitas.

Como você avalia a qualidade do cinema produzido no Nordeste e qual o diferencial?

Poderíamos dizer, a grosso modo, que hoje e de algum tempo o cinema feito no Nordeste vem se destacando, haja vista, o cinema de Glauber Rocha nos anos 60. Considero como um cinema que vem capturando a complexidade do real enquanto ficção, sempre inserido nos problemas de uma sociedade concreta, historicamente circunstanciada e contraditória. Daí o seu diferencial na maioria dos filmes produzidos por aqui.

Publicado originalmente no Ora Película.

 

Cinema negro no Brasil é protagonizado por mulheres, diz pesquisadora

Cinema negro no Brasil é protagonizado por mulheres, diz pesquisadora


Com quatro sessões lotadas no prestigiado Cinema Odeon – incluindo a primeira lotação para 600 pessoas após reforma da casa, no centro do Rio de Janeiro –, o filme Kbela, de Yasmin Thainá, é um dos mais importantes representantes de uma leva de produções feitas por realizadoras negras que ganharam o mundo em 2015. São narrativas que contam com mulheres negras na direção, na produção e como protagonistas, em um terreno onde elas costumam ser estereotipadas.

Levantamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), feito em 2014, já apontava para a subrrepresentação da mulher negra no cinema nacional. Para a professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e doutora em história, Janaína Oliveira, Kbela rompeu essa lógica em 2015.

Coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine), um espaço de formação e reflexão sobre a produção de realizadores negros, Janaína afirma que Kbela não está sozinho.

Segundo a pesquisadora, que em 2015 circulou por festivais em países como Burkina Fasso, Cabo Verde e Cuba discutindo e divulgando essas produções, os filmes das realizadoras negras brasileiras alcançaram qualidade internacional e já são uma referência, embora pouco conhecidos no próprio país.

A professora, que há alguns anos trabalha em parceria com o Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou (Fespaco), o maior de todo o continente, recebeu a Agência Brasilem seu apartamento, em Santa Teresa, para conversar sobre a repercussão dessas produções brasileiras. Para ela, o cinema negro é um campo político, de luta por representação e desconstrução de estereótipos.

Leia os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: O que é o cinema negro?
Janaína Oliveira: O que eu venho dizendo, e as pessoas ficam chateadas, é que não dá para definir cinema negro. É um campo político, de luta por representação, de desconstrução de estereótipos, de tornar as representações mais complexas, de ampliação de representações nos espaços mais diversos. Há quem defina, eu não defini. Definir é limitar. O cinema negro tem toda uma história, que começa nos Estados Unidos, passa pela diáspora negra, caminha por vários lugares. Por exemplo, hoje, além do samba, carnaval e futebol, temos o estereótipo da violência na favela presente. [O filme] Cidade de Deus [ambientado em uma favela e com protagonistas negros] claramente não é cinema negro. A questão é: dá para fazer imagens contra-hegemônicas, que desconstroem o estereótipo dentro de um grande estúdio de cinema ou de uma grande rede de televisão? É difícil.

Agência Brasil: Qual foi sua primeira experiência com esse formato?
Janaína: Sempre gostei de cinema e muito de cinema africano. O primeiro filme africano que vi foi no festival de Cinema do Rio [de Janeiro], o Vida sobre a Terra, de Abderrahmane Sissako [diretor, escritor e cineasta da Mauritânia, autor de Timbuktu, longa-metragem que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014 e a prêmio no Festival de Cannes no mesmo ano].

Agência Brasil: Quem está produzindo cinema negro hoje no Brasil?
Janaína: Antes é importante esclarecer que estamos falando de curta-metragens, falar de longa-metragem é outra coisa, são pouquíssimos os negros que fizeram filmes de longa-metragem de ficção na nova geração, aliás, fica a provocação. Nesse universo, onde as pessoas efetivamente produzem – seja com ajuda de editais, seja nas universidades –, o que temos, de filmes de expressão, que atingiram patamar de técnica e de qualidade são os filmes feitos por mulheres negras. E são várias.

Agência Brasil; Quais?
Janaína: São as produções de Renata Martins, que fez Aquém das Nuvens e agora está fazendo uma websérie fenomenal, a Empoderadas, que só fala de mulheres negras, tem a Juliana Vicente, que fez o Cores e botas e o Minas do Rap e está produzindo um filme sobre os Racionais MCs. Tem a Viviane Ferreira, que fez o Dia de Jerusa, que foi para [o Festival de] Cannes. Tem uma menina que está nos Estados Unidos, Eliciana Nascimento, autora de O tempo dos Orixás, tem Everlaine Morais, de Sergipe, que fez dois curtas muito bons e vai estudar cinema em Cuba. E do Tela Preta [coletivo de realizadores negros ligado à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)], a Larissa Fulana de Tal, que fez o Lápis de Cor e acabou de lançar oCinzas. No Rio, o nome da vez é Yasmin Thayná, que está bombando com o Kbela. Um filmaço, no sentido da técnica e das referências. Quer mais?

Agência Brasil: Então há mais filmes com estética e cultura negra nos últimos anos?
Janaína: Nos últimos dez anos nos acostumamos a ver mais negros nas telas fazendo alguma coisa. Mas é pontualmente, fazendo algumas coisas. Ainda estamos presos a um universo de estereótipo. Que não é só o do bandido, o do cafetão, mas o da falta de complexidade das personagens. Os relacionamentos amorosos, os dilemas da vida, onde estão essas coisas? Não estão nas telas.

Agência Brasil: Qual a novidade nas produções brasileiras que você tem levado aos festivais?
Janaína: Uma coisa bacana é que nessa conexão com o continente africano, estamos redespertando debates. Em Moçambique, por exemplo, temos o retorno de que os vídeos sobre transição capilar (do cabelo alisado para o cabelo crespo, natural) tem ajudado mulheres e meninas de lá. Esses produtos, principalmente filmes disponíveis no Youtube, são feitos por meninas negras brasileiras. É quase uma rede de solidariedade. O audiovisual tem a capacidade de fazer isso.

Agência Brasil: E como aumentar a demanda por esse conteúdo no Brasil?
Janaína: A formação de público é uma questão central. Os filmes precisam ser vistos. Mas mostrar os filmes [em salas de cinema ou televisão] não é suficiente, se fosse, o problema estava resolvido. As pessoas não veem porque elas não gostam e mudar o gosto leva muito tempo. Enquanto você tem uma novela premiada como a Lado a Lado, da Rede Globo [que recebeu o Emmy Internacional em 2013], passando às 18h, em 50 anos da principal emissora de TV do país, você tem uma série como o Sexo e as Negas, em horário nobre com forte divulgação comercial e circulação.

Agência Brasil: Mas é preciso começar a estimular, não?
Janaína: Ainda vivemos em um contexto de imagens que precisamos desconstruir. O cinema é uma indústria, uma indústria de dinheiro que constrói imagens que querem ser vistas. Temos um padrão de cinema de Hollywood, daquilo que você espera ver. E esse padrão repete as estruturas de um universo eurocêntrico onde muito claramente está dividido o lugar das pessoas negras e brancas. Então, o que você vê, em geral, são negros e negras em situação de subserviência, nunca em destaque, sempre com atributos negativos. Isso está no universo da colonização da cultura, do gosto, da estética. É a mesma razão para a gente falar: a coisa está preta quando a situação é negativa, por que denegrir é uma coisa ruim? Por que usar “a coisa fica preta” é ruim? A gente não inventou isso, a gente reproduz isso e isso está nas telas. O cinema que existe é um cinema eurocêntrico que determina padrões estéticos, narrativos, rítmicos e musicais. Se não é isso, pessoas não gostam. Os filmes brasileiros de sucesso, comoTropa de Elite, seguem esse padrão.

Agência Brasil: E o que é preciso fazer?
Janaína: Formar redes de distribuição desses filmes. Se possível, junto com debates. É ir além da exibição. As novas imagens têm que chegar nas salas de aula, criar aderência. Além de mais editais, mais parcerias e a presença do Estado, que facilita a produção e a circulação.

* Publicado originalmente na Agência Brasil. Texto de Isabela Vieira.
A adolescência dos anos 1980 no filme de Marina Person

A adolescência dos anos 1980 no filme de Marina Person


Um público bastante animado compareceu ao Cine Encontro nesta terça-feira, 6 de outubro, para o debate que se seguiu à exibição de Califórnia, primeiro longa de ficção de Marina Person. Esse “filme de formação”, que se passa em 1984, narra as descobertas de Estela (Clara Gallo), uma adolescente que sonha em ir à Califórnia visitar o membro da família por quem nutre maior afinidade, seu tio Carlos (Caio Blat).

A diretora deu início ao bate-papo explicando à mediadora, a jornalista Kamille Viola, suas motivações para se dedicar ao projeto. “Eu tinha muita vontade de falar desse período e da minha geração, de mostrar como era ser adolescente num Brasil que tinha acabado de sair de vinte anos de ditadura, como era iniciar sua vida sexual quando uma doença fatal ligada ao sexo tinha acabado de ser descoberta, de falar de São Paulo nessa época”, explicou, lembrando que o filme tem muitos elementos autobiográficos. A trilha sonora, por exemplo, repleta de sucessos desse período: “São as músicas da minha vida, que fizeram a minha cabeça”, contou, relatando o difícil processo de negociação dos direitos dessas canções”.

Sobre a escolha do jovem elenco, Person disse ter buscado atores que não fossem muito experientes, informando ainda que a protagonista até então só havia trabalhado com teatro amador. “Eu queria trabalhar com esse frescor”, declarou. Quando a mediadora comentou que os membros mais jovens do elenco pareciam muito convicentes como adolescentes dos anos 1980, os atores Clara Gallo, Caio Horowicz e Giovanni Gallo confessaram que a preparação de elenco, a direção de arte e os figurinos foram fundamentais para que eles conseguissem adentrar com confiança esse novo universo. A protagonista chegou mesmo a admitir sua confusão inicial ao lidar com as fitas cassete: “A diretora de arte me ajudou”, esclareceu ela, rindo.

A esse respeito, Horowicz, que interpreta J.M., um menino apaixonado pelo pós-punk, acrescentou: “O quarto do J.M. me ajudou muito a entender o que se passava na cabeça dele”. Apesar da importância dessa ambientação, o ator ressaltou o caráter universal do enredo: “É um roteiro que também fala com a gente, fala com os jovens de hoje”, assegurou. Intérprete do tio Carlos, Caio Blat engrossou o coro de elogios aos profissionais responsáveis por direção de arte, figurino e caracterização.

A realizadora aproveitou ainda a oportunidade para falar um pouco sobre a condição da mulher no mercado cinematográfico, contando que em Califórnia todas as diferentes equipes eram chefiadas por mulheres. “Eu comecei a ver números recentemente: no último Festival de Veneza 13% dos filmes tinham sido dirigidos por mulheres, no de Toronto, 26%. É muito pouco, nós somos metade da população. Temos que repensar muitas coisas, incluindo as formas de representação das mulheres no cinema, que tipo de personagens a gente mostra”, afirmou. Tomando o gancho, Caio Blat se declarou um ator feminista, citando o grande número de trabalhos que tem feito em parceria com diretoras: “Ultimamente, eu só atuo em filmes de mulheres, é muito bom ser dirigido por elas. Eu já gosto de ser mandado por mulheres, então é mais fácil”, brincou.

Texto: Maria Caú, do Festival do Rio 

Fotos: Lariza Lima

Por que Ruth de Souza não é lembrada como atriz de referência no Brasil?

Por que Ruth de Souza não é lembrada como atriz de referência no Brasil?


Uma atriz que foi a primeira entre os brasileiros a disputar um prêmio no Festival de Veneza e uma das poucas a ganhar uma bolsa na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Nome cravado na crítica artística brasileira e com atuação em mais de 40 novelas, 37 filmes e várias peças teatrais, a história de Ruth de Souza perpassa a distinção racial no Brasil (veja mais aqui).

Os anos iniciais de sua carreira na dramaturgia brasileira são relembrados no livro Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro: Relações Raciais e de Gênero nas Memórias de Ruth de Souza (UEA Edições), do historiador e professor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) Julio Claudio da Silva.

O lançamento de obra aconteceu em setembro, no Rio de Janeiro, e o Assiste Brasil conversou com o autor sobre Ruth de Souza, segregação racial no mundo das artes e outros assuntos que deveriam ser discutidos por todos nós, brasileiros e brasileiras. Confira abaixo.


Teatro no Brasil dos anos 1940

O teatro experimental do negro surge para ser um espaço de denúncia da ausência de atores negros no cenário artístico brasileiro. Pelos relatos que a gente encontra na documentação da época, não havia espaço pra atores negros, não havia personagens negros e que os poucos personagens negros existentes eram encenados por atores brancos pintados de negro, através de uma prática chamada de blackface [rosto negro, em tradução literal]. É num cenário de denúncia e de criação de espaço para atores negros que é fundado o teatro experimental do negro e tem início a trajetória artística da atriz Ruth de Souza.

A primeira peça: um passo histórico

Ela sempre pontua que há um acaso, há uma magia em chegar até a peça O Imperador Jones (1945). Ela entrou no Teatro Experimental do Negro e foi descobrindo que precisava de personagens negros pra montagem do elenco numa matéria do jornal. Ao mesmo tempo, a atriz fala que fez o teste e foi selecionada, mas ela não entra na dimensão política e na escolha do conteúdo de O Imperador Jones. Ela enfatiza essa questão importante para ser atriz: o fato de ter sido uma peça escrita por Eugene O’Neill [dramaturgo norte-americano]. Ruth enfatiza a questão do pioneirismo, mas a questão política não aparece.

Na minha interpretação como historiador, o que importa é que ela dedicou mais de 70 anos da sua vida a procurar espaço num meio racionalizado e onde não havia lugar pra atores negros. O que interessa é que ela lutou, no seu cotidiano, em busca desse espaço e para ampliá-lo aos atores negros. Só isso é o suficiente pra gente entendê-la como relevante personagem histórico na luta da sociedade brasileira.

Uma Ruth militante?

A atriz Ruth de Souza, nas suas entrevistas, se manifesta como sendo uma pessoa dedicada à arte, por ser uma pessoa que tem interesse na arte dramática. E não tinha preocupação com a militância política. Eu faço uma interpretação disso, eu acho essa é uma estratégia da construção de uma imagem pública de atriz dedicada e centrada na arte e que busca espaço no pantheon das grandes estrelas brasileiras e tenta n se envolver necessariamente com a questão política. Ao mesmo tempo, ela se orgulha de ter sido a primeira atriz negra a encenar no Theatro Municipal, a trabalhar com textos clássicos e com drama – a crítica via como incapacidade dos negros atuarem em papéis de carga dramática forte.

A cor e o verbo

Em geral, ela não fala da sua experiência de discriminação, do seu testemunho de descriminação enquanto atriz. O que ela faz é uma crítica de como os atores e diretores pensam os personagens negros de uma maneira estereotipa. Ela faz crítica à ideia da mammy, àquele personagem negro que tem que ser como a personagem norte-americana da negra gorda, e não uma camponesa magra. Ela faz uma crítica muito recorrente à sua experiência de discriminação racial na infância, antes de ingressar no teatro.

Um dos temas mais recorrentes nas entrevistas que a dona Ruth produziu é sobre a tese do menor valor mental do negro [sobre o negro ter cérebro atrofiado; tese defendida pelo sociólogo brasileiro Oliveira Viana no século 20 e combatida pelo acadêmico Arthur Ramos]. Ela fala de uma experiência na infância, quando estava estudando em um determinado espaço escolar no Rio de Janeiro e teve contato com um quadro de Debret com figuras do negro, do índio e do branco. Alguém teria dito que o negro teria a mente atrofiada e ela teria ficado constrangida e, a partir daquele momento, ela dedica-se a provar que ela não tinha o cérebro atrofiado, ela passou a dedicar-se a ganhar nota 10 na escola desde aquele momento.

O negro nas telas

Eu acho que a grande importância de a gente pensar a trajetória da dona Ruth de Souza é porque é um problema ainda na sociedade brasileira que ainda se encontra insoluto. Essa luta no cenário brasileiro é uma coisa que ainda está se construindo. Então a sociedade brasileira é marcada pela variável raça? Eu acho que a experiência da dona Ruth de Souza aponta que sim, há varias evidências de que a sociedade é marcada pela variável raça, sim, de maneira a criar uma desigualdade entre brancos e negros.

Eu penso que a partir do momento em que a gente não tem uma representação na direção e nos elencos que reflita numericamente o contingente negro da população brasileira – alguns consideram que são 50%, mas a gente não tem nada próximo a isso. Então o problema continua por ser solucionado. A arte é um espaço de identificação da desigualdade entre brancos e negros na sociedade brasileira.

Meritocracia ou racismo?

Se o mérito é uma questão fundamental nas sociedades ocidentais, um grande legado da Revolução Francesa, e o problema da desigualdade – como alguns dizem – não é a raça, mas é o mérito, a falta de qualificação, a falta de oportunidade e recursos econômicos, como responder a razão pela qual Ruth de Souza não se tornou a unanimidade em termos de reconhecimento de talento?

Infográfico: Vinícius de Brito/Inforgram

 

Marcos Bernstein: um roteirista precisa ter o olhar aberto para a vida

Marcos Bernstein: um roteirista precisa ter o olhar aberto para a vida


Um dos convidados do 48º Festival Brasília do Cinema Brasileiro, o roteirista Marcos Bernstein é um contador de histórias. Em Brasília, o também diretor ministrou aula de roteiro para uma plateia atenta, a quem falou sobre o ofício de transformar ideias, livros, biografias e até música em filme.

O homem por trás do roteiro de Central do Brasil, Terra estrangeira e Chico Xavier – o filme contou, em entrevista ao Portal EBC, como é o seu processo criativo e lembrou a dificuldade enfrentada para adaptar a poesia contida na música Faroeste Caboclo para o cinema. Bernstein também relatou o início de sua carreira – quando abandonou o curso de direito para se dedicar ao cinema – e falou sobre as possibilidades de formação para cineastas, apontando os caminhos que o levaram a ser roteirista da sétima arte.

Portal EBC: Em suas aulas e palestras sobre roteiro, qual pergunta você mais ouve?
Marcos Bernstein: Sempre tem essa coisa de “como começa”, como é a carreira de roteirista. Acho que umas coisas mais práticas.

Portal EBC: E tem caminho aí?
Bernstein: É muito diferente da época em que eu comecei. Acho que, hoje em dia, há bem mais caminhos do que antigamente. Eu comecei em uma época pós plano Collor. Naquele tempo, a Embrafilmes tinha acabado, quase não se faziam filmes e os espaços eram bem pequenos. Hoje em dia, você tem a TV a cabo. O cinema continua difícil, mas você tem mais caminhos para um roteirista trabalhar o audiovisual. A TV hoje é mais interessante do que era naquele tempo, então é um campo que as pessoas querem explorar.

Portal EBC: Sua relação começa com o cinema ou com o desejo de contar, escrever histórias? Que filmes você viu que foram fundamentais nesse primeiro momento?
Bernstein: Quando eu era pré-adolescente eu via muitos filmes, era apaixonado por cinema e pelo cinema clássico. Assistia muito cinema hollywoodiano clássico na televisão. Como não tinha TV a cabo, eu virava a noite vendo aquela programação noturna, em especial nas férias. Como eu era bom aluno, ninguém reclamava que eu ia dormir tarde e foi assim que fui ficando cinéfilo. Comecei a ler livros de cinema e aquilo foi se tornando uma necessidade para mim. Mas eu não tinha coragem de arriscar. Era época do plano Collor, o cinema não existia, e eu também não conhecia ninguém que vivesse daquilo. Até que chegou uma hora que eu resolvi arriscar. Conheci um amigo que fazia curta-metragem e um outro que namorava a filha de um cineasta e então comecei a ver que existiam seres humanos que viviam daquilo, já não era um mundo tão fora do meu universo. Eu fiz o curso de direito e, no meio da faculdade, resolvi tentar fazer cinema. Comecei a fazer alguns cursos na área, um deles foi com o Walter Sales e o outro foi com o João Sales, irmão dele.

Portal EBC: Era um curso de roteiro?
Bernstein: Não. Era um curso de cinema. O Walter fez um sobre direção cinematográfica, umworkshop, e depois o João fez um curso sobre documentário. E aí, no final, eu pedi um emprego.

Portal EBC: O seu primeiro trabalho foi então o Terra estrangeira?
Bernstein: Como roteirista foi. Eu tinha feito um roteiro de documentário com João Sales que nunca foi gravado, chamado “nômades”. Era um projeto lindo, parecia um livro, mas nunca saiu. A partir daí, eu comecei a me interessar mais pelo processo de roteiro.

Portal EBC: Como funciona o seu processo de criação? Você é contratado a partir de um argumento que já existe?
Bernstein: No cinema, normalmente, alguém tem a ideia de contar a vida de alguém, de adaptar um livro, ou mesmo uma história. É a partir daí que você começa a desenvolver. No meu caso, eu acho que as pessoas procuram o meu olhar, a maneira como eu contaria aquela história. A partir das necessidades, do olhar das pessoas que estão me contratando, eu trago o meu olhar e a gente vai achando a melhor maneira de contar aquela história.

Portal EBC: Você acha que um bom roteirista nasce pronto e que não existe formação para isso?
Bernstein: Não. Toda formação é boa. Acho também que é preciso ter um olhar aberto para a vida, pra ver as coisas que acontecem em volta de você. Estamos sempre escrevendo sobre o ser humano e você tem de ter alguma vivência, saber como as pessoas falam e como o ser humano é. Não acho que você precisa viver tudo o que há no mundo, mas tem de ter um olhar pra entender um pouco o comportamento humano e, a partir daí, escrever. Não vejo nenhum mal que a formação possa lhe trazer, desde que você não fique enfurnado em casa, só usando referências de coisas já feitas para fazer as suas coisas.

Portal EBC: Quando você começa a escrever você já tem o fim? Ou isso acontece ao longo do processo?
Bernstein: Acho que você tem que ter um fim, mesmo que depois vá mudar. É meio que uma maratona.

Portal EBC: Acontece muito isso, mudar o fim ao longo do processo?
Bernstein: Acontece. O outro lado da rua, que é um filme que eu dirigi, é uma história minha e eu tinha um fim que queria muito: um encontro em que as verdades vinham à tona. Escrevi o filme inteiro para chegar nessa cena e fiz a primeira versão assim. Porém, quando fui ver, era a pior coisa do roteiro. Reescrevi e inventei um novo.

Portal EBC: Você tem no seu currículo filmes com grandes bilheterias. Acha que a experiência na construção de narrativas te ensinou como agradar o público? Não sei se podemos chamar de fórmula, mas tem um processo que você conhece bem por causa da experiência, que você sabe mais ou menos como agradar?
Bernstein: Acho que a experiência vai te dando alguns recursos que, não necessariamente vão atrair o público, mas vão permitir que um público maior se comunique com aquele filme. Então, não é pra atrair, mas para permitir e não espantar. Por exemplo, ao fazer um curta para mais gente, a princípio, você tem que ser mais explicativo do que ao fazer um filme para menos gente.

Portal EBC: Durante sua aula aqui você falou sobre a necessidade de uma certa didática…
Bernstein: É preciso didática em algumas coisas. Você tem que saber no que você está se metendo, não é? Tem alguns filmes que chegam para você que são para fazer público. Há certas coisas que eu sei que tenho que evitar em um filme como esse. Eu não vou fazer uma cena polêmica quando o cara quer muito público. Se eu não quero estar diante dessa situação, então eu não aceito o trabalho. Quando o filme é seu, você tem um pouco mais de liberdade, mas, mesmo assim, tem parceiros. Se a parceria foi feita com a premissa de que você terá liberdade total é uma coisa, mas cada trabalho tem uma proposta diferente.

Portal EBC: Eu queria que você falasse sobre o processo de criação do Faroeste Caboclo. Porque é uma coisa muito especifica, você tem uma canção, e as pessoas tem uma adoração por essa música. Como foi fazer o roteiro do Faroeste?
Bernstein:  Eu já tinha pesquisado muito da vida do Renato Russo [vocalista da banda Legião Urbana] para fazer o roteiro do Somos tão Jovens, antes de Faroeste. E eu conhecia muito da cena brasiliense da época do Renato, que era a mesma do Faroeste. Então, teve um lado que eu meio que brinquei. O Renato não tem nada a ver com a história do Faroeste, não é biográfico, mas é como se fosse uma história que se passou na vida real dele. Como se um leitor de jornal tivesse testemunhado aquilo. Então, eu tinha uma base histórica bacana, mas tinha essa coisa complexa que era pegar aquela música que todo mundo achava que parecia um argumento de cinema e que, na verdade, não parecia. Não havia uma ordem muito clara. Tinha muita confusão. É aquela coisa de atirar para várias direções, o que a música permite, a poesia né? Tem uma coisa mais poética no fluxo da música, você não está ali traduzindo e interpretando tudo. Eu tinha que buscar aquilo e dar uma coerência narrativa. Foi um trabalhão porque, realmente, tinha muita coisa que não fazia sentido como uma narrativa. Então, era preciso criar. Mas, por outro lado, era uma música que eu também adorava. Curiosamente, o primeiro filme que eu tentei fazer como diretor foi Eduardo e Mônica [música da Legião Urbana] e eu cheguei a tentar falar com o Renato, a gente chegou a discutir; foi no ano que ele morreu. Depois eu acabei fazendo esses dois filmes. Mas o Eduardo e Mônica já é uma música que tem muito mais argumento do que o Faroeste.
Portal EBC: E a ideia morreu?
Bernstein: Não. Eles estão fazendo, o René (Sampaio), que fez o Faroeste, está fazendo o Eduardo e Mônica.

Portal EBC: Qual a reação das pessoas quando descobriram que você era o roteirista do Faroeste?
Bernstein: O filme fez muito sucesso. Então, eu acho que a maioria das pessoas gostou. Mas eu recebi umas duas ou três mensagens no Facebook de gente muito revoltada, realmente querendo me matar, porque acharam que eu tinha destruído a música da adolescência deles. Reclamavam que eu não tinha feito coisas que estavam na música, e que eu tinha tomado liberdades que eram afrontas à música. Foi bem estranho e desagradável, nunca tinha acontecido comigo.

Portal EBC: Depois de um tempo trabalhando como roteirista, você foi para direção. Isso foi um processo natural de querer contar as histórias a partir do seu olhar?
Bernstein: Acho que existem dois tipos básicos de roteiristas. Um é o roteirista que se aproxima do roteiro pela escrita, pelo encanto, pela literatura ou por ser escritor. E tem o roteirista que se aproxima pelo encantamento com o audiovisual e o cinema. Esse tem um encanto mais genérico pelo cinema. E eu sou assim. Eu sempre gostei de cinema. Eu me aproximei como cineasta e acabei me tornando um roteirista. Quando eu fui para direção, não foi nenhuma frustração porque não contavam direito meus roteiros, até porque eu tinha muitos filmes bem feitos. Foi um desejo de dirigir e de trabalhar com ator, de decupar, de fotografar e de tudo isso. Eu queria participar do processo inteiro.

Portal EBC: E qual o próximo projeto que você está envolvido?
Bernstein: Eu vou dirigir um filme, no começo do ano que vem, que se chama Todo amor. É um roteiro meu, escrito com meu parceiro Marc Bechart. É uma história de amor com bastante humor e um pouco de drama. Vamos filmar ano que vem e deve sair em 2017.

* Texto de Cibele Tenório, do Portal EBC

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