Brasileiro não vê cinema alternativo brasileiro porque não se vê nele

Brasileiro não vê cinema alternativo brasileiro porque não se vê nele


Adoro filmes brasileiros. Já foi tempo em que eu cruzava a cidade pra assistir filme brasileiro. Detalhe no cruzar a cidade. É literalmente cruzá-la.

É que moro na zona norte e os cinemas cult do Rio estão na zona sul, eixo rico da cidade. Filme brasileiro não-comercial, simplesmente por sê-lo, entra no bolo “cult”.

E olha que nem moro em bairro periférico. Apesar de levar uma hora pra chegar no cinema, pegava apenas um ônibus. Tem quem leve a duração de um filme pra chegar no cinema.

Ah, e outra: você faz o quê às 14h? Trabalha, né. Sabe que horas passa o filme brasileiro? Adivinha.

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‘Mate-me Por Favor’: violência, religião e puberdade

‘Mate-me Por Favor’: violência, religião e puberdade


O vírus da puberdade atinge cada um de diferentes formas. Em Mate-me Por Favor, ele se propagou através de assassinatos, da sexualidade e da religião.

Anita Rocha da Silveira se amarra em analisar o escatológico da puberdade, com muito sangue, saliva, sexo e violência. Seus curtas premiadíssimos eram assim, e seu primeiro longa também é. O cinema brasileiro costuma mostrar um lado muito blasé da melancolia juvenil, mas Anita veio para dar um basta nisso.

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‘A Frente Fria que a Chuva Traz’ e a luxúria da high society juvenil

‘A Frente Fria que a Chuva Traz’ e a luxúria da high society juvenil


A Frente Fria que a Chuva Traz nos apresenta tudo que há de mais bonito e melancólico no Rio de Janeiro. Na cena inicial, a bela carioca chega em seu conversível importado no Vidigal, favela onde é possível gozar de uma das mais belas vistas da cidade. Para a socialite, não bastava tomar sol em frente à praia do seu bairro nobre. Era preciso também experimentar o marginal. E cinema marginal é justamente a vanguarda de Neville de Almeida, cineasta que volta aos circuitos com mais transgressões, agora ao lado do excêntrico Michel Melamed, o talentoso apresentador de Bipolar Show, do Canal Brasil.

No primeiro álbum de sua carreira, o rapper Criolo fez a música “Vasilhame”, que fala sobre o consumo de drogas e seus efeitos sociais. Seus trechos e o enredo de A Frente Fria que a Chuva Traz são uma (in)feliz coincidência.

Um inocente goró, depois um doce, uma balinha/ O perréco atiçando com as mina de sainha/ Amanhece tubarão e vai dormir sardinha/ Tira sarro dos irmão que só colam com tubaína/ Cheio das graça com um copo de caipirinha/ Saber quem é mais macho no jogo do vira-vira!

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Algo inerente a todos as juventudes, não importa a geração, é o desejo de experimentar. Ostentar experiências, sentir-se incluído e obter prazer a todo custo. Sob estes precedentes, um grupo de jovens aluga uma laje no Vidigal para dar uma festa e experimentar o que é estar numa comunidade, mas claro, sem abrir mão dos luxos da high society: a bebida importada, a balinha, o MD, a maconha e a cocaína.

E eu ouvi falar que umas mina quer entornar/ Enxugar o caneco pra depois snif, snif/ Aaah!/ Os maluco tão ali ó,/ Ah!/ Eles não vão perdoar

Os protagonistas são dois renomados atores globais (Johnny Massade e Chay Suede) e seus personagens são ambos clássicos estereótipos. Homens héteros, brancos, machistas, arrogantes e de classe alta. Ambos convidaram suas amigas socialites, as quais são o tempo todo hiperssexualizadas e tanto elas quanto parecem obter intenso prazer disso, protagonizando cenas que dariam ótimas teses sobre a cultura do estupro.

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“Me vê uma balinha”

“Só por um boquete”

“Tá, vamo ali”.

O grupo de meninas lembra muito as ninfetas da Disney em Spring Breakers e as socialites cleptomaníacas de Bling Ring, dois outros filmes que exploram o niilismo juvenil. Elas sentem prazer no perigo, usam seus corpos para conseguir drogas, bebidas, status e sexo, além de alienarem-se perante a sua condição de personagens fúteis e reprodutoras do machismo. O que Melamed e Neville fazem é expôr a crueza da realidade. Durante a sessão, mais de meia dúzia de pessoas se retiraram da sala. Se vivenciar as cenas do filme já ofende, imagina só vivenciá-las ao vivo? No Rio de Janeiro contemporâneo, é costumeiro. Assim como em Ibiza, Miami, Londres…

“Eu era muito fútil, sabe? Era mesmo”, diz uma personagem enquanto puxa um beque de maconha. “Era muito desrespeitada no bar onde eu trabalhava. Mas aí resolvi sair de lá e abrir meu brechó. Virei uma mulher livre, independente”, revela.

Uma terceira pessoa habita a área VIP do niilismo. Amsterdã é o nome da protagonista interpretada por Bruna Linzmeyer, completa de tomada, entregando uma performance ao mesmo tempo singela e degradante.

Em sua cena de apresentação, Amsterdã explica ao segurança contratado para a festa (Mario Bortolotto, autor da peça que inspirou o filme) o motivo pelo qual ela está ali. Deita-se no chão sujo do banheiro debaixo da privada e alega que não gosta de nenhum dos presentes e apenas vai às suas festas para conseguir droga. “Afinal, rico gosta de gastar em droga cara”. Ela diz ainda como adquiriu a heroína com a qual havia acabado de se picar: através de um boquete.

Além do segurança, dois personagens secundários, mas não menos importantes, compõem o pequeno grupo social do longa —  grupo este que representa uma enorme parcela da sociedade. O dono da laje, “visionário” empreendedor Gru (Flavio Bauraqui), vive a eterna contradição se odeia ou não os playboys que o sustentam. Gru ainda faz o papel de aviãozinho. Afinal,playboy que é playboy não vai à boca.

“Vai lá, Gru, traz pra mim”. Gru recebe uma nota de 100 euros. “Só aceito em dólar, mas vou quebrar um galho pra tu”.

Além do dono da laje, um ex-morador da comunidade e atual cantor sertanejo faz parte da festa. Ele (Michel Melamed) vem descolado, à moda sertanejo universitário, e pede às suas fãs que busquem um copo de uísque importado. Uma das várias fãs inclusive raspa a virilha em sua homenagem, fazendo jus ao refrão de sucesso do artista, o qual fala sobre uma tal mulher “raspadinha”.

O filme apresenta outros três aspectos dignos de mérito: trilha sonora, fotografia e interpretações. A sequência inicial é embalada por um remix do hit “Summer”, de Calvin Harris, com o nostálgico “Sou Foda”, dos Avassaladores, hit do funk carioca que fez sucesso há alguns anos. O funkeiro MC Livinho, conhecido pelas músicas extremamente explícitas, eróticas e machistas, é prestigiado com “Bela Rosa”. A trilha também conta com a figurinha carimbada em festas: “Vamos Beber”, do MC Sapão.

Sem contar com o privilégio de fotografar um filme no alto do Vidigal. Uma estranha ponte conecta a obra a Terrence Malick e Neville de Almeida, em função das cenas com aspecto onírico e por vezes fabuloso, usando uma lente super desfocada.

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Para finalizar, as interpretações são sarcasticamente reais. Por ser adaptado de uma peça teatral, alguns dos diálogos são monólogos carregadíssimos, a nível de palanque público. Os atores entraram na onda e deram seu máximo em cena, fazendo dramalhões quando necessário e jamais medindo palavras.

Perto do fim, Amsterdã apresenta um monólogo arrasador e existencialista em meio a uma festa. Um desabafo, um grito por atenção. A menina aponta o dedo para todos e para si mesma, numa desesperada tentativa de tirar sentido naquilo tudo. Naquele eventos, naquelas pessoas, em si mesma e no estilo de vida de toda uma geração e de toda uma cidade.

A Frente Fria que a Chuva Traz é um retrato cru de quem melhor sabe lidar com o escatológico do ser humano. Neville de Almeida, transgressor do cinema marginal brasileiro, volta com tudo após 18 anos e entrega uma obra que incomoda. Dividi minha atenção entre os boquetes nas mamadeiras cheias de uísque e os senhores que saiam da sessão. Talvez ocupados, entediados ou simplesmente enojados. A high society juvenil é um misto de lírico e melancólico, prato cheio para o cinema. Em meio à paisagem sempre haverá o morro.

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