Por que precisamos falar sobre assédio?

Por que precisamos falar sobre assédio?


“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”. Susllem Meneguzzi Tonani, 28 anos, figurinista na Rede Globo, assediada no trabalho por José Mayer, 67 anos, ator renomado.

(mais…)

O que aprender com Tieta sobre preconceito e homofobia

O que aprender com Tieta sobre preconceito e homofobia


Nada melhor do que passar o Dia dos Namorados ao lado daquela pessoa que você ama, não é mesmo? Essa experiência de poder compartilhar amor com o próximo deveria ser tão simples e natural… Mas não no mundo real. Foi exatamente neste dia que o mundo foi noticiado com a tragédia em Orlando, na Flórida (EUA): um atentado a uma boate gay que deixou pelo menos 50 mortos e outras tantos feridos. Mais um exemplo da cultura do ódio, da homofobia e das violências que as pessoas LGBTTI estão sujeitas a enfrentar diariamente.

E você quer saber o que isso tem a ver com o Brasil? O que tem a ver com a cultura audiovisual brasileira?

A realidade que nos circunda e a leitura de uma certa “consciência social”, mais um pouco de drama, tramas e amores proibidos, são os bons ingredientes de uma boa novela, como bem sabem as noveleiras e noveleiros de plantão. Destacamos hoje Tieta (1989), estrelada por Betty Faria, obra inspirada no romance Tieta do Agreste (1977) de Jorge Amado, que também deu origem ao filme homônimo, em 1996, com Sônia Braga no papel de Tieta.

A história de Tieta reflete uma mulher que desafia os costumes conservadores de seu tempo e que enfrenta todas as amarras culturais e sociais que lhes são impostas. Tieta sai de casa ainda pequena brigada com o pai, que a violenta pela sua personalidade e seus atos “afrontosos”. A personagem volta anos depois muito rica e poderosa para o interior baiano, onde defende e enfrenta todos os preconceitos e opressões de pessoas que se preocupam mais com a “moral e os bons costumes” do que viver uma vida livre, plena e feliz, sem prejudicar ninguém.

O que Tieta nos ensina e por que é tão atual uma personagem de décadas atrás?

É possível aprendermos muita coisa com Tieta, principalmente sobre a emancipação feminina. Entretanto, o enfoque a ser dado aqui é como ela conseguiu entender a si mesma, encarar todos os obstáculos e voltar forte para superar os preconceitos. Uma pessoa à frente de seu tempo, que respeitava a vida, o amor e a liberdade. Talvez precisemos de uma Tieta para ensinar alguma coisa ao século XXI…

Bem, em pleno 2016, vivenciamos hoje no país uma disseminação do preconceito aos gays, lésbicas, pessoas trans e intergêneros. Isso ocorre às vezes pela falta de conhecimento, mas, na maioria dos casos, é reflexo de uma sociedade incapaz de ver o amor se manifestando das mais diversas formas (qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar, como diz a música Paula e Bebeto).

Fatos como a tragédia de Orlando, nos fazem (ou deveriam fazer) pensar sobre o  espaço crescente do discurso de ódio a pessoas desse grupo no Brasil. O preconceito mata! Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, a cada 27 horas um crime de ódio acontecia no Brasil em 2015: 52% gays, 37% travestis , 16% lésbicas , 10% bissexuais, somando 318 assassinatos – sem contar com as agressões não fatais.

A pergunta que fica é o que desperta em um ser humano tamanha violência que o faz capaz de matar porque determinado ser humano ama outro ser humano? De verdade é difícil de compreender! Abaixo, confira a cena em que Tieta faz um grandioso discurso contra a homofobia e o preconceito:

Acorda, Raimundo: seu pesadelo é realidade

Acorda, Raimundo: seu pesadelo é realidade


Os apreciadores da MPB provavelmente têm Chico Buarque como um dos grandes representantes, e talvez concordem que Cotidiano é uma de suas mais célebres canções. A composição aborda o dia a dia de um casal, em que cada um exerce seu papel: a mulher acorda para cuidar do marido, chama-o para o trabalho. Depois de tomarem o café da manhã, ele segue para um duro dia de trabalho, enquanto ela cuida do lar e o espera ansiosa e alegremente. Esse deveria ser um exemplo de um casal feliz, não é mesmo? Tudo estando naturalmente no seu lugar, certo? Errado! Erradíssimo!

Chico Buarque realizou muitos trabalhos musicais que trataram do período da ditadura militar no Brasil, abordando temas como violência, opressão e também mostrando como as dinâmicas sociais eram influenciadas por esse contexto. É justamente nesse último ponto que se encontra Cotidiano, pois ela não aborda um relacionamento saudável, mas sim a submissão e falta de liberdade que a mulher tem perante o homem.

A menção à música de Chico não está aqui por acaso: “todo dia ela faz tudo sempre igual/me sacode às seis horas da manhã” pode ser a frase que passa pela cabeça logo no início de Acorda, Raimundo… Acorda! O curta dirigido por Alfredo Alves foi realizado durante o período em que trabalhava no Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Econômicas), órgão responsável pela produção, na década de 1990.

Cena do curta "Acorda, Raimundo... Acorda". Foto: Reprodução/YouTube

Cena do curta “Acorda, Raimundo… Acorda”. Foto: Reprodução/YouTube

Eles lavam, passam e cozinham

Embalado já de início por um samba melancólico, Acorda, Raimundo… retrata um dia na vida de Marta (Eliani Giardini) e Raimundo (Paulo Betti), trabalhadores assalariados que enfrentam dificuldades financeiras para cuidar da família — assim como grande parte das famílias brasileiras. É justamente na naturalização do cotidiano que se desenvolve a principal crítica social: as percepções e relações de gênero.

Desde a sinopse, o senso comum de compreensão dos papéis sociais que se pré-estabelecem e seguem a lógica de uma divisão sexual do trabalho se destaca: “ela está no papel dele” ou “ele acorda no papel dela”. Mas, colocar em destaque esse imaginário coletivo da naturalização da divisão de tarefas por gênero também não foi por acaso. A grande sacada do curta de Alfredo Alves é trazer à reflexão a possibilidade de um universo invertido — e quão “absurdo” ele poderia parecer.

O homem é quem acorda e tem a obrigação de chamar a mulher para não se atrasar para o trabalho. Ele prepara o café, arruma roupas, cuida da casa e das crianças, além de aguentar as violências físicas e simbólicas que sofre em sua própria casa. Enquanto isso, cabe à mulher o serviço que sustenta a família, diversão com as amigas fora de casa e ainda aproveitar o momento para discutir como os homens estão cada vez piores, principalmente depois do “masculinismo”, querendo mais liberdade e outras besteiras. “O que eles deveriam mesmo era se preocupar com roupas para lavar”.

Dos primórdios da humanidade ao século 21

Todas essas questões apontam para um valor incutido na construção das identidades feminina e masculina, que coloca sob o manto natural uma ética de dominação do homem “macho”. Essa divisão sexual parece estar na ordem das coisas. Do lançamento do curta nos anos 1990 até os dias atuais, é possível afirmar sim que muitas coisas mudaram na perspectiva da busca pela igualdade de gênero. É mais comum encontrar mulheres que trabalham fora de casa, mas esse fato não a isentou das obrigações domésticas, de seu “dever” de cuidar da casa e criar os filhos; nem mesmo o de merecerem salários iguais ou superiores a homens que exercem a mesma função dentro de uma mesma empresa.

Por esses e outros motivos (inclusive devido a mentes conservadoras que representam a sociedade brasileira contemporânea no âmbito político-social), não é velho se falar aqui, hoje, de Acorda, Raimundo…. A sombra do conservadorismo e retrocesso ainda continua a pairar e obscurecer compreensões de mundo e, ao fazer pensar que a razão de ser é natural, dará como opção continuar a seguir aquilo que há muito vinha sendo aceito.

Ao invés de “acorda”, diga “basta” para Raimundo.

 

‘Quanto vale ou é por quilo?’: quando a solidariedade pode ser comercializada

‘Quanto vale ou é por quilo?’: quando a solidariedade pode ser comercializada


A começar pelo título muito bem elaborado, Quanto Vale ou É por Quilo? é daquele tipo de filme que chama atenção por nos levar a refletir sobre novas questões quanto mais pensamos. De uma adaptação do conto Pai Contra Mãe, de Machado de Assis, o roteiro, assinado pelo também diretor Sérgio Bianchi, estabelece uma analogia entre o contexto social do Brasil escravocrata e a sua atual realidade socioeconômica, tendo enfoque no comércio de escravos e na exploração da miséria pela mídia.

A indústria da solidariedade é desmascarada pelo filme que também permite o questionamento do que mudou desde a escravidão. Afinal, o que é ser livre? Hoje, cultiva-se o sentimento de liberdade (por vezes ilusório) porque os elementos da escravidão mudaram. “O que vale é ter liberdade para consumir. Essa é a verdadeira funcionalidade da democracia”, como diz o personagem de Lázaro Ramos. E quando se fala em alforria, antigamente vendida pelo senhor ao escravo, Quanto Vale… mostra o lado “democrático” da prática, que consiste na manutenção da esperança de poder mudar a situação daqueles que estão à margem do sistema.

Na avaliação do atual sistema carcerário brasileiro, outra comparação surge: suas celas, construídas com dinheiro público, remetem aos porões dos navios negreiros. A exclusão e o abismo social são temas fortes trabalhados, bem como a troca de favores, perpetuação das desigualdades e a denúncia como negócio, marketing e moral.

Quem ganha com os “investimentos comunitários” pode não ser a comunidade, e a solidariedade parece funcionar como abstenção de uma obrigação moral e cidadã. Estes fatos são reafirmados quando se destaca que as ações sociais funcionam como empresas gerando lucro. Como colocado por Bianchi,  é nesta situação que surge uma linha tênue entre corrupção e responsabilidade social.

Apesar de ter sido lançado em 2005, há dez anos, Quanto Vale… continua sendo atual. A riqueza da abordagem de assuntos pertinentes à sociedade brasileira permite muitos questionamentos e reflexões. É necessário ter “olhos para ver” em qualquer época da história, até mesmo porque não há rótulos estampados discernindo mocinhos de bandidos, e as aparências podem ser meras maquiagens.

[authorbox authorid=”7″ title=”Sobre a autora”]

Pin It on Pinterest