A história da greve e da classe operária no cinema brasileiro

A história da greve e da classe operária no cinema brasileiro


A história da classe operária, dos trabalhadores rurais aos metalúrgicos, é retratada pelas lentes do cinema em um período de grande agitação política. Para conhecer a situação dos trabalhadores brasileiros nas últimas décadas e compreender o papel da sindicância na reivindicação por melhorias das condições de trabalho, direitos básicos e melhores condições de vida, confira a seleção de filmes:

1. ABC da Greve (1979)

Documentário de longa-metragem dirigido por Leon Hirszman acompanha o movimento de 150 mil metalúrgicos da região do ABC paulista em luta por melhores salários e condições de vida. A decisão pela greve vem em resposta ao governo militar, que ignora as reivindicações da classe. O governo, em contrapartida, mobiliza a polícia em repressão.

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11 dramas brasileiros para assistir na Netflix

11 dramas brasileiros para assistir na Netflix


Na sub-seção de filmes brasileiros de drama na Netflix, são sugeridos 31 títulos (que, diga-se de passagem, em sua maioria não se identificam pelo gênero). Para ajudar na escolha, confira a seleção de filmes que não podem ser deixados de fora da sua lista. Confira:

1. Entre Nós (2014)

Sete amigos celebram em uma viagem a publicação do primeiro livro do grupo. Na ocasião, escrevem cartas para serem abertas no futuro. No entanto, essa viagem acaba em uma tragédia e, após dez anos depois, retornaram ao local para descobrirem em que pessoas se transformaram. A direção é de Paulo e Pedro Morelli.

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‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais

‘Um Lugar ao Sol’: o Brasil dos abismos sociais


Durante pouco mais de uma hora, o cineasta pernambucano Gabriel Mascaro reúne testemunhos da quase intocável elite brasileira. A classe apresentada em Um Lugar ao Sol (2009) não é aquela que transita entre a classe média, mas que já nasceu em berço de ouro e cresceu vendo o Brasil “por cima”, como explica uma das personagens entrevistadas.

Com auxílio de um curioso livro que mapeia e revela o nome da elite brasileira, foram localizados os 125 donos de coberturas de prédios, dos quais apenas nove concordaram em ceder uma entrevista para o documentário. Os moradores de coberturas são das cidades de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo e debatem sobre status e poder, revelando um lado do Brasil pouco investigado pelo audiovisual brasileiro.

Historicamente, o cinema brasileiro, seja ele de ficção ou documental, acostumou o espectador a assistir a produções que trazem a pobreza e exclusão social do sertão da seca e da fome e das favelas da desordem e violência. Mascaro apresenta em seu documentário um tipo brasileiro que parece novo, mas que revela a sua tradição histórica em um país socialmente polarizado.

O documentário não só transgride o convencional trazendo personagens que escancaram o seu conservadorismo, elitismo, falta de empatia ou mínimo conhecimento acerca da realidade da maioria no Brasil. O choque do espectador também acontece diante da montagem que, ocultando as perguntas feitas pelo entrevistador, constrói sua narrativa utilizando apenas as palavras ditas pelos nove entrevistados.

Inevitavelmente, os pensamentos e realidade revelada pelas lentes de Mascaro causam risos, seja por desconhecimento de uma realidade relativa e por vezes absurda, esta observada sob ponto de vista do espectador ou do entrevistado; ou pelo constrangimento das declarações preconceituosas, arrogantes, inescrupulosas, que beiram o ridículo ou o assustador. No entanto, são negadas ao espectador as perguntas que motivaram tais respostas.

Analisando a decisão da montagem, pode-se questionar os objetivos dos realizadores a recolherem os depoimentos e manipularem a voz dos “intocáveis” contra eles próprios. Muitos que aceitaram o convite por vaidade, talvez para exibir suas vidas surreais, são encurraladas e postas diante de um falso espelho.

Enquanto afirmam que suas preces são ouvidas primeiro por estarem “mais perto de Deus”, olham para o mundo abaixo com desprezo e desconhecimento, exaltando a segregação social e racial. A luta de classes é emoldurada por cenas de contrastes. Subindo em um elevador panorâmico à beira-mar, a agitação e realidade são deixadas para trás – ou para baixo. Do chão, pescadores trabalham à sombra dos prédios (e sonhos) inatingíveis.

Inclusive, a construção social da paisagem urbana e verticalização também são temas retratados em Um Lugar ao Sol. Anterior ao documentário, Mascaro realizou uma intervenção urbana chamada Quando a Tarde Cai (2009), que inicia uma reflexão a partir da relação entre a luz do Sol e sombra dos prédios na orla da praia de Boa Viagem. O distanciamento de classes sociais e construção de realidades divergentes no mesmo espaço é fato que reflete na arquitetura das coberturas, barracos, palafitas e favelas.

Após oito anos do lançamento de Um Lugar ao Sol e ao assistir documentários mais recentes de Mascaro que exploram a relação de classes, tais como Avenida Brasília Formosa (2010) e Domésticas (2012), pode-se afirmar que o diretor filmou aqueles que podem ser chamados de inimigos. Presos em uma armadilha, os personagens sentem-se seguros, como também assumem a postura defensiva, e revelam quem são e aquilo que representam – e ainda a quem não representam. Esta é a prova de que o Brasil sempre esteve dividido.

9 documentários brasileiros para assistir na Netflix

9 documentários brasileiros para assistir na Netflix


A seção de documentários brasileiros na Netflix ainda reúne poucos títulos. Porém, essa breve seleção traz uma variedade de estilos de produções do gênero, desde resgates biográficos e jornadas de autodescobrimento até debates sobre atuais temas sociais.

Confira uma lista com nove sugestões de documentários para assistir na Netflix:

1. Cidade de Deus: 10 Anos Depois (2013)

O documentário dirigido por Cavi Borges e Luciano Vidigal reúne parte do elenco de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, para investigar o que mudou em suas vidas após uma década do filme que se tornou uma das obras mais importantes do cinema brasileiro. Entre os entrevistados estão Seu Jorge, Leandro Firmino, Alice Braga, Darlan Cunha e Thiago Martins.

2. O Começo da Vida (2016)

Com direção de Estela Renner e produzido pela Marinha Farinha Filmes (Tarja Branca Muito Além do Peso),  a pergunta que orienta o documentário é: estamos cuidando bem dos primeiros anos de vida, que definem tanto o presente quanto o futuro da humanidade? A produtora oferece um material de discussão sobre o filme, disponível para download.

3. Cauby: Começaria Tudo Outra Vez (2015)

Dirigido por Nelson Hoineff, o documentário resgata a trajetória reúne de Cauby Peixoto, que faleceu em 2016, aos 85 anos. Toda a carisma do artista, que se considerava o Elvis Presley do Brasil, é revelada através de entrevistas e registros de arquivo de importantes momentos de sua carreira.

4. Marias: a Fé no Feminino (2015)

Marias não pode ser resumido como um documentário religioso. Ele pode ser traduzido como um filme sobre o poder espiritual do feminino. As diretoras Joana Mariani e Leticia Giffoni viajaram pelo Brasil, Cuba, México, Peru e Nicarágua para desvendar a relação de Marias entre a fé e seus próprios nomes.

5. Paratodos (2016)

Oito grandes atletas paralímpicos brasileiros estão reunidos no documentário de Marcelo Mesquita. Eles apresentam sua força, perseverança e também compartilham as alegrias e aflições desde os Jogos de Londres em 2012.

6. O Dia do Galo (2014)

Dirigido por Cris Azzi e Luiz Felipe Fernandes, O Dia do Galo acompanha a preparação de cinco torcedores do Atlético Mineiro, o clube de futebol mais popular de Minas Gerais, antes do time entrar em campo e disputar uma partida histórica.

7. Transpatagônia (2014)

Foram 6 mil quilômetros percorridos com ajuda de uma bicicleta, cruzando a Transpatagônia. Guilherme Cavallari vive não apenas uma aventura, como também vivência uma jornada espiritual. O documentário tem direção de Cauê Steinberg.

8. Ilegal (2014)

O documentário mostra a luta de mães e seus filhos pela regulamentação da maconha medicinal. Ao longo do filme, são levantadas questões como burocracia, preconceito e a busca pela resposta do por quê não dar a solução para um sofrimento que poderia ser sanado. A direção é de  Tarso Araujo e Raphael Erichsen.

9. Mamonas para Sempre (2009)

Cláudio Kahns entra na história de Dinho, Júlio Rasec, Samuel Reoli, Bento Hinoto e Sérgio Reoli e conta como surgiu a Banda Utopia, até se transformar em um fenômeno musical dos anos 1990, os Mamonas Assassinas.

 

Esse circo é por toda vida, Jonas?

Esse circo é por toda vida, Jonas?


Na periferia de Salvador, a curta temporada do Circo Tropical faz a alegria da criançada do bairro. Quem anuncia o espetáculo é Jonas, de 13 anos, responsável por montar a bilheteria, ensaiar os artistas iniciantes e preparar o quintal de sua casa para erguer o circo sem lona.

A história desse garoto com espírito circense é retratada pelos olhos da cineasta Paula Gomes em Jonas e o Circo Sem Lona. Jonas é um garoto comum, que tem um cotidiano semelhante a tantos outros garotos de periferia do Brasil, criado por sua mãe e sua avó, sem a presença de uma figura paterna.

Chegar a esse “lugar comum” é o ponto-chave do documentário. As imagens captam a beleza da naturalidade, mas sem disfarçar os sintomas da pobreza material que habitam o lugar. Em profundidade, Jonas… revela seu foco na investigação das perspectivas de uma criança, a passos de entrar na adolescência, que alimenta sonhos.

Enquanto os noticiários na rádio e televisão discutem o aumento do envolvimento de jovens menores de 16 anos na criminalidade e a redução da maioridade penal, Jonas é repreendido na escola por não assistir às aulas e não ser um exemplo para seus colegas. Em casa, uma mãe superprotetora e tão sonhadora quanto o filho planeja um futuro repleto de oportunidades para o garoto, mas distante do circo.

A inocência do olhar e naturalidade do personagem, ainda que às vezes pensada, constrói uma relação afetiva não apenas entre a diretora, que se retira do “por trás das câmeras” e não esconde a sua parcialidade, mas também com o espectador. Apesar de surgir o desejo de encontrar soluções para os conflitos vivenciados por Jonas, o documentário não pretende apresentar uma resolução para o presente ou futuro.

Paula Gomes cria um manifesto, levantando a bandeira a favor da infância e do brincar, direitos nem sempre garantidos às crianças. Alguns dos amigos de Jona são a prova disso, já que se dividem entre o circo, os estudos e responsabilidades que deveriam ser de adultos. O direto do brincar foi tema de outra produção brasileira do gênero, Tarja Branca (2014), de Cacau Rhoden, com a qual Jonas… dialoga muito bem.

O documentário traça um paralelo entre Jonas, Paula e suas respectivas equipes do circo-cinema. Os desafios de fazer e viver de arte expostos por ambos os lados demonstram um confronto entre os sonhos e a realidade constituída de padrões. A contraposição desses fatos leva ao questionamento de métodos tradicionais de ensino e a maneira que eles podem (ou não) ser determinantes no futuro de uma criança.

Na confusão interna de uma mente pueril em transformação, Jonas questiona a diretora sobre o que será do documentário se seu circo acabar. O que seria do cinema sem histórias e personagens sonhadores? Jonas e Paula deixam evidenciar o desânimo ao serem confrontados pela realidade. Esse mesmo sentimento é transmitido com uma perda de ritmo da narrativa, talvez inevitável frente ao sentimento de que “tudo está acabado”.

A simplicidade assumida não retira do documentário sua essência e profundidade. Sem apelações, Paula Gomes desperta no espectador o sentimento de empatia pela causa de Jonas, ao tempo em que o faz participante de sua vida, sendo testemunha de significativas etapas de seu amadurecimento. Jonas e o Circo sem Lona é um delicado relato de sonhadores.

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