Quais são as produções do cinema negro e  indígena contemporâneo?

Quais são as produções do cinema negro e indígena contemporâneo?

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Dados de pesquisas feitas pelo GEEMA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) escancaram a alarmante desigualdade de gênero e de raça no cinema brasileiro. Dos filmes nacionais de maior bilheteria entre 2002 e 2012, 84% foram dirigidos por homens brancos, seguido de 13% por mulheres brancas e 2% por homens negros. Nesse período de dez anos, nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras.

Entretanto, para além do circuito de produção e distribuição comercial, essa realidade permanece sendo a mesma? Existe um movimento expressivo de realizadores negros e indígenas que resistem e contestam o sistema hegemônico, branco, masculino e heteronormativo do cinema brasileiro? Para responder essas questões, a pesquisadora Iris Regina, pós-graduanda em Artes e Tecnologia na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), realiza a pesquisa “Cinema Negro e Indígena: uma necessidade política e afetiva”.

Através de um levantamento, a pesquisadora busca catalogar realizações brasileiras a partir dos anos 2010 que foram dirigidas, roteirizadas ou produzidas por cineastas negros e indígenas, homens e mulheres. Serão consideradas obras de qualquer gênero cinematográfico, incluindo videoarte e videoclipes, sejam curtas, médias ou longas-metragens. É possível participar da pesquisa até dia 10/04 e enviar as informações através do formulário: http://bit.ly/cinemanegroindigena

Segundo Iris, após o levantamento será possível analisar narrativas distintas do olhar colonizador, as formas de representação e realizar também um recorte de gênero. “A partir da análise dos filmes, busco entender os anseios que impulsionam essas produções e compreender como esses corpos negros transitam no imaginário coletivo. Quero saber quem somos, onde estamos e do que falamos”, diz.

Imagem em destaque do filme “Kbela”, de Yasmin Thayná, disponível para assistir online.

A história do cinema contada a partir de filmes dirigidos por mulheres

A história do cinema contada a partir de filmes dirigidos por mulheres

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Quantos filmes dirigidos por mulheres são reconhecidos e citados como marcos históricos? Quem são as diretoras que fizeram e continuam a fazer a história do cinema? Como seria fazer uma releitura histórica somente a partir de filmes dirigidos por mulheres? Esse debate é proposto pelo curso Mulheres no Cinema, ministrado pelas jornalistas e críticas Joyce Pais, criadora do site Cinemascope, e Luísa Pécora, do Mulher no Cinema, que será realizado no Instituto de Cinema, localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, a partir da próxima terça-feira (2).

A iniciativa foi motivada pela atualidade e relevância do tema, com um recorte raramente visto no mercado. Dividido em três módulos – intitulados “Cineastas pioneiras”, “Vanguarda e resistência” e “Cinema contemporâneo” -, o curso, que conta com 12 encontros, oferece um panorama introdutório do cinema realizado por mulheres no Brasil e no mundo. “Percebo que, com a pauta da representatividade nessa indústria cada vez mais no centro das discussões, o interesse por parte dos cinéfilos em filmes que fogem do cânone também é crescente, e se manifesta tanto nas redes quanto em eventos que participo pelo Brasil”, afirma Joyce Pais.

O programa destaca obras produzidas por realizadoras como Alice Guy-Blaché, Agnès Varda, Chantal Akerman, Helena Solberg, Kathryn Bigelow, Ava DuVernay, Anna Muylaert, entre outras. Serão discutidas, também, como as narrativas abordadas nestes trabalhos estão atreladas, inevitavelmente, a questões históricas, sociais, comportamentais e políticas. Segundo Luísa Pécora, o objetivo do curso “é apresentar e discutir o trabalho de cineastas que contribuíram e contribuem para a produção audiovisual, ampliando o repertório dos alunos e colocando-os em contato com novos olhares, pontos de vistas e linguagens”.

Mulheres do cinema brasileiro

O cinema brasileiro não ficará de fora da releitura histórica. O programa do curso Mulheres no Cinema traz pontuações importantes sobre a participação da mulher no meio cinematográfico no Brasil. Ao longo do curso, serão destacadas realizações de cineastas como Cléo de Verberena (1909-1972) no cinema mudo; Gilda de Abreu (1904-1979), com a chegada do cinema sonoro; Helena Solberg (1938 – ), única diretora do Cinema Novo; Ana Carolina (1949 – ) e Tereza Trautman (1951 – ) na resistência contra a censura da Ditadura Militar; Adélia Sampaio (1944 – ), primeira cineasta negra a dirigir um longa no Brasil e diretora do primeiro filme com temática lésbica; até o cinema brasileiro contemporâneo, representado por Anna Muylaert, Tata Amaral, Laís Bodanzky e Carla Camurati.

O investimento para o curso é de 3 x de R$ 265 e as matrículas podem ser realizadas no site: http://bit.ly/mulheresnocinema-curso-inc. Para mais informações, enviar e-mail para [email protected] e/ou [email protected]

Serviço

QUANDO| A partir do dia 02 de abril de 2019

DIAS DA SEMANA E HORÁRIO |Terça, das 19h às 22h

DURAÇÃO | 12 encontros

CARGA HORÁRIA | 36h

INSCRIÇÕES | http://bit.ly/mulheresnocinema-curso-inc

‘Chega de fiu fiu’ exige a liberdade dos corpos femininos nos espaços públicos

‘Chega de fiu fiu’ exige a liberdade dos corpos femininos nos espaços públicos


Uma pesquisa de 2015 da ONG ActionAid revelou que 86% das brasileiras já sofreram assédio em espaços urbanos. Entre elas, 77% já receberam assobios e 57% ouviram comentário de cunho sexual. Não é difícil encontrar mulheres que comprovem a veracidade desses números. O documentário “Chega de fiu fiu” inicia sua narrativa com relatos em off de vítimas de assédio sexual. Elas relembram agressões verbais, psicológicas e físicas que sofreram em locais públicos. As vozes são tantas que se somam, confundem-se e ecoam pela cena rotineira da cidade.

Com uma equipe majoritariamente feminina, as diretoras Fernanda Frazão e Amanda Kamanchek realizam um filme compacto, com pouco mais de 70 minutos, e também poderoso na essência de seu discurso. A premissa é apresentada desde o título: “Chega de fiu fiu” faz uma explanação sobre as múltiplas formas de assédio e violências de gênero que, em diversas situações, são praticadas sem pudor e impunemente. A realização faz parte da campanha homônima, criada pela Think Olga, para denunciar o assédio contra mulheres.

Três personagens de diferentes regiões do Brasil são centrais na narrativa. São elas: a artista visual Rosa Luz, do Gama (GO), mulher preta e trans; a estudante de enfermagem e manicure Raquel Carvalho, de Salvador (BA), preta, periférica, lésbica e vítima da gordofobia; e a professora Tereza Chavez, de São Paulo (SP), mulher branca e de classe média-alta. É elementar à construção do documentário a diversidade de vozes e olhares, que não se restringe a essas personagens. A narrativa em si transmite essa pluralidade, desenvolvendo-se em três modos: a partir das histórias das personagens, das falas de especialistas, de uma câmera subjetiva e de uma câmera que observa.

A montagem alternada entre as diferentes perspectivas dá um ritmo fluido e conexo à narrativa, iniciando com o resgate histórico das mulheres na sociedade e concluindo com corpos femininos ocupando as ruas da cidade. A trilha sonora surge em momentos pontuais do filme, trazendo a voz de mulheres que cantam sobre o empoderamento feminino e abominam a violência de gênero. Na questão visual, enquadramentos cuidadosos não se limitam aos planos médios e fechados das entrevistadas. O sentimento de medo, palavra recorrente na fala das personagens, revela-se imageticamente nas ruas, escadarias e becos desertos, mal iluminados, ou nas silhuetas de homens desconhecidos que caminham em direção à câmera.

Para além das análises, relatos, denúncias e representação da resistência feminina, que encoraja as mulheres espectadoras a não se calarem e reconhecerem que não estão sós, “Chega de fiu fiu” se propõe a construir um diálogo com o público masculino. Apresentando dados e manchetes jornalísticas, Frazão e Kamanchek trazem a constatação de que, tão importante quanto falar sobre o feminismo, é falar sobre a masculinidade. As diretoras são assertivas ao distanciar a câmera para registrar uma roda de diálogo formada apenas por homens, brancos e pretos, de distintas realidades sociais, que refletem sobre as atitudes que consideram aceitáveis. A desconstrução de papéis e comportamentos dos homens cabe a eles próprios.

Nessa zona de conforto em que os homens interagem com semelhantes, a voz masculina reproduz discursos que escancaram a masculinidade tóxica. Um dos integrantes fala sem titubear que existem mulheres que “pedem” para serem assediadas devido à roupa que usam. A cena que precede esse momento traz Tereza Chavez mostrando roupas que estava usando em momentos que foi assediada: de saia ou de calça, o assédio aconteceu. Outro participante do grupo de homens considera inadmissível chamar uma mulher de “gostosa” no ambiente de trabalho, mas acredita que algumas, devido a roupa que usam, “gostam de ser assediadas”.

Com uma câmera escondida, uma das personagens ou uma das diretoras (a identidade não é revelada) caminha pela cidade. Assobios, buzinadas, sussurros e até mesmo um enfrentamento direto de um homem que se sente em seu direito ao encarar uma desconhecida porque a considera bonita. O uso da câmera subjetiva funciona para o espectador como uma comprovação prática das teorias, reflexões, dados e das histórias compartilhadas pelas personagens sobre o que é ter seu corpo objetificado. No entanto, o alcance desse recurso é restrito a uma realidade específica, não representando o que uma mulher da periferia, preta ou trans, por exemplo, enfrenta no espaço em que ocupa.

Esses dois olhares, do observador e do participante, são pontos altos da narrativa, pois apresentam quem são os assediadores. Não são monstros, mas sim homens integrantes da sociedade feita para homens, masculinos, e de uma cultura que consente com comportamentos nocivos, machistas e misóginos. “Chega de fiu fiu” investiga, denuncia, desconstrói e questiona. O documentário cumpre com excelência o papel de reunir vozes contra o assédio sexual e de fortalecer possibilidades de transformações sociais, seja por meio do debate, pelo combate ou pelas políticas públicas. O que se quer é que a violência não continue a passar despercebida.

O documentário “Chega de fiu fiu” foi selecionado para o FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema e exibido na mostra “Lute como uma mulher”. 

‘Arábia’: a jornada do operário que escreve

‘Arábia’: a jornada do operário que escreve


“Arábia”, primeiro trabalho conjunto dos realizadores mineiros João Dumans e Affonso Uchoa, conta uma história conhecida, mas sob um ponto de vista não tão comum. Os trabalhadores estiveram representados em diversas fases do cinema brasileiro, com ênfase nos anos 1970 e 1980, impulsionados pelo movimento grevista. Em filmes mais recentes, pode-se citar “Corpo Elétrico”, de “Marcelo Caetano”, e “Pela Janela”, de Caroline Leone.

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‘Idioma Desconhecido’: uma investigação consciente do inconsciente humano

‘Idioma Desconhecido’: uma investigação consciente do inconsciente humano


Dando continuidade às discussões filosóficas e sociais iniciadas em “Observar e Absorver” (disponível no YouTube), José Marques de Carvalho Jr. se desafia a retratar o irrepresentável em seu segundo longa-metragem. Em “Idioma Desconhecido, a proposta é investigar a formação do inconsciente, a alienação e a vulnerabilidade do indivíduo na sociedade de consumo.

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