Chegou aos cinemas na última semana o longa-metragem Com os Punhos Cerrados, dirigido e estrelado por Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti, da produtora independente Alumbramento. A trama é sobre três jovens que usam suas vozes em uma rádio pirata para gritar por liberdade enquanto planejam uma revolução. Eugênio, Joaquim e João invadem as transmissões de rádios tradicionais de Fortaleza e declamam poesias, tocam músicas de protesto, fazem citações e provocações que passam a incomodar profundamente os poderosos da cidade, entre eles, um “barão” do forró.

Certa noite, eles são vistos disfarçados pelas ruas da cidade em meio a ações que atacam a base constitutiva da sociedade burguesa e capitalista. Além de protestar nas ondas das rádio, eles distribuem panfletos nos casarões de bairros ricos. Até que Franco, empresário influente e magnata do forró, decide destruir a qualquer custo, a rádio pirata e a vida dos três jovens. “Precisamos eliminar esses desordeiros que invadem os nossos lares. Ofereço 15 mil dólares americanos pela captura desses três inimigos da ordem e do progresso”, conclama Franco nos auto-falantes da cidade.

Assim surge a misteriosa Salomé (Samya de Lavor), contratada pelo empresário para espionar o trio. Sua beleza acaba conquistando os radialistas e, quando se insere naquele submundo, ela parece se arrepender de tê-los colocado em risco. Sua chegada transforma profundamente a vida do grupo.

“Será este o nosso fim? Fizeram de tudo para nos calar, mas nossas vozes persistem e insistem em existir. Estamos em guerra, não podemos desistir. Precisamos continuar. Ouçam todos: vocês não podem desistir. Vocês precisam continuar. É a nossa última chance de escapar ao vazio completo, da aniquilação total do que conhecemos como humanidade”, anunciam os anarquistas na rádio pirata.

Com os Punhos Cerrados é bastante teatral e tem um ritmo lento, em contraposição à urgência da luta popular. Os textos recitados no ar são tão fortes quantos às músicas que levam ao ar – uma delas, Les Anarchistes, hino do anarquismo interpretado pelo cantor e compositor francês Léo Ferré. O filme tem um clima paranoico, claustrofóbico e sufocante que parece simbolizar a dificuldade de manter os sonhos por uma sociedade mais justa. Apesar de ter sido exibido pela primeira vez em 2014, no Festival de Locarno, na Suíça, o longa acaba trazendo à tona o mal-estar social que vem vitimizando o Brasil nos tempos recentes.

O filme ganhou Prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, Prêmio do Júri Popular no Cine Under Recife e de Melhor Filme nos festivais Cine B e Transcinema Festival Internacional de Não-ficção. Este é o 11º longa da Alumbramento. Criada em 2006, em Fortaleza, a produtora reuniu um grupo de jovens artistas que compartilham o desejo de produzir arte em diálogo com as mais diversas linguagens e colocar como questão central a produção criativa de imagens no cinema e nas artes visuais.


Matéria de Xandra Stefanel publicada originalmente na Rede Brasil Atual