Perucas, maquiagem reforçada, plumas, paetês e muitas roupas e atitudes extravagantes. O documentário São Paulo em Hi Fi, de Lufe Steffen, revisita a história das principais casas noturnas voltadas para o público gay nas décadas de 1960, 1970 e 1980 na cidade de São Paulo. O filme que chega com exclusividade ao CineSesc nesta quinta-feira (19), é lançado exatamente na semana do Dia Internacional Contra a Homofobia, celebrado no último dia 17 de maio.

O longa-metragem traz muitas imagens de arquivo de shows e depoimentos de mais de 20 testemunhas que, de alguma forma, viveram aquelas noites regadas à diversão, sensualidade e medo. Lufe entrevista frequentadores e donos de casas noturnas, jornalistas militantes, drag queens e transformistas que dividem com os espectadores suas lembranças e experiências pessoais.

Entre os entrevistados estão o escritor João Silvério Trevisan, o jornalista Celso Curi, autor da primeira coluna gay do jornalismo brasileiro (Coluna do Meio, 1976), o historiador norte-americano James Green e os jornalistas Leoão Lobo e Mário Mendes. Um dos depoimentos mais emocionantes é o da empresária Elisa Mascaro, proprietária de três das mais importantes casas noturnas da época, o K-7, o Medieval e o Corintho. Há também as lembranças nostálgicas (e às vezes pitorescas) da transformista Miss Biá, da transexual Gretta Starr e da drag queen Kaká di Polly.

O filme oscila entre recordações divertidas e lembranças difíceis de um tempo em que o preconceito e a violência contra gays, lésbicas e transexuais e transformistas era ainda maior. A jornalista e videomaker Rita Moreira puxa da memória um dos momentos de tensão que viveu na noite paulistana: “Eu frequentava um lugar muito interessante – em plena ditadura – chamado Dinossaurus. Ali, nós dançávamos freneticamente, era aquele monte de mulher se beijando, se abrançando, dançando… E pela porta entra uma fileira de soldados (…) Naquela época, eles tinham uma cara pior ainda. Eram uns trinta. Eles dão a volta na pista e nós continuamos dançando. É isso que eu me lembro com grande glória. Eles deram mais umas voltas com uma cara de perigosíssimos e quando saíram, nós continuamos dançando um pouco mais aliviadas. Era horrível aquele tempo, mas a gente conseguia se divertir.”

Além de festas animadas na Homo Sapiens, na Off, na Val Improviso e da azaração nos bares lésbicos Ferro’s Bar, Moustache e Feitiços, São Paulo em Hi Fi também traz à tona histórias de luta contra a homofobia e a violência. James Green relembra a primeira passeata contra a repressão policial, realizada no dia 14 de junho de 1980, em frente ao Theatro Municipal. Segundo ele, cerca de 800 pessoas gritavam “Abaixo a repressão! Mais amor e mais tesão!” em um tipo de protesto até então inédito. “Todo mundo [estava] cheio de alegria. Realmente, foi a primeira vez que gays, lésbicas e seus aliados foram para a rua”, afirma.

Ao final, a alegria acaba se transformando em dor, com os relatos que resgatam o surgimento da Aids. “Se não tivesse havido a Aids, toda essa coisa que a gente está vivendo agora, de aceitação de direitos, a gente teria vivido lá atrás. O verdadeiro retrocesso do movimento gay foi a Aids, porque de repente havia uma doença que só os gays tinham e que só os gays transmitiam. Então, ser gay deixou de ser divertido, deixou de ser transgressivo, deixou de ser moda, deixou de ser charmoso para ser perigoso”, declara o jornalista Mario Mendes.

São Paulo em Hi Fi fica em cartaz por um curto período no CineSesc, com quatro sessões diárias, e em breve deve estrear em outras cidades. A programação completa pode ser conferida na fan page do filme.


Rede Brasil AtualPor Xandra Stefanel

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual