Fechado há mais de 35 anos, o Cine Olinda, que leva o nome da cidade histórica de Pernambuco onde está localizado, voltou a receber na última quinta-feira, dia 5, uma mostra de filmes. A exibição, no entanto, teve que ser feita do lado de prédio, já que o espaço está fechado para reforma há décadas. A sessão de filmes na rua foi programada justamente para chamar a atenção para o problema, como um protesto.

“Essa reforma é mais velha que eu. Muitas pessoas nem sabem que isso é um cinema. Esperamos que com essa atividade ao lado do cinema as pessoas olhem para ele, saibam da sua existência e cobrem do Poder Público a conclusão da reforma e a abertura desse equipamento cultural”, disse integrante do movimento CineRua Karuna de Paula.

O Cine Olinda, que em 2016 completa 105 anos, foi fechado em 1965. De acordo com pesquisa feita pelo movimento CineRua, após o fechamento, o prédio teve vários fins – de armazém de açúcar a alojamento para desabrigados – até ser desapropriado em 1979. Em 1981, a primeira tentativa de reforma para devolver o cinema ao local não foi concluída.

O prédio é um exemplar da arquitetura Art Déco, típico das décadas de 1920 a 1940, e estava em ruínas até a restauração da estrutura entre 2003 e 2004. A Prefeitura de Olinda concluiu o serviço, mas argumentou na época que não havia recursos para montar o cinema e fazê-lo funcionar.

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Uma noite de ocupação no Cine Olinda. Foto: Clélio Tomaz/Cine RuaPE

Quatro anos e uma tentativa frustrada depois, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) assumiu o projeto, mas questões burocráticas prejudicaram o andamento dos trabalhos. A última notícia foi a suspensão do contrato com a empresa que ganhou a licitação para realizar o serviço, em março de 2016.

Em 2008, o Cine Olinda chegou a ser aberto para abrigar alguns eventos, como a Mostra de Cinema Sapo Cururu, e em 2011 foi um dos espaços da Casa Cor, mostra e arquitetura e design. A sala de exibição, no entanto, nunca ficou pronta, reduzindo ainda mais o número de cinemas de rua na região. E Olinda e Recife vários estabelecimentos do tipo já fecharam diante da competição com as grandes companhias exibidoras instaladas em shoppings.

Cinemas de rua

A valorização dos cinemas de rua é a bandeira do movimento CineRua. “A sociabilidade do cinema de rua é diferente do cinema de shopping. A relação de intimidade e de propriedade é diferente. Tomamos como exemplo o Cine São Luiz, o maior daqui [do Recife]. Tem um preço acessível e atrai pessoas que estão saindo do trabalho, marcam encontro com o namorado, estão esperando uma loja abrir ou encontrar uma pessoa. A ida ao cinema pode ser mais ocasional”, disse Karuna de Paula.

A ativista defendeu também a necessidade de espaços para exibição de produções independentes, sobretudo nacionais e pernambucanas, já que cinemas de shopping ocupam quase todas as suas salas com superproduções estrangeiras. “Pernambuco é um dos estados com maior produção atual, e de qualidade. É preciso escoar tudo isso, e os cinemas de rua tem essa característica. Exibem filmes que falam com o local, que problematizam a realidade.”

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Exibição de filmes pública ao lado do Cine Olinda, fechado desde 1965. Foto: Paulo Souza/Cine RuaPE

O CineRua, o movimento Ocupe o Cine Olinda e o Ponto de Cultura Cinema de Animação divulgaram e recolheram assinaturas para um manifesto que será entregue aos órgãos públicos responsáveis pelo cinema, como o Iphan e a Prefeitura de Olinda. “Reivindicamos o Cine Olinda não apenas como sala exibidora de cinema independente, dando vazão a uma importante produção ignorada pelo mercado, mas como um núcleo de formação, produção e exibição, um centro cultural capaz de abrigar pontos de cultura e outros núcleos aglutinadores da produção criativa”, diz um trecho do documento.

No manifesto, os grupos pedem ainda que o Iphan e a prefeitura esclareçam publicamente a atual situação e a gestão do equipamento, “e que se coloque em discussão estratégias e soluções para que ele seja entregue à população ainda este ano”. O manifesto também pede a realização de uma audiência pública em até 30 dias, com participação do Ministério Público, para definir formas de ocupação e de reinício das obras, além da criação de um comitê de fiscalização para acompanhar as providências.

Reportagem por Sumaia Villela, correspondente da Agência Brasil