Dando continuidade às discussões filosóficas e sociais iniciadas em “Observar e Absorver” (disponível no YouTube), José Marques de Carvalho Jr. se desafia a retratar o irrepresentável em seu segundo longa-metragem. Em “Idioma Desconhecido, a proposta é investigar a formação do inconsciente, a alienação e a vulnerabilidade do indivíduo na sociedade de consumo.

Os personagens, entre eles Gregório Duvivier, Otto, Lourenço Mutarelli e Eduardo Marinho, fazem reflexões sobre despolitização, manipulação midiática, intersubjetividade, inconsciente coletivo e relações descartáveis. Esses complexos conceitos da psicologia social, que passam por Carl Jung e Zygmunt Bauman, são debatidos de maneira acessível e muito bem exemplificados.

A consciência é adotada como ferramenta de investigação. As perguntas que norteiam o filme retiram a noção do inconsciente de uma esfera reflexiva e a transforma em algo aplicável no cotidiano. O racismo e a segregação social, por exemplo, são discussões que se relacionam à construção do inconsciente coletivo. Gregório Duvivier faz adequadas críticas ao senso comum que vangloria a meritocracia e sustenta estereótipos até mesmo por meio do humor.

No entanto, ele não é a figura mais adequada para se aprofundar no assunto da desigualdade social. Quem entra como protagonista e assume seu lugar de fala para realizar esse aprofundamento é Nabby Clifford, músico e ativista ganês radicado no Brasil. Com clareza, ele explica como o racismo se perpetua no inconsciente a partir da formação léxica que sustenta um sentido pejorativo à palavra “negro” (peste negra, lista negra, magia negra, humor negro).

Escancarar a forma que o racismo e o preconceito se desenvolvem na essência do indivíduo é tão importante quanto falar na objetificação da mulher, outro mal perpetuado no inconsciente. A reflexão é incitada em breves comentários, mas não ganha força. Apesar da preocupação em diversificar debates e questionar padrões, o documentário falha ao não trazer vozes femininas representativas – de 15 entrevistados, apenas duas são mulheres.

Essa crítica é estimulada pelo próprio discurso de “Idioma Desconhecido”. Ao tempo que o documentário provoca reflexões, ele também encoraja a criticidade ao contestar o próprio cinema na representação do real. As entrevistas em cores são intercaladas com cenas em preto e branco que sugerem um plano não consciente. As imagens mostram a rotina de uma cidadão comum na cidade, seguindo fluxos e executando repetições, ressaltando o modus operandis e até certa inércia de quem se adéqua ao movimento.

Saindo da esfera artística-teórica-elitizada, José Marques acrescenta o depoimento de três trabalhadores. As cenas, em contraste aos intelectuais, aparecem em preto e branco, sugerindo que os personagens se insiram na narrativa como integrantes do plano não consciente. Um desses personagens, Rodrigo Lucena, morador em situação de rua, revela uma breve consciência sobre seus direitos, mas indica como o pouco acesso à informação o transforma em vítima de um sistema que despolitiza para controlar.

Assista ao documentário Idioma Desconhecido abaixo:

O filme foi realizado através de financiamento coletivo. O Assiste Brasil recebe sugestões através do e-mail [email protected]

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