“Arábia”, primeiro trabalho conjunto dos realizadores mineiros João Dumans e Affonso Uchoa, conta uma história conhecida, mas sob um ponto de vista não tão comum. Os trabalhadores estiveram representados em diversas fases do cinema brasileiro, com ênfase nos anos 1970 e 1980, impulsionados pelo movimento grevista. Em filmes mais recentes, pode-se citar “Corpo Elétrico”, de “Marcelo Caetano”, e “Pela Janela”, de Caroline Leone.

Mas será difícil encontrar um discurso que se equipare ao de “Arábia”. André (Murilo Caliari), jovem morador de uma vila de operários, encontra um caderno onde Cristiano (Aristides de Sousa) compartilha sua memórias. Nessa autobiografia, sua trajetória de vida se confunde com a saga de seu trabalho, do campo à indústria. Dumans e Uchoa optaram por não adotar o trabalhador como objeto de sua narrativa e o colocam em posição de narrador-personagem.

Não cabe ao espectador e nem a André a fazer julgamentos de bem ou mal sobre as revelações. O único sentimento que se desperta é a empatia ou a identificação. Se a meritocracia valesse para a prática, é certo que Cristiano trilharia uma jornada de herói, com conquistas merecidas após tanto esforço e sofrimento. Mas não é assim tão simples na realidade, e nem mesmo no universo fílmico representado no filme.

A falta de condições básicas, a insalubridade e a saúde debilitada são aspectos revelados nas imagens dominadas pela poeira, fuligem e temperaturas desconfortantes. Porém, “Arábia” quer falar muito além do que se pode ver. Conversando com seus companheiros de trabalho, Cristiano debate se é pior dormir no concreto ou na madeira; carregar grãos ou sacos de cimento. Através das rodas de diálogo e cartas, o filme resgata a história do movimento operário, denuncia as péssimas condições de trabalho e retrata também a esperança (ou a falta dela) do trabalhador que, antes de tudo, é um ser humano.

Na pausa do trabalho, Cristiano conversa sobre experiências como carregador e compartilha seus sonhos. Imagem: Divulgação

Como se em uma fuga para redescobrir seu lado humano e reconhecer algo a mais que sua mão de obra, Cristiano permite-se sentir – e tanto sente que logo de início quer falar sobre a mulher que o marcou. São poucas as personagens femininas que aparecem na tela mas, quando surgem, cumprem um propósito narrativo. O romance entre o personagem-narrador e Ana (Renata Cabral) não é retratado com o intuito de objetificar o corpo da mulher, valendo destacar que a nudez não é explicitada nem em momentos de intimidade do casal.

Há cenas que engrandecem “Arábia” e o confirmam não só como um filme de representação, mas também de denúncias, ainda mais se inseridas no contexto atual de reformas trabalhistas. A “negociação” com o patrão que sequer assinou a carteira do empregado ressalta a disparidade de forças: sem dinheiro, casa ou qualquer estrutura, Cristiano dorme, come e vive no local de trabalho há três meses e nunca recebeu um salário. Ou aceita essas condições ou recebe o pagamento em mexericas para ir embora: sua opção é comer mexerica por falta de dinheiro.

Para além das imagens, os diretores demonstram uma preocupação a mais com a utilização do som. O momento que sustenta essa afirmação ocorre em um instante catártico, em que o silêncio expõe o vazio interior do personagem. O operário que desperta para a sua realidade e não consegue vislumbrar um futuro. O despertar é individual, mas o sentimento é coletivo: “queria puxar meus colegas pelo braço” e “falar no ouvido de cada um”, divaga Cristiano. “Arábia” não quer contar a história de um personagem, mas de uma classe explorada, de homens que são resumidos a sua força de trabalho e de um povo encurralado pelo poder.

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