José Padilha é o diretor brasileiro mais famoso no cinema comercial atual e foi chamado pela Netflix para criar uma série. O tema? A Operação Lava Jato. O problema? Um tema tão complexo e impactante para a história política e social do país precisa ser retratado com muita responsabilidade.

Mas responsabilidade narrativa não tem sido o forte de Padilha nos últimos anos. Antes de ir para Hollywood, Padilha produziu uma trilogia de ficções em solo nacional e sobre o país: Última Parada 174 (2002), Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2 — O inimigo agora é outro (2010). Cada filme marca um período de Padilha e, gradativamente, expõe sua transformação como autor.

Tropa de Elite (2007) traz Wagner Moura no papel do Capitão Nascimento. Imagem: Divulgação

No mais antigo, o Parada…, Padilha, retrata um personagem à margem da sociedade interessante de ser problematizado: um menino de rua que acaba cometendo crimes. Já no primeiro Tropa de Elite, a confusão vêm desde sua produção. Problemas de roteiro fizeram o filme ter várias caras, o que culminou com um produto final cheio de furos: se propunha a ser uma crítica à violência do BOPE e corrupção da Polícia Militar do Rio de Janeiro, mas para o grande público, soou como um manifesto de exaltação a um policial e corporação assassinos.

As incoerências de Padilha

Padilha se tocou e tentou ser mais coerente com o segundo filme, que buscava a raiz do problema: a corrupção estrutural, direto do mais alto escalão do Estado, que é Brasília. O recente interesse de Padilha em falar da corrupção estrutural, aliado à convulsão política no Brasil poucos anos após o lançamento de Tropa 2, culminaram em sua nova produção: O Mecanismo.

O problema é que Padilha costuma sempre ter boas intenções, mas uma dificuldade danada em se expressar com coerência. A postura de um artista que se afasta do lugar de onde fala para desenvolver uma obra sobre ele é, no mínimo, controversa. Sua nova série no Netflix marca uma era em que o diretor, apontando ser “um inferno fazer cinema no Brasil”, saiu do país para falar sobre o país, mas com incetivo de produtoras gringas.

A narrativa de O Mecanismo tem incoerências históricas — como a decisão de atribuir a frase de Romero Jucá sobre “estancar a sangria” e o “grande acordo nacional” ao personagem que representa o ex-presidente Lula na série. Sobre as críticas de que estaria propagando inverdades, Padilha declarou serem acusações “bobocas”. Uma crítica à sua narrativa não é uma crítica partidária, em defesa ao PT ou a Lula. É uma crítica técnica: faltou pesquisa, faltou coerência com os fatos e ética narrativa; e crítica como cidadão: a realidade do meu país que está sendo veiculada numa plataforma internacional não é essa.

Novas narrativas contra o silenciamento histórico

Não é porque José Padilha fez um filme nacional de expressão que ele deve ser a cara das narrativas brasileiras na indústria. Quando digo que o Brasil não é o que José Padilha pensa, é na tentativa de lembrar à Netflix (e à indústria como um todo) de que o seu alcance é enorme. Incoerências históricas grosseiras ou simplificação de fatos sobre o Brasil é uma irresponsabilidade.

E, sobretudo, lembrar que há temas igualmente urgentes e realizadores igualmente (ou mais) competentes para conduzirem uma narrativa nacional de relevância, qualidade e coerência. Há realizadoras a serem vistas. Homens e mulheres negros que não têm o espaço que lhes é de direito no audiovisual. Além de narrativas historicamente silenciadas a serem colocadas em pauta, como o racismo — o verdadeiro câncer nacional, Padilha.

Que tal a Netflix buscar novos horizontes em suas produções brasileiras? O audiovisual brasileiro vai além da Conspiração filmes ou da patota do Padilha. Não é nem uma questão de apostar em novos realizadores, porque eles já são uma realidade.

Não há renovação, são sempre as mesmas pessoas fazendo cinema e ganhando incetivo financeiro. Portanto, serão sempre as mesmas narrativas que, quando não enviesadas, reproduzirão sempre um mesmo olhar: o do homem que saiu do seu país porque acha um inferno filmar nele, mas quer mostrar ao mundo “a verdade” sobre o Brasil. Ou seria a verdade dele?

Créditos da imagem de destaque: Reprodução/Facebook

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