Saudade, essa palavra exclusiva da língua portuguesa e que não encontra tradução literal em outras línguas, manifesta seus plurissignificativos no documentário que traz no título o mesmo nome. Em “Saudade”, de Paulo Caldas, os países lusófonos, separados pelo mar e por um passado de colonização, interligam-se através desse sentimento conhecido, mas pouco compreendido.

A pretensão do filme não é mostrar olhos úmidos ou provocar no espectador um aperto doloroso no peito. O que se quer é aprofundar questionamentos que, certamente, todos um dia já tiveram. Saudade é dor, tristeza, alegria ou amor? A saudade é tudo isso e, ao tempo que acalenta, ela também pode magoar.

Dada a complexidade do tema, a montagem simples ajuda na construção narrativa. Com poucas variações na estrutura, o documentário intercala entrevistas com cenas de espetáculos de dança, declamações de poemas, apresentações musicais, imagens e reflexões. Os perfis de entrevistados também seguem um padrão, sendo em maioria intelectuais e profissionais de áreas artísticas. A escolha é justificada pela intenção poética e filosófica do filme. O equilíbrio vem com falas pontuais de pesquisadores que discutem a origem histórica, ontológica e etimológica da saudade.

Quem mais se distancia dessa esfera é a comerciante Nilda Maria. A saudade deixa de ser melancólica, findável e essencial para se tornar uma ferida sem cura. Ela, que perdeu seu filho, fala com sua simplicidade que esse sentimento só é bonito quando pode ser esquecido. Com maestria, Caldas relaciona saudade e morte em planos contemplativos da Capela dos Ossos, em Portugal. A sequência conclui com uma referência a “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”, de Marcelo Masagão, em que se lê: “Nos ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”.

“Saudade” não tem pressa em encontrar respostas para explicar esse sentimento (existe até quem comece a sentir essa “palavra” após saber sobre sua existência, como revela o depoimento de uma alemã). Há momentos em que os entrevistados se perdem em pensamentos, compartilham seu silêncio, complicam-se em suas falas, e tudo isso está na tela. Essas são marcas dos esforços de quem tenta transmitir em ideias e gestos aquilo que é intraduzível. Quem melhor sintetiza é Guimarães Rosa, na citação de encerramento: “saudade é ser, depois de ter”.

Na imagem de destaque, Zé Celso em sua participação em “Saudade”, de Paulo Caldas. Crédito: Divulgação 

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