Realizar uma seleção dos melhores filmes brasileiros de 2017 é fazer um panorama de um ano do cinema nacional marcado pela autoria e diversidade temática. Em uma comparação superficial, o público do cinema nacional caiu 40% em relação a 2016, mesmo mantendo a média do número de filmes exibidos nas telonas — segundo o Filme B, 142 longas.

Contudo, os dados obtidos no ano passado são para lá de questionáveis, em decorrência do “fenômeno” de “Os Dez Mandamentos”, com ingressos esgotados e salas vazias. Por essas questões, os números e cifras se tornam aspectos pouco relevantes para a elaboração dessa lista (até porque nenhum dos citados aparece no ranking das maiores bilheterias de 2017 no Brasil).

Acima de julgamentos de qualidade técnica, essa seleção de melhores do ano priorizou a relevância sociocultural e temática dessas obras no contexto histórico do cinema brasileiro. Vale destacar ainda que foram consideradas apenas as produções e coproduções brasileiras exibidas em circuito comercial, entre janeiro e dezembro deste ano. Confira abaixo os dez melhores filmes brasileiros de 2017 — e uma indicação extra —  organizados por ordem alfabética.

A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha

A saudade, sentimento enigmático, transforma-se em imagem e movimento em “A Cidade Onde Envelheço”. Repleto de diálogos, poemas, canções e dilemas, Marília Rocha transmite afeto ao construir relações entre personagens e espaços, sejam esses físicos ou ideais.

As Duas Irenes, de Fabio Meira

As descobertas de um “outro eu” desenvolvidas a partir de segredos e confissões de duas Irenes. Os papéis de protagonista e antagonista se dissolvem, reinventam-se e se fundem. Tons pastéis e planos contemplativos são bônus para uma fotografia sóbria, que enriquece a trama.

Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende

Foto: Divulgação/Luiz Maximiano

“Bingo” transmite a insanidade da televisão brasileira dos anos 1980, com o sucesso dos programas infantis de auditório e do “vale-tudo” pela audiência. Revela-se o lado ainda mais obscuro dos bastidores sem se desvincular do entretenimento. Bônus para sequências emocionantes com Domingos Montagnier, que, ao lado de seu parceiro circense Fernando Sampaio, ensina a essência do ser palhaço.

Comeback, de Erico Rassi

Por trás do pistoleiro há um homem que também envelhece. Com o subtítulo “Um matador nunca se aposenta”, Erico Rassi desenvolve um thriller de ação, gênero raro no cinema brasileiro, honrado pela presença de Nelson Xavier (1941-207) em sua última participação no cinema. Doses equilibradas de drama, suspense e humor.

Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Três gerações de mulheres, cada qual com seus anseios e expectativas, e o papel social do homem exercido na família tradicional, inserida em uma sociedade patriarcalista. Laís Bodanzky questiona a figura da “super-mulher” e coloca em tela palavras e atitudes cotidianas. Rosa (Maria Ribeiro) convive com pessoas intelectuais, militantes, artistas, mas, diferentemente do que se espera, essas pessoas revelam seu lado conservador.

Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano

Muito além do que um filme LGBTT livre de estereótipos, “Corpo Elétrico” anuncia o lado energético e sentimental do operário “chão de fábrica”, nordestino, imigrante e periférico, que se constitui como grupo social.  Destaque para o hipnotizante plano sequência da saída dos trabalhadores da fábrica de roupas (imagem acima).

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

Ficção e realidade se mesclam em um drama que acompanha a situação e a luta de moradores de um prédio ocupado em São Paulo. Refugiados e trabalhadores brasileiros, vítimas de uma crise politico-econômica e de um sistema opressor, movido por dinheiro e poder. Ao introduzir atores profissionais (José Dumont e Suely Franco) no meio, a diretora realiza um jogo cênico que dá uma nova dinâmica à obra.

Jonas e o Circo Sem Lona, de Paula Gomes

O documentário traça um paralelo entre Jonas (personagem), Paula (diretora) e suas respectivas equipes do circo-cinema. As questões abordadas pelo filme são inúmeras, que incluem desde o direito da criança e do adolescente até o questionamento da eficácia do modelo tradicional de ensino. A relação de cumplicidade entre o investigado e a investigadora oferecem ao espectador uma nova perspectiva frente à construção narrativa.

Martírio, de Vincent Carelli, Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho

Invasão e (re)ocupação, extermínio e humanidade, direitos e luta. O martírio dos índios Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul é o tema central do documentário que reconstitui a memória histórica desde os tempos da Guerra do Paraguai. Em um ano marcado por conflitos territoriais e ambientais dentro e fora do Congresso Nacional, Vincent Carelli (criador do Vídeo nas Aldeias) retrata o que poucos querem ver: o genocídio dos povos indígenas brasileiros.

Pitanga, de Camila Pitanga e Beto Brant

Foto: Matheus Brant/Divulgação

Uma das mais belas homenagens prestada a uma lenda viva do cinema brasileiro. Antônio Pitanga foi o nome central do Cinema Novo e assumiu uma postura ativa em transformar a maneira que o personagem negro é construído nos filmes brasileiros. A vivacidade, o carisma e Pitanga, por si só, são um deleite à construção de uma memória.

EXTRA: Joaquim, de Marcelo Gomes

O filme desenvolve o imaginário ao reunir acontecimentos e fatos que, possivelmente, levaram o personagem a tornar-se Tiradentes, o líder da Inconfidência Mineira. Os documentos históricos pouco revelam sobre a história de Joaquim José da Silva Xavier, ficando à cargo do diretor e roteirista construir a figura do mártir nacional com certo cunho de veracidade. O trabalho de figurino e arte são primorosos e prezam pela fidedignidade.

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