“Eu me chamo Ruth e eu espero realmente um dia fazer um papel na vivência de gente, sem a marca de ser negro, branco, azul, cor de rosa. E quem sabe eu algum dia consiga?”. A atriz Ruth de Souza que fala no depoimento cedido ao Acervo Digital de Cultura Negra (vídeo abaixo) é a mesma pequenininha que olhou para uma pintura de Debret com índios, brancos e negros quando alguém lhe apontara: “negro tem mente atrofiada”.

Essa Ruth é a mesma criança com desejo de se vestir de anjinho na procissão de uma paróquia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e ouvir do padre um “não tem anjo negro”! E é a mesma mulher que entrou para a história da dramaturgia brasileira ao ser a primeira negra a encenar no Theatro Municipal do Rio e a concorrer – por esse país tão racista, e nisso me incluo eu, homem e branco – como melhor atriz no Festival de Veneza, em 1954.

Nome cravado na crítica artística brasileira e com atuação em mais de 40 novelas, 37 filmes e várias peças teatrais, a história de Ruth perpassa a distinção racial no Brasil. Agora a trajetória inicial da atriz na dramaturgia (de 1945 a 1952) é relembrada no livro Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro: Relações Raciais e de Gênero nas Memórias de Ruth de Souza (UEA Edições), do historiador e professor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) Julio Claudio da Silva. “A arte é um espaço de identificação da desigualdade entre brancos e negros na sociedade brasileira”, diz o autor do livro, baseado em uma extensa pesquisa em material público e no acervo pessoal de Ruth.

O livro revela casos de discriminação racial relatados por Ruth durante sua infância, mas aponta uma postura não militante da atriz, que recebeu, em 1988, comenda do Ministério da Cultura em função do conjunto da sua obra e da sua colaboração. Mas a “sociedade mundial é marcada pela desigualdade racial e, de uma maneira geral, isso segue a grande indústria ligada ao cinema e às artes”, diz Julio Claudio. O tema da discriminação racial, que se intensifica no livro sobre Ruth, esteve recentemente no discurso da atriz norte-americana Viola Davis, a primeira artista negra a ganhar o prêmio de melhor atriz no Emmy, em 2015 (isso mesmo!).

Mas não é só a produção televisiva dos EUA que reflete o racismo: uma pesquisa mostrou que, em 2014, 93% das pessoas envolvidas na premiação do Oscar eram brancas. “A hierarquia da sociedade pela desigualdade social é uma invenção que vem de fora, da Europa e dos estados unidos”, comenta o pesquisador. “Essa ideia de raça e desigualdade racial pelos estereótipos negativos atribuídos a população negra é uma reprodução do que existe fora do Brasil. E ter os postos de comando na mão da população branca reproduz essa desigualdade”, destaca.

O professor faz uma pergunta que toca o racismo mais velado dos brasileiros. “Uma atriz que foi a primeira entre os brasileiros a disputar um prêmio no Festival de Veneza, logo depois que volta dos EUA [Ruth ganha bolsa para estudar na Universidade de Harvard]. Por que quando se fala em referência em teatro, não é unânime a imagem e o nome da atriz Ruth de Souza, se o mérito é o que pauta a sociedade brasileira?”, questiona.

O livro Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro poderá ser adquirido pelo site da Livraria Cultura ou nas lojas físicas de todo país. Leia e ouça a entrevista, concedida por telefone ao Assiste Brasil, com o historiador Julio Claudio da Silva aqui.

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