Tentar delimitar “As Boas Maneiras” (2017) a um gênero é um erro. Ele não é um filme de suspense e muito menos de terror, como sugere sua apresentação, mas um típico representante do cinema de autor, que, nesse caso, são dois. Juliana Rojas (Sinfonia da Necrópole) e Marco Dutra (O Silêncio do Céu) retomam a parceria após “Trabalhar Cansa” (2011) com uma produção que retrata o lendário sem se desprender do social.

Clara (Isabél Zuaa) é contratada para ser babá do filho de Ana (Marjorie Estiano), ainda por nascer. Morando juntas, elas desenvolvem uma relação de afeto à medida que eventos estranhos e cada vez mais recorrentes permeiam a gestação. O ápice é atingido com o nascimento de Joel (Miguel Lobo), a criança-lobisomem adotada por Clara.

A cada novo ato, o filme parece se transformar em um novo. O primeiro deles é exclusivo das mulheres – tanto que não há homens figurando as cenas. O foco se direciona à maternidade não planejada e solitária, à delimitação sócio-racial entre patroa (branca) e empregada (negra) e às imposições sobre o ideal feminino. As discussões sobre esses temas justificam o título no momento inicial.

É comum que em “filmes de criatura” pouco sobre o passado do personagem paranormal seja investigado. “As Boas Maneiras” adota uma premissa interessante ao iniciar sua narrativa na origem mais intrínseca. A mulher que gera o “monstro” é elevada do grau de secundária, visto que sua presença permanece viva em memórias e detalhes simbólicos ao longo do filme.

Uma nova atmosfera é criada após a morte de Ana. O tom sombrio e a anomalia extravagante cedem lugar ao aconchego de um lar. A passagem do tempo é singela, representada pelas plantas no quintal (que lembram um bosque para o pequeno lobo). A transformação de Clara é mais extrema, e não só em aparência. Ela torna-se uma mulher confiante, dedicada e decidida, que em quase nada se assemelha à personagem inicial.

O clímax introduz um “terceiro filme”. Joel, antes educado e amável, transforma-se em um ser irracional, de comportamento puramente instintivo e livre. O dilema enfrentado por Clara é a parte mais envolvente. Com uma arma em mãos, quer proteger seu filho da sociedade e dele próprio, ao tempo em que a criança representa uma ameaça. Essa relação maternal reforça a lembrança de que há um garotinho por trás do lobo – sentimento que será crucial no desfecho do longa.

O desafio dos realizadores foi condensar em uma única obra suas marcas autorais que se apresentam bem delimitadas. As cenas musicais inseridas na narrativa, por exemplo, são referências diretas ao trabalho de Juliana Rojas, mas não dialogam bem com a narrativa fluída e com cortes secos significativos.

Os momentos de tensão são quebrados, muitas vezes, pelo seu aspecto “trash”, como acontece no nascimento de Joel, antecedido pela morte escatológica de Ana. Os risos na sala de cinema talvez se justifiquem pela incredulidade naquilo que se vê. “As Boa Maneiras” valida sua originalidade e ousadia com uma narrativa que se desprende do tradicional e entrega ao espectador a experiência de ir do horrendo ao cômico em questões de segundos.

Filme visto no X Janela Internacional de Cinema do Recife.

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