Uma charge animada sobre a situação bélica na Europa é considerada o marco inicial da animação brasileira. “O Kaiser” (1917), de Álvaro Marins (Seth), estreou há exatos 100 anos nas telas do Cine Pathé, no Rio de Janeiro. Do curta, restou um único fotograma que mostra o imperador Guilherme II, da Alemanha, sendo engolido por um globo terrestre. Oito animadores brasileiros tomaram a imagem como inspiração e realizam uma reanimação para o documentário “Luz Anima Ação” (2013), de Eduardo Calvet.

cinema de animação brasileiro nasceu provocador, criativo e herdou sua comicidade das charges e quadrinhos. Foi assim que ocorreu com “Traquinices de Chiquinho e seu Inseparável Amigo Jagunço”, da Kirs Filme. Contemporâneo de “O Kaiser”, o curta surgiu das histórias em quadrinhos da revista Tico-Tico e retratou situações rotineiras do povo brasileiro. Dele não restaram registros visuais.

No resgate da memória a procura do filme animado mais antigo e preservado, revela-se “Macaco Feio, Macaco Bonito” (1929), de Luiz Seel e João Stamato. O enredo simples acompanha as aventuras de um macaco que foge do zoológico. Os traços foram fortemente influenciados pelos trabalhos dos norte-americanos Walt Disney (Mickey), irmãos Fleischer (Popeye) e dos estúdios Sullivan (Gato Félix).

Já em questões de longa-metragem, considera-se o clássico “Sinfonia Amazônica” (1953), de Anélio Latini Filho. O filme é protagonizado por Curumim, um indiozinho que narra sete histórias folclóricas da região amazônica. Em preto e branco e sonorizado, Latini possuía poucos recursos técnicos para realizar o feito épico e levou cerca de seis anos para concluir 500 mil desenhos. Exibido nos cinemas, o filme foi um completo sucesso de público.

O segundo longa foi o primeiro realizado em cores. Sem incentivos estatais ou privados, o quadrinista amazonense Álvaro Henrique Gonçalves finalizou “Presente de Natal” (1971) em São Paulo. A distribuição foi uma barreira que impossibilitou sua exibição pelo País, ficando restrito a Manaus. No ano seguinte, “Piconzé” (1972), do animador japonês naturalizado brasileiro Ypê Nakashima, conseguiu obter maior repercussão. Diferentemente de “Presente de Natal”, sua cópia, em cores, foi preservada.

O cinema brasileiro de animação na história mundial

“O Kaiser”, de 1917, é considerada a animação brasileira mais antiga que se tem registro. Imagem: Reprodução

A primeira animação do cinema mundial foi apresentada em 1908. O diretor francês Émile Cohl deu vida a seus desenhos com “Fantasmagorie“, exibido no Théâtre du Gymnase, em Paris. Apenas nove anos depois, aconteciam no Brasil as experimentações iniciais na área. A Argentina foi a pioneira nos filmes de longa duração. Quirino Cristiani, com a sátira política “El Apóstol” (1917), supera Walt Disney e “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937) em 20 anos.

Apesar do Brasil ter sido um dos países precursores da animação, algumas lacunas técnicas e históricas o colocaram em atraso. Para essa análise, basta observar o intervalo de tempo entre as produções da primeira década. “Macaco Feio, Macaco Bonito”, por exemplo, foi realizado após 11 anos de seu antecessor, “As Aventuras de Bille e Bolle” (1918), de Eugênio Fonseca Filho.

“Aventuras do Virgolino”, de Luiz Sá, ficou perdida por quase oito décadas. Foto: Reprodução

Outro obstáculo relevante ao desenvolvimento foi a censura. No fim da década de 1930, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, o cearense radicado em São Paulo, Luiz Sá, produziu o curta “Aventuras do Virgolino” (1938). Em 1941, durante a visita de Walt Disney ao Brasil, o animador foi impedido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de exibir seu trabalho. A justificativa foi que o filme não tinha qualidade suficiente para ser apresentado.

Nos anos 1960, criou-se no Rio de Janeiro um núcleo de profissionais da animação. O Centro de Estudos de Cinema de Animação (Ceca), no entanto, não resistiu ao período da ditadura e ressurgiu como Fotograma. O grupo realizou mostras no Museu de Arte Moderna e manteve um programa televisivo sobre animação. Pedro Ernesto Stilpen ‘Stil’, Antônio Moreno, Carlos Alberto Pacheco, Sérgio Bezerra, Rui e Jô Oliveira assinaram “O Coelhinho Sabido” (1967), “Palhaço Domador” (1967), “Status Quo” (1968), “O Cristo Procurado” (1980), entre outros mais.

O desenvolver da história

Contemporâneos do Fotograma, Rubens Lucchetti e Bassano Vaccarini criaram o Centro Experimental de Ribeirão Preto (Cerp). O animador Roberto Miller uniu-se à dupla após retornar de um período no National Film Board (NFB), agência de cinema do governo do Canadá e referência internacional em desenhos animados. Trazendo técnicas inovadoras, Miller tornou-se um dos precursores da animação abstrata e experimental no Brasil.

Produções originais de animadores do Cerp foram premiadas no Brasil e exterior. Algumas delas foram Voo Cósmico (1961), de Lucchetti e Vaccarini, que recebeu o Fotograma de Ouro do I Festival de Cinema de Salvador; “Rumba” (1957), medalha de prata no Festival de Lisboa; e “Som Abstrato” (1957), de Miller, medalha de prata no Festival de Bruxelas, Prêmio Saci de São Paulo e Menção Honrosa no Festival de Cannes em 1958.

A consagração internacional da animação brasileira veio de fato anos depois, em 1981. “Meow”, de Marcos Magalhães, ganhou notoriedade ao receber o prêmio especial do júri em Cannes. O curta é fruto de uma inquietação política e critica a globalização desenfreada por intermédio de um gato. O próximo trabalho de Magalhães, “Animando” (1983), reafirma sua maestria técnica e narrativa.

Quatro anos após Cannes, Marcos Magalhães assumiu a coordenação do primeiro curso profissional de animação do Brasil no recém-fundado Centro Técnico Audiovisual (CTAv). Essa foi uma das consequências do acordo de desenvolvimento cultural e tecnológico Brasil-Canadá. Os equipamentos, doados pelo National Film Board, foram fundamentais para formação de novos animadores.

A década de 1980 revelou ainda o primeiro longa de animação produzido fora do eixo Rio-São Paulo. O nordestino “Boi Aruá” (1985), do artista plástico e animador baiano Francisco Liberato, foi o quinto filme brasileiro e apresenta traços de regionalismo. A estética é inspirada na literatura de cordel, o enredo manifesta a cultura popular e a trilha sonora mescla o clássico ao regional.

Produções para a TV e meios digitais

Outro marco dos anos 1980 foi a chegada da turminha do Limoeiro ao mundo televisivo. Maurício de Sousa iniciou uma das maiores empreitadas do mercado brasileiro de animação ao lançar séries da Turma da Mônica. Os personagens dos quadrinhos já protagonizaram oito filmes para o cinema e centenas de episódios para televisão.

“As Aventuras da Turma da Mônica” (1982) ainda hoje é considerada a maior bilheteria da animação nacional, ultrapassando a marca de 1 milhão de espectadores. Mas seu crescimento não parou por aí. Em 2018, a Maurício de Sousa Produções vai lançar uma nova série animada para o Cartoon Network. No meio digital, a Turma da Mônica marca presença no YouTube, com quase 5 milhões de inscritos, e uma série direcionada ao público da plataforma, “Mônica Toy“.

A publicação da Leia da TV Paga (Lei 12.485, de 2011) marcou o início de uma próspera fase. A determinação concedeu uma cota para produções brasileiras independentes dentro da programação dos canais fechados e incentivou o desenvolvimento de produtoras. Em 2016, foram exibidas 78 horas inéditas de conteúdo nacional e independente em canais fechados, segundo a Ancine. Entretanto, esse desenvolvimento ainda se concentra no Sudeste (68%), seguido do Nordeste (10%), Centro-Oeste (6%) e Norte (3%).

Imagens do storyboard de "Peixonauta - O Filme", produção da TV PinGuim que será lançada nos cinemas em 3D. Imagem: Reprodução

Imagens do storyboard de “Peixonauta – O Filme”, produção da TV PinGuim que será lançada nos cinemas em 3D. Imagem: Reprodução

A TV PinGuim, uma das pioneiras no mercado, é testemunha das consequência da lei. Em associação com a Discovery Kids, produz conteúdos que unem entretenimento e educação. “Peixonauta” e “O Show da Luna!”, criadas por Célia Catunda e Kiko Mistrorigo, são produções de destaque internacional, exibidas em mais de 80 paísesO peixinho astronauta expandiu sua presença nas telonas com os longas “Peixonauta – Agente Secreto da O.S.T.R.A. (2012) e “Peixonauta – O Filme”, que será lançado nos cinemas em 3D.

No Cartoon Network, o número de produções brasileiras na programação dobrou após a Lei da TV Paga. Atualmente, oito animações originais estão no canal: “Turma da Mônica”, “Sítio do Picapau Amarelo”, “O Irmão do Jorel”, “Historietas Assombradas (para Crianças Malcriadas)”, “Gui e Estopa”, “Tromba Trem” e “Carrapato e Catapultas” (esta em sua última temporada). As séries são exibidas em toda a América Latina, dubladas em espanhol, e também estão disponíveis na Netflix.

Outro nicho de destaque são as animações musicais no YouTube. “Galinha Pintadinha“, de Juliano Prado e Marcos Luporini, e “Mundo Bita“, da pernambucana Mr. Plot, compõem o imaginário de uma geração conectada. A Galinha Pintadinha é o maior canal do gênero na plataforma, com 8,5 milhões de inscritos, enquanto Mundo Bita atingiu a marca de 1 bilhão de visualizações. As produções estão presentes também nos serviços de streaming, canais de TV paga e pública, produtos licenciados e espetáculos.

A consolidação nos animados anos 2010

Os anos 2000 trouxeram bons resultados não apenas para a TV, como também para o cinema brasileiro. Por dois anos consecutivos o Brasil ganhou o Festival de Annecy, a mais importante premiação do cinema de animação do mundo, considerada o “Oscar” de filmes do gênero.

“Uma História de Amor e Fúria”, de Luiz Bolognesi, recebeu em 2013 o prêmio Cristal de melhor longa em Annecy. Com estética herdada das HQs, o enredo se desenvolve em uma revisão (e previsão) de 600 anos do Brasil. Tendo como pano de fundo o romance entre um guerreiro imortal e Janaína, a história passa por quatro fases:  a colonização, a escravidão, o regime militar e o futuro, em 2096, quando haverá guerra pela água.

“O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, ganhou o Cristal no Annecy de 2014 e foi indicada ao Oscar de Melhor Animação em 2016.

No ano seguinte, “O Menino e o Mundo“, de Alê Abreu, faz a “dobradinha” da animação brasileira no Annecy. O filme teve grande repercussão internacional e excelente receptividade da crítica. Com passagem em mais de 50 festivais e vendido para mais de 80 países, conquistou outra marca inédita: uma indicação ao Oscar em 2016. “O Menino e o Mundo” competiu da na categoria de Melhor Animação com “Anomalisa”, “As Memórias de Marnie”, “Shaun: O Carneiro” e, o vencedor, “Divertida Mente”.

Em 2017, nenhum brasileiro concorreu na categoria principal. “Tito e os Pássaros”, de Gustavo Steinberg, foi o único longa selecionado, participando na categoria para filmes em produção. Na mostra de curtas, estiveram “Vênus – Filó a Fadinha Lésbica“, de Sávio Leite, e “O Poeta das Coisas Terríveis“, de Guy Charnaux. A próxima edição do Annecy acontece em junho de 2018 e vai prestar uma homenagem à animação brasileira.

A mulher na animação brasileira

A presença masculina é predominante na história da animação, não só brasileira, como também mundial. No cenário nacional, 28% das pessoas que trabalham com animação são mulheres, segundo o estudo “Eu Sou Animação no Brasil”, da Universidade Federal de Minas Gerais. Os dados levam em conta a participação feminina nos variados cargos que envolvem o processo de criação, montagem e finalização.

Internacionalmente, a pioneira foi a alemã Lotte Reiniger, autora do primeiro longa europeu de animação, “The Adventures of Prince Achmed” (1926), e criadora da técnica de animação de silhuetas. No Brasil, o reconhecimento de uma animadora acontece bem depois. A primeira brasileira a receber um prêmio internacional foi Rosana Urbes, com “Guida“, em 2014. Ela venceu dois prêmios no Annecy, cinco no Anima Mundi e conquistou outros 70 mundo afora.

Nos bastidores do Anima Mundi estão Lea Zagury e Aida Queiroz, que há 25 anos fundaram o festival ao lado de César Coelho e Marcos Magalhães. A criação do Anima Mundi foi um impulso para os animadores dentro do mercado nacional, que se encontrava em processo de consolidação. Com edições anuais em São Paulo e no Rio de Janeiro, é reconhecimento como a mais importante plataforma de fomento à animação do País e uma das maiores realizações internacionais para o cinema do gênero.

Na edição de 2016 do Anima Mundi, “O Projeto do Meu Pai”, de Rosaria Moreira, foi destaque entre os curtas brasileiros. A aclamada desenhista apresentou uma história autobiográfica e intimista sobre a relação com o pai e levou quatro prêmios: Melhor Curta no Rio de Janeiro, Prêmio Canal Brasil, Prêmio BNDES e Melhor Curta Brasileiro. Em 2017, nenhuma animadora brasileira foi premiada.

Mariana Caltabiano foi pioneira nas realizações nacionais em 3D para o cinema. Em 2011, realizou o feito inédito com “Brasil Animado”, que mescla live-action e animação tradicional. É dela também a produção do primeiro longa brasileiro comprado pelo Cartoon Network, “As Aventuras de Gui & Estopa” (2006). Sua trajetória é marcada por outras produções para a TV, entre elas “A Turma da Garrafinha” (1998-2001), exibida pela Rede Globo, e Zuzubalândia (1998), atualmente na TV Rá-Tim-Bum.

Iniciativas independentes ao redor do mundo apoiam o trabalho de resistência e representatividade da mulher no mercado da animação. O Tricky Woman, que acontece em Vienna, é um festival dedicado exclusivamente a curtas animados feitos por mulheres. Há ainda o Women In Animation, comunidade global de animadoras que surgiu para apoiar as mulheres na arte, ciência e negócio da animação.

No Brasil, Jamile Coelho e Cintia Maria, diretoras da série em stop motion “Òrun Àiyé“, comandam iniciativas semelhantes de fomentação ao desenvolvimento de novos cineastas afro-brasileiros em Salvador (BA). Elas criaram o Núcleo Baiano de Animação em Stop Motion, voltado para a promoção do empoderamento social, geração de renda, cidadania e fortalecimento identitário de jovens negros e negras.

O que virá depois?

Apesar de produções relevantes terem sido realizadas nos anos 1980 e 1990, a história da animação brasileira ganha maior visibilidade a partir dos anos 2000. Dados da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA) registraram 216 filmes de animação produzidos no Brasil nos anos 1990. Já entre os anos de 2000 e 2014, esse número subiu para 373 (72% a mais do que na década anterior).

Leis de incentivo, editais e investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) contribuíram significativamente para o desenvolvimento e expansão. No entanto, o meio carece de um diálogo para melhor entendimento do mercado. As animações possuem um maior potencial de exportação e retorno financeiro, porém, a demanda de tempo e de recursos para a produção são superiores. Questões como essas nem sempre são observadas nos editais, o que acaba afastando profissionais e inviabilizando projetos.

“Lino”, de Rafael Ribas, foi comprado pelos estúdios Fox e exibido em centenas de salas no Brasil. Imagem: Divulgação

O Brasil demanda ainda de capacitação continuada e de investimentos para formação de novos profissionais. Os núcleos de animação em universidades públicas são raros e as criações, muitas vezes, partem de iniciativas dos próprios alunos. Como consequência dessas barreiras, grandes nomes da animação brasileira se formam fora do País e nem sempre retornam, como Leo Matsuda, primeiro brasileiro a assinar um filme da Disney, com o curta “Trabalho Interno

A ABCA, contudo, avalia positivamente o crescimento da animação e é otimista quanto ao futuro. Diferentemente de países como China, Coreia, Filipinas e Índia, que oferecem mão de obra barata para produções hollywoodianas, o Brasil mantém-se firme em sua proposta de produzir conteúdo autoral, inclusive para exportação. Para citar um exemplo, temos “Lino“, de Rafael Ribas, comprado pelos estúdios Fox e exibido em 400 salas do Brasil.

A produção brasileira é reconhecida e cresce positivamente não apenas em quantidade, mas, sobretudo, em sua qualidade. O que se faz necessário para a perpetuação dessa história são estratégias de capacitação, incentivos públicos e privados, além de, claro, janelas para exibições no território nacional. Afinal, não é possível falar em valorização e reconhecimento se não houver acessibilidade.

A imagem de destaque pertence ao vídeo do processo de criação de “O Menino e o Mundo”, da Filme de Papel.

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