O movimento cinematográfico na Bahia das décadas de 1970 e 1980 não seria o mesmo sem Guido Araújo. Ele foi um dos membros do Coletivo Moacyr Fenelon na era pré-Cinema Novo e assumiu a frente de resistência à ditadura militar ao criar a Jornada de Cinema da Bahia. Enquanto cineasta, assinou documentários integrantes da Caravana Farkas (1960-1970), filmando a desconhecida cultura popular.

Em um artigo publicado pelo Caderno de Cinema, Guido faz um relato sobre o processo de criação e filmagem do que chamou de “trilogia do Recôncavo Baiano”. Maragogipinho (1969) foi o precursor. O registro etnográfico apresenta os oleiros das cerâmicas de caxixi e o processo de criação, na vila de Maragogipinho.

Artesã pinta os detalhes finais das cerâmicas de caxixi, produzidas na Vila de Maragogipinho.

Artesã pinta os detalhes finais das cerâmicas de caxixi, produzidas na Vila de Maragogipinho.

Mas foi em Nazaré das Farinhas, às margens do rio Jaguaribe, onde Guido despertou seu olhar para a vivência popular. Perceptivo, conheceu a rotineira Feira da Banana, uma reunião de quase cem saveiros carregados de mercadoria que se enfileiravam no cais e causavam rebuliço no comércio local.

Anos depois, lança Feira da Banana (1972/73), segundo da trilogia e já em cores. Em seu retorno ao vilarejo de Nazaré das Farinhas para as novas gravações, novas surpresas. Deparou-se com a construção do “ferry boat” e da Ponte do Funil. A movimentação dos saveiros de carga que registrava com suas lentes estava fadada a virar passado.

Em "Feira da Banana", Guido Araújo acompanha a movimentação na tradicional feira ribeirinha que acontece às quartas-feiras.

Em “Feira da Banana”, Guido Araújo acompanha a movimentação na tradicional feira ribeirinha que acontece às quartas-feiras.

Conclui a trilogia com A Morte das Velas do Recôncavo (1976), fechando o ciclo de transformação dos ribeirinhos e do universo mercantil no paraíso da Baía de Todos os Santos. O documentarista analisa os diferentes tipos de embarcação e faz uma abordagem sócio-econômica em torno do problema: a cultura popular e secular sendo engolida pelas demandas do capital.

Guido, Nelson e a Jornada de Cinema da Bahia

Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, foi um prenúncio do Cinema Novo. O filme marco da história adaptou elementos do neorrealismo italiano e revelou as misérias do paraíso brasileiro dos anos 1950. No núcleo original da produção, batizado de Coletivo Moacyr Fenelon, estava o nome de Guido Araújo, que voltou a acompanhar Nelson em Rio Zona Norte (1957).

Com as experiências adquiridas no meio cinematográfico, Guido movimentou a cena artística e cultural baiana ao criar em 1975 a Jornada de Cinema da Bahia. O festival promovia (devido a falta de apoio e o envelhecimento de seu criador, deixou de existir) algo além de um encontro para exibição e discussão de filmes. Em plena ditadura militar, transformou-se em um movimento de contestação ao regime em vigência.

A história de Guido, enquanto cineasta e realizador cultural, foi retratada na série O Senhor das Jornadas. Dirigida por Jorge Alfredo, a produção acompanhou sua trajetória desde o tempo em que uniu-se ao Coletivo Moacyr Fenelon, passando por sua passagem pela Checoeslováquia, onde conclui sua formação, e retornando ao Brasil, quando inicia a carreira de documentarista e cria a Jornada.

Guido Araújo faleceu nesta quarta-feira (27), aos 83 anos.

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