Quando dirigiu seu segundo filme, em 2008, Marília Rocha já flertava com a incerteza do pertencer, essa arritmia causada pela iminência da partida. Acácio conta a história verídica de um casal português que deixou o país de origem para encontrar novas oportunidades de vida em Angola, vindo morar no Brasil após 30 anos de estadia na colônia lusa, às vésperas de sua independência. Num segmento da película, Marília narra: “Acácio e Conceição nos receberam em uma casa povoada de bibelôs portugueses e peças africanas. Ela trazia ecos do passado, e indicava que o Brasil era para eles um lugar sem raízes, de onde planejavam um dia retornar à terra natal.”

Oito anos depois, o quarto longa da cineasta – um híbrido de ficção e documentário – propõe um novo ensaio sobre a busca por reinventar-se, e achar o seu lugar no mundo, com imigrantes de mesma nacionalidade em contextos distintos. Enquanto Acácio mostra idosos revivendo memórias e encarando a morte com placidez, após muito terem vivido e presenciado, A Cidade Onde Envelheço (2016) retrata duas moças, no auge da juventude, arriscando as primeiras empreitadas fora de Portugal.

Francisca (Francisca Manuel), que chegou ao Brasil há quase um ano e mantém uma rotina de trabalho num boteco, se prepara para receber a amiga de infância em seu apartamento de dois quartos no edifício Vila Rica, no centro de Belo Horizonte. Apesar de só conseguirmos discernir o lugar de cada cômodo após um bom tempo de metragem, o design de produção aqui é intuitivo – móveis de madeira, prateleiras recicláveis, pequenos vasos de planta e roupas penduradas nas portas cedem ares de modéstia e aconchego ao ambiente.

Na primeira sequência, acompanhamos a chegada de Teresa (Elizabete Francisca) à capital mineira através de uma câmera intimista, que alterna entre um cochilo na poltrona do ônibus, e o amanhecer de BH que vaza pela cortina das janelas. A cidade a recebe em silêncio, como uma demonstração de carinho pela forasteira que descansa, e que terá, já na rodoviária, a primeira interação sobre as banalidades de seu passado.

Mais tarde, após recepcionar Teresa acanhadamente, Francisca pergunta à amiga quanto tempo pretende ficar, uma vez que não está habituada a dividir o apartamento, e precisa deixar o imóvel em breve. Temos o vislumbre de duas personalidades adversas que coexistem: a serenidade e o realismo de uma encontrando o sonho e a insensatez da outra.

“De onde venho, meu velho, e para onde vou?”. Imagem: Reprodução/A Cidade Onde Envelheço

A cinematografia conduz os diálogos improvisados entre as atrizes em plano e contraplano, evidenciando suas diferenças comportamentais de forma sutil. A frequência com que são flagradas no mesmo frame progride junto à narrativa, a partir de quando ambas admitem sentir falta do mar de Lisboa.

Aliás, o filme se situa nesse impasse entre a nostalgia e a descoberta. “De onde venho, meu velho, e para onde vou?”. A saudade de casa misturada a passeios com o cachorro, idas ao supermercado, à loja de vinis, a bares e shows, entre gargalhadas. Tudo remete a memórias de nosso próprio dia a dia, em lugares pelos quais passamos e deixamos um pedaço de nós.

Somos amálgamas de nossas experiências. Além do desbravamento, A Cidade Onde Envelheço suscita um novo olhar para o conhecido, para o trivial. Um exercício de sensibilidade sobre os sujeitos e uma deliciosa celebração das incertezas, das companhias e de tudo aquilo que nos faz humanos.

Texto de Vítor Nery publicado originalmente no Contracenário. Imagem de destaque: Bianca Aun/Divulgação

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