“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”. Susllem Meneguzzi Tonani, 28 anos, figurinista na Rede Globo, assediada no trabalho por José Mayer, 67 anos, ator renomado.

Ela falou, publicou uma carta aberta e o caso virou polêmica nacional. Dividiram-se as opiniões, a Rede Globo precisou enfrentar uma crise de imagem. Assim vieram explicações (ainda que bem controversas e difíceis de engolir), ações punitivas contra o agressor e campanhas contra o assédio ganharam forças. Tudo isso porque ela falou.

E falar sobre o assédio e o agressor é um passo para a denúncia e a exposição de atitudes que não deveriam ser toleradas com “normalidade” no meio social. Essa situação de violência, infelizmente, é mais cotidiana do que homens ou até mesmo as próprias mulheres possam reconhecer.

Um projeto para dar voz às vítimas

Para ampliar as discussões de gêneros que se propagaram nas redes sociais através de hashtags como #meuprimeiroassedio #agoraequesaoelas #meuamigosecreto, surgiu o projeto Precisamos Falar do Assédio. A iniciativa propõe levar as discussões da internet para além dos caracteres, ocupar as ruas, provocar as pessoas, instigar a falar, mostrar a importância de não se calar. As duas grandes faces do projeto estão na criação do site e um documentário, de nome homônimo, que reuniu depoimentos de vítimas de assédio sexual.

Precisamos Falar do Assédio tem a premissa de destacar números reais, expor casos e dar voz às mulheres. Dirigido por Paula Sacchetta (Verdade 12.528 e Quanto Mais Presos, Maior o Lucro) e com produção da Mira Filmes, o documentário passou pelas telas de alguns dos maiores festivais nacionais e inicia agora sua carreira de exibições comerciais, em canais de TV paga e serviços de streaming (o filme está disponível gratuitamente no NET NOW).

Falar para externar, ouvir para entender e conhecer para mudar

Por que remexer em uma experiência tão doída e, às vezes, que já acontecera há tanto tempo? Por que relembrar? Por que mostrar o rosto quando se passou por algo tão horrível? Por que esconder o rosto quando se passou por algo tão horrível? Por que não se ter ao certo pra quem recorrer? Por que é difícil conseguir justiça nos casos? Por que falar do assédio?

As gravações do filme Precisamos Falar do Assédio aconteceram dentro de um estúdio móvel que percorreu nove regiões entre São Paulo e Rio de Janeiro durante a semana da mulher, em 2016. Nesse período, 140 mulheres de diferentes classes sociais e padrões de estética deram seus depoimentos. Elas tinham idades entre 14 e 85 anos quando foram violentadas em diferentes ambientes e contextos, desde o mais banalizado tipo de assédio nas ruas até casos de estupro.

Assistir aos 26 casos que estão narrados no filme não é fácil. Por vezes há a necessidade de parar, respirar, enxugar as lágrimas e conter a vontade de gritar bem alto. São 26 casos. São 26 mulheres. São 26 vidas. Mais triste ainda pensar que esse número não é um limite e que iguais a elas existem tantas outras com experiências semelhantes.

O assédio infelizmente é muito comum e a mulher, em um mundo que une elementos do machismo, da desigualdade e violência de gênero, torna-se uma presa. Um terço das 140 mulheres gravadas usou máscara. Podemos imaginar explicações para isso, como o medo de aparecer e ser reconhecida, de ser encontrada pelo agressor, por sentir vergonha, tristeza, desconforto ou qualquer outro sentimento intraduzível.

Detalhe da gravação de um dos depoimentos que compõem o documentário “Precisamos Falar do Assédio”, de Paula Sacchetta. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O que fica claro é que, independente do tempo que se passa do ocorrido, aquelas mulheres que relataram suas experiências, sozinhas, numa van escura, tiveram suas vidas mudadas para sempre. Algo foi arrancado delas. Questiona-se o por quê de ver um documentário que carrega tanta dor, angústia, violência; do por que escutar horrores e por que aquelas mulheres quiseram reviver horrores através de suas memórias compartilhadas.

A resposta que parece mais acertada passa pelo próprio intuito do projeto: precisamos falar do assédio para combatê-lo. Quando uma mulher fala, denuncia, o tabu do silêncio se quebra e possibilita chegarmos ao problema para, então, trabalhar para resolvê-lo.

Não há o que se falar em culpabilização da vítima: são vítimas. Ela não está errada, não está querendo e nem pedindo por usar qualquer tipo de roupa. Somente o agressor gera a agressão e esses são os únicos culpados. As mulheres são livres e de iguais direitos. Não há hierarquia no trabalho, casamento, a hora que sai e como sai na rua.

O documentário esclarece aquilo que não deveria ser questionado: não há justificativa para cometer o crime de assediar uma outra pessoa. A fala da mulher é uma ferramenta social transformadora, que pode aquecer o debate e, assim, provocar questionamentos, o reconhecimento e o combate à violência sexual, verbal ou psicológica.

Precisamos Falar do Assédio é um projeto dinâmico e vivo, que se refaz a todo momento por aquelas que relatam suas experiências e para quem as ouve, transpondo as barreiras do isolamento e da escuridão que essa violência acarreta.

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