Consagrado como uma das figuras heroicas do cenário artístico nacional, Antônio Pitanga recebe uma homenagem digna através de Pitanga. Com ajuda da sutileza do olhar de sua filha, Camila Pitanga, que codirige a produção ao lado de Beto Brant, o documentário revela vida e obra do ator, como também traça um retrato intimista.

Antônio Pitanga vivenciou alguns dos momentos de maior inquietação artística do cinema brasileiro, o Cinema Novo, trabalhando ao lado de Glauber Rocha, Cacá Diegues e Walter Lima Jr.​ Ao longo do documentário, somos encantados por resgates históricos de cenas do cinema brasileiro das quais participou, como em Bahia de Todos os Santos (1960), de Trigueirinho Neto, ou em Barravento (1969) e A Idade da Terra (1960), ambos de Glauber Rocha.

O forte posicionamento político e ideológico do ator fica implícito em suas lembranças compartilhadas, mas Pitanga não se prende apenas ao percurso político ou artístico. O documentário, que recebeu o Prêmio da Crítica na Mostra Internacional de São Paulo e o Melhor Filme Júri Popular da Mostra de Cinema Tiradentes, nos é apresentado como um “almoço de domingo” e desvenda o lado existencial do protagonista.

Com leveza e naturalidade, recebemos o convite para adentrarmos em sua intimidade e desfrutarmos de suas memórias entre amigos e familiares. É como se Pitanga nos contasse uma história, de forma muito bem humorada e inteligente, assim como ele é. No filme, depoimentos de amigos como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lázaro Ramos, Paulinho da Viola, Milton Nascimento e Zezé Motta, além dos filhos Camila e Rocco Pitanga, são um complemento à construção da história.

A montagem consegue equilibrar doses de diferentes sentimentos, passando por momentos de bom humor e construindo instantes de forte de emoção. Trazer pessoas importantes da vida de Pitanga foi uma decisão acalentadora. A presença daquelas pessoas, conhecidas da memória popular brasileira, são confortáveis para relembrar dos grandes momentos que vivenciaram juntos na frente da cena artística, mas também em seus bastidores.

A fala de autoridade de Pitanga desperta a reflexão sobre diversos preconceitos sustentados pela sociedade brasileira. Estão presentes ali questões como racismo, política e também espiritualidade. O discurso apresentado vem num momento muito oportuno do nosso país, em que minorias tentam ser caladas e os males da sociedade veem à tona. A tolerância e respeito à diversidade torna-se aula ao longo do filme, que estreia com uma missão corajosa de tocar em discussões relevantes e atuais, mas de forma leve e muito particular.

Pitanga é um filme necessário para o resgate, preservação e reconhecimento de uma importante figura artística, política e também familiar. Um registro que emana energia, digno para exaltar uma das figuras heroicas, vivas e presentes de nossa história. O documentário certamente tornou-se um dos melhores do gênero que já pude ver. Se o intuito era transmitir a humanidade, talento e a bela e alegre alma de Antônio Pitanga para as gerações presentes e futuras, o objetivo foi atingido com vigor.

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