Na periferia de Salvador, a curta temporada do Circo Tropical faz a alegria da criançada do bairro. Quem anuncia o espetáculo é Jonas, de 13 anos, responsável por montar a bilheteria, ensaiar os artistas iniciantes e preparar o quintal de sua casa para erguer o circo sem lona.

A história desse garoto com espírito circense é retratada pelos olhos da cineasta Paula Gomes em Jonas e o Circo Sem Lona. Jonas é um garoto comum, que tem um cotidiano semelhante a tantos outros garotos de periferia do Brasil, criado por sua mãe e sua avó, sem a presença de uma figura paterna.

Chegar a esse “lugar comum” é o ponto-chave do documentário. As imagens captam a beleza da naturalidade, mas sem disfarçar os sintomas da pobreza material que habitam o lugar. Em profundidade, Jonas… revela seu foco na investigação das perspectivas de uma criança, a passos de entrar na adolescência, que alimenta sonhos.

Enquanto os noticiários na rádio e televisão discutem o aumento do envolvimento de jovens menores de 16 anos na criminalidade e a redução da maioridade penal, Jonas é repreendido na escola por não assistir às aulas e não ser um exemplo para seus colegas. Em casa, uma mãe superprotetora e tão sonhadora quanto o filho planeja um futuro repleto de oportunidades para o garoto, mas distante do circo.

A inocência do olhar e naturalidade do personagem, ainda que às vezes pensada, constrói uma relação afetiva não apenas entre a diretora, que se retira do “por trás das câmeras” e não esconde a sua parcialidade, mas também com o espectador. Apesar de surgir o desejo de encontrar soluções para os conflitos vivenciados por Jonas, o documentário não pretende apresentar uma resolução para o presente ou futuro.

Paula Gomes cria um manifesto, levantando a bandeira a favor da infância e do brincar, direitos nem sempre garantidos às crianças. Alguns dos amigos de Jona são a prova disso, já que se dividem entre o circo, os estudos e responsabilidades que deveriam ser de adultos. O direto do brincar foi tema de outra produção brasileira do gênero, Tarja Branca (2014), de Cacau Rhoden, com a qual Jonas… dialoga muito bem.

O documentário traça um paralelo entre Jonas, Paula e suas respectivas equipes do circo-cinema. Os desafios de fazer e viver de arte expostos por ambos os lados demonstram um confronto entre os sonhos e a realidade constituída de padrões. A contraposição desses fatos leva ao questionamento de métodos tradicionais de ensino e a maneira que eles podem (ou não) ser determinantes no futuro de uma criança.

Na confusão interna de uma mente pueril em transformação, Jonas questiona a diretora sobre o que será do documentário se seu circo acabar. O que seria do cinema sem histórias e personagens sonhadores? Jonas e Paula deixam evidenciar o desânimo ao serem confrontados pela realidade. Esse mesmo sentimento é transmitido com uma perda de ritmo da narrativa, talvez inevitável frente ao sentimento de que “tudo está acabado”.

A simplicidade assumida não retira do documentário sua essência e profundidade. Sem apelações, Paula Gomes desperta no espectador o sentimento de empatia pela causa de Jonas, ao tempo em que o faz participante de sua vida, sendo testemunha de significativas etapas de seu amadurecimento. Jonas e o Circo sem Lona é um delicado relato de sonhadores.

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