A estreia de Joaquim, de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), às vésperas do feriado nacional de Tiradentes é simbólica. Nas telas do cinema, a história de Joaquim José da Silva Xavier é contada sob uma ótica humanizada e personificada do então revolucionário nacional.

No filme, que concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2017, Julio Machado interpreta o histórico personagem, protagonista do movimento que seria chamado posteriormente de Inconfidência Mineira. Tiradentes foi uma das figuras-chave na conspiração separatista que visava por fim à exploração de minérios praticada por Portugal no Brasil Colônia.

Apesar de ser uma obra livremente inspirada e não ser fidelizada à história real, somos imersos no mundo do revolucionário, mas também amante personagem. Sua paixão pela escrava Zuaa (Isabél Zuaa) é sua motivação para conquistar a promoção a tenente da corte portuguesa (assim, poderia comprá-la e livrá-la da opressão). Também faz parte de sua saga liderar uma equipe de quatro homens para encontrar terras com ouro à mando da rainha portuguesa.

Joaquim não se trata de uma cinebiografia, mas pelo contrário. A heroicidade e veneração histórica de Tiradentes são colocadas em questionamento no filme. O protagonista é retratado como um homem bruto, sem nada de psicologia em mente. A ficção questiona a ideia de realidade dos fatos históricos e o diretor trabalha constantemente a humanização do homem da Inconfidência Mineira.

Não só o lado humano é retrato contra a romantização ou heroicização. Joaquim também revela o lado obscuro da história. A segregação racial e social, defendidas pelo escravo João (Welket Bungué) e o índio Inhambupé (Karay Rya Pua), e o machismo opressor sofrido pela escrava e negra Zuaa são provocações feitas ao longo do filme. A corrupção da elite também é um tema que não ficou de fora, sendo retratado com sutileza nas entrelinhas.

Os eventos de cunho político-social são sem a intenção de ser didático. Muito do que Joaquim quer transmitir está implícito e o objetivo é estimular o público a pensar, como também fazer um paralelo com os dias atuais. Surgem na mente questionamentos sobre como a sociedade brasileira lidou com questões como preconceito e corrupção ao longo de sua evolução histórica.

Joaquim é muito mais que uma obra de entretenimento. Com autoridade e segurança, Marcelo Gomes apresenta um cinema pensante, capaz de despertar uma visão filosófica e sociológica de como devemos lutar contra o retrocesso (ou a favor da evolução histórica).

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