Em uma entrevista concedida à estudante de Comunicação Social Marina Simões, em 2011, Eduardo Coutinho dispensou o deslumbre por seu trabalho. Ele não queria se fazer de herói, tampouco aceitar o título de grande cineasta, documentarista e jornalista. O que queria mesmo era ser reconhecido como um homem comum, que gostava de ter uma câmera na mão e compreender as pessoas através de suas lentes.

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Em 2014, a vida de Coutinho chegou ao fim de maneira trágica e dolorosa, mas deixou um legado de sabedoria às gerações de cineastas, jornalistas e, principalmente, cidadãos brasileiros. Confira abaixo uma seleção do Assiste Brasil de nove documentários essenciais para formação política, social e cultural:

1. Cabra Marcado para Morrer (1984)

Pode-se afirmar que Cabra Marcado Para Morrer foi a produção que deu nome a Eduardo Coutinho. O documentário, que começou a ser produzido em fevereiro de 1964, deveria retratar a história do líder da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, João Pedro Teixeira, assassinado em 1962. No entanto, com o golpe militar, no dia 31 de março, a locação no engenho da Galileia foi cercada, e as filmagens interrompidas. Após 17 anos, Coutinho retornou à região e reencontrou a viúva de João Pedro, Elisabeth Teixeira – que até então vivia na clandestinidade, e tantos outros camponeses que participaram das gravações.

2. O Fio da Memória (1991)

Personagem de O Fio da Memória, de Eduardo Coutinho. Foto: Reprodução

Personagem de O Fio da Memória, de Eduardo Coutinho. Foto: Reprodução

Filmado originalmente em 16mm, O Fio da Memória foi realizado entre 1988, ano de centenário da abolição, e 1991, no Rio de Janeiro. Coutinho faz um mosaico sobre a experiência negra no Brasil a partir do retrato de Gabriel Joaquim dos Santos, artista popular semianalfabeto e trabalhador de uma salina. Personagens e situações cotidianas refletem as criações do imaginário, sobretudo na religião e na música, como também focalizam a realidade do racismo, responsável pela perda de identidade étnica e marginalização.

3. Santo Forte (1999)

Entre uma missa campal celebrada pelo Papa no Aterro do Flamengo e, meses depois, a comemoração do Natal, o documentário penetra na intimidade dos católicos, umbandistas e evangélicos de uma favela carioca. Cada um a seu modo, eles creem na comunicação direta com o sobrenatural através da intervenção de santos, orixás, guias ou do Espírito Santo.

4. Edifício Master (2002)

Doze andares, vinte e três apartamentos por andar e, ao todo, duzentos e setenta e seis apartamentos conjugados. Esse é o emblemático prédio de Copacabana, a uma esquina da praia, que dá nome ao documentário. Eduardo Coutinho e sua equipe alugaram um apartamento no prédio e, durante sete dias, filmaram a vida de seus moradores. Pessoas comuns que revelam à câmera seus dramas, sonhos, sentimentos íntimos e, em muitos casos, a solidão.

5. O Fim e o Princípio (2005)

Sem pesquisa prévia, sem personagens, locações nem temas definidos, uma equipe de cinema chega ao sertão da Paraíba em busca de pessoas que tenham histórias para contar. No município de São João do Rio do Peixe, a equipe descobre o Sítio Araçás, uma comunidade rural onde vivem 86 famílias, a maioria ligada por laços de parentesco. Graças à mediação de uma jovem de Araçás, os moradores – na maioria idosos – contam sua vida, marcada pelo catolicismo popular, pela hierarquia, pelo senso de família e de honra.

6. Jogo de Cena (2007)

Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio. Em junho de 2006, vinte e três delas foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas. O “Jogo de Cena” é descobrir a verdade, propondo ao telespectador uma reflexão sobre o que é real e o que é ficção.

7. Um Dia na Vida (2010)

Quinta-feira, dia 1º de outubro de 2009. Eduardo Coutinho passa 19 horas gravando ininterruptamente o que é exibido em todos os canais de televisão aberta do Brasil. Do material, faz um resumo de uma hora e meia do que os telespectadores recebem diariamente. Na íntegra no Youtube.

8. As Canções (2011)

Nesse documentário, Eduardo Coutinho reúne homens e mulheres para compartilhar histórias de músicas que marcaram suas vidas.

9. Últimas Conversas (2015)

Realizado a partir de entrevistas feitas com jovens estudantes brasileiros pelo cineasta Eduardo Coutinho antes de sua morte (em fevereiro de 2014), o documentário busca entender como pensam, como sonham e como vivem os adolescentes de hoje. Foi editado por sua parceira de longa data, a montadora Jordana Berg, e concluído por João Moreira Salles.

EXTRAS – Eduardo Coutinho frente às câmeras:

Eduardo Coutinho – 7 de Outubro (2013)

Uma entrevista, uma tarde, uma locação, um único personagem. Partindo das “prisões que libertam” no cinema de Eduardo Coutinho (diretor de documentários como Cabra marcado para morrer, Edifício Master e Jogo de cena, entre outros), o filme inverte o jogo e coloca o maior entrevistador do cinema brasileiro em frente às câmeras para uma entrevista conduzida por Carlos Nader. O diretor se utilizou da fiel equipe do próprio Coutinho na produção, do diretor de fotografia à montadora.

Coutinho.doc – Apartamento 608 (2009)

O longa “Coutinho.doc – Apartamento 608” apresenta os bastidores desta produção do saudoso diretor. Desanimado com os personagens, Eduardo Coutinho chegou a cogitar não rodar o título ao receber os primeiros resultados da observação. Com o cigarro a postos e um ar fatigado, ele questionava o interesse que os depoimentos poderiam suscitar na plateia. Convencido pela equipe, ele decidiu levar o projeto adiante. Diretora, roteirista e produtora mineira, Beth Formaggini trabalhou com Eduardo Coutinho nos filmes Babilônia 2000 (2000), Edifício Master (2002) e Peões (2004).

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