Glauber Rocha definiu o cinema como a “consciência nacional”, o “espelho intelectual-filosófico da nação”. Para além do entretenimento, o cinema é uma ferramenta de provocação social, capaz de construir um discurso que estimula a construção do pensamento crítico e representa também um ato político.

Enquanto a crítica internacional consagra “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, articulações políticas internas agem na tentativa de diminuir a relevância da obra dentro de seu próprio País. Comprovações como essas, principalmente inseridas no atual contexto sociopolítico brasileiro, ressaltam o papel social do filme.

Após quatro anos do intenso “O som ao redor”, o cineasta pernambucano apresenta um filme que se aprofunda em questões relacionadas à memória e resistência. A jornalista e crítica musical aposentada Clara (Sonia Braga) é a última moradora de um antigo edifício na orla de Boa Viagem. Todos os outros moradores venderam seus apartamentos para uma construtora interessada em erguer um novo empreendimento no local.

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A empreiteira declara guerra à moradora e inicia uma estratégica, incansável e tensa perseguição. A personagem de Sonia Braga é a personificação da palavra “resistência”. Assim como o edifício Aquarius, o corpo de Clara também é sua morada. As marcas que carrega representam sua história e preservar memórias é a forma de comprovar sua existência, reafirmando sua presença ativa no meio social.

Sonia Braga, ícone do cinema dos anos 1970 e 1980, constrói uma sólida relação com Clara e personagem-atriz tornam-se um só elemento. Ela entrega-se ao papel da mulher de 65 anos que não quer abrir mão do controle de sua vida, liberdade e história. A identificação entre personagem e atriz é inegável. Sonia entrega-se não apenas a Clara, mas também à si própria, em uma injeção de energia e rejuvenescimento, resultando em uma de suas melhores (senão a melhor) atuações.

A construção da protagonista como uma crítica de música foi uma escolha decisiva para ressaltar a importância do som no filme. Em “O som ao redor”, o som foi utilizado com primazia pelo diretor e transformado em personagem na trama. Agora em “Aquarius”, a música (ouça no Spotify) retorna para despertar a memória afetiva a partir de uma percepção sensorial do passado e presente.

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Kleber aposta em movimentos de câmera ousados e confirma seu domínio da linguagem cinematográfica com a construção primorosa de uma narrativa e estética autorais. Os enquadramentos inesperados despertam variados sentimentos, da repugnância à ira. A fotografia do filme, assinada por Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, endossa a grandiosidade e ambição presentes na trama, além de definir a identidade plural do lugar.

Assim como Nova York remete a Woody Allen ou Spike Lee, a imagem do Recife já está atrelada às obras de Kleber. Indo mais além, o cineasta demonstra o desejo de construir um universo recifense próprio de seus filmes. Dinho, o traficante e neto do “coronel” Francisco em “O som ao redor”, faz uma rápida aparição em “Aquarius”. Irandhir Santos, apesar de vir como o bombeiro Roberval, está mais uma vez presente em um desfecho surpreendente.

Desenvolvendo eixos ligados ao tema central, o diretor não perde a oportunidade para denunciar e debater outras questões e tabus sociais. A sexualidade de Clara e seus sentimentos, de desejo, medo e inseguranças da mulher, ganham cenas de destaque. Os abismos sociais e a paranoia da classe média por segurança, que busca proteção entre grades, muros, condomínios fechados e vigilância 24h (assunto sempre presente em seus filmes), são outras provocações feitas ao longo do filme.

Seja no Recife das telas do cinema ou da realidade, as empreiteiras têm mais poder que a lei. Mas não é sempre que conseguem superar a força do povo. Não foi à toa a identificação do recifense que, ao fim da sessão no Cinema São Luiz, ovacionou o filme sob gritos de “ocupar, resistir”. Kleber Mendonça Filho construiu uma obra que denuncia, critica e adiciona voz a um grito de sobrevivência. “Aquarius” e Clara, dois seres em um espírito, resistem e vivem.

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