“Quanto maior o orçamento para a produção, mais o lugar da mulher está ótimo como assistente. Vamos mudar isso falando, falando e falando”, disse a cineasta paulistana Anna Muylaert, durante debate com a cartunista Laerte Coutinho. O encontro ocorreu no Memorial da América Latina, no bairro paulistano da Barra Funda, como parte da programação do 11º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo que neste ano homenageou Anna.

Durante o encontro, mediado pela youtuber Foquinha, elas comentaram sobre os desafios que mulheres encontram no cenário artístico e a questão do debate de gênero, um dos pontos de discussão presente no novo longa-metragem da cineasta, Mãe Só Há Uma. O filme trata da história de Pierre, um jovem de 16 anos que vê sua mãe presa por ter sequestrado o rapaz ainda bebê.

Obrigado a se adaptar em sua nova família, Pierre (vivido por Naomi Nero) ganha o nome de Felipe. Este cenário de mudanças bruscas faz com que o jovem encontre sua identidade, afirmando-se transgênero diante de seus pais rígidos. “O protagonista passa por um processo de reconhecimento pessoal, porém esse filme não é sobre transgeneridade, nem sobre roubo de crianças. Essas questões fazem parte da história que tem sua densidade própria. Quem assiste é capaz de reconhecer as realidades simbólicas que atingem a todos”, comentou Laerte.

Anna afirmou que foi inspirada na história de um garoto que ganhou os holofotes da imprensa em 2002. Aos 16 anos, Pedrinho vivia com sua mãe, que a Justiça descobriu ter sequestrado o jovem ainda na maternidade, em 1986. Após investigação e realização de exames de DNA, os pais biológicos conheceram enfim o seu filho. “Existe uma livre inspiração no caso do Pedrinho. Sempre pensei como seria ter essa dramática alteração na vida, inclusive de classe social.”

Machismo

A cineasta paulistana já trabalhou como roteirista em projetos como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) e Xingu (2011), ambos em parceria com o diretor Cao Hamburger. Como diretora e roteirista, Anna assinou os longas Durval Discos (2002), Chamada a Cobrar (2012) e É Proibido Fumar (2009), além de diversos curtas. Foi, porém, com o premiado Que Horas Ela Volta? (2015) que atingiu o ápice da carreira, até então.

O filme, estrelado por Regina Casé, ganhou prêmio máximo do júri no festival de Sundance e foi o escolhido do Brasil para concorrer a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Nesse caminho, a cineasta afirmou ter encontrado dificuldades, entre as quais o machismo. “Está presente em todo o mundo, inclusive no profissional. Tive dificuldades não só do mundo para mim, mas também de mim para mim”, conta.

“Minha educação foi machista e tive vários limites colocados por esta orientação”, diz Anna. “Por exemplo, no início, trabalhava duro em produções e na hora do crédito, não colocavam meu nome. Eu achava normal. Demorei até ter certeza do que estava acontecendo. Depois disso veio a disparidade de salários. Cheguei a fazer um trabalho em parceria com um homem: eu ganhava x e ele 10x.”

Entretanto, segundo ela, a maior provação em relação ao machismo surgiu após o sucesso com seu longa de maior sucesso. “Conquistei meu espaço até chegar em um ponto, no Que Horas Ela Volta?, que encontrei ali o clube do bolinha. Levei muita rasteira, atropelada, agressão mesmo. Foi onde mais senti, depois de muitos anos de carreira. Chegar em um lugar de valor financeiro e poder, aí chega o problema. É só ver dos 100 maiores filmes de todo ano, tem um ou dois dirigidos por mulheres”, afirma.

“Percebi que é assim: ‘mulherzinha pode fazer curta, filminho de arte’. Existe uma grande resistência que eu estou tentando ajudar a quebrar. Hoje, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) determinou que todo edital deve ter paridade de gênero na comissão julgadora de novos projetos. Excelente, agora provavelmente isso vai se refletir. É uma questão de representatividade. E temos que brigar para isso acontecer”, avalia.

Para exemplificar a disparidade no tratamento entre homens e mulheres por trás das câmeras, Anna cita as séries de grande orçamento. “Nunca me chamaram para dirigir nenhuma. Então, eles chamam diretores muito menos experientes, com currículo muito menor, porque o mercado, quanto mais dinheiro tem, menos confia na mulher. Parece que aquele carinha de 28 anos e camiseta polo vai far certo e a mulher com cabelão e dois filhos não: ‘vai que ela engravida?’”, ironizou. “Não esperava encontrar tanto machismo como encontrei. Homens não aceitando que um filme de sucesso tenha sido escrito e dirigido por uma mulher. Tentaram me anular, mas não conseguiram”, completou.

Agora consagrada, com dois filmes em menos de dois anos, Anna quer descansar. Terminou o debate dizendo que deve buscar um bom tempo no campo, com sua família, para pensar em um novo projeto. Ela adiantou que o tema de seu futuro filme deve ser justamente a naturalização do machismo na sociedade.

* Texto de Gabriel Valery publicado originalmente na Rede Brasil Atual 

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