“Após denúncia anônima, exame de DNA confirma: Pedrinho é filho de Maria”. “Sequestrado quando bebê de um hospital de Brasília”. “Ele diz querer ficar com a mãe adotiva”. “Se condenada, ela pode pegar de quatro a 11 anos de prisão”. Os recortes de jornal datados de 2002 remontam ao caso Pedrinho, que inspirou o novo filme de Anna Muylaert (Que horas ela volta?). Nesse enredo, não há Pedrinho nem Maria, mas há Pierre/Felipe (Naomi Nero) e Aracy (Dani Nefussi), e uma pergunta: o que acontece quando um jovem, em construção da identidade de si mesmo, tem a família de criação desmontada?

Do caso Pedrinho, Mãe só há uma se inspira no roubo de um bebê que é descortinado após 17 anos. Não existe a ambientação de Brasília por trás do sequestro, muito menos detalhes para transformar o argumento em algo mais realístico. Não é o foco, que tem câmera subjetiva e um fundo musical de rock sobre a vida privada/pública de Pierre — tanto que a personagem Aracy, após ser presa, não volta a aparecer na trama. É esse mesmo Pierre que confronta, desde o início, o que é ser homem e – por que não – o que é ser mulher, ao aparecer vestindo um gorro de animal. O tratado aqui é a fluidez do gênero e sexualidade.

Como filme que busca a representação, Mãe só há uma não abre mão da metáfora do espelho (que também é elemento do roteiro de longas como o francês Tomboy, sobre a transexualidade na infância), de frente para o qual Pierre se despe e veste calcinhas quando se fotografa. Ali, a selfie também funciona como espelho, por registrar o “eu público”. E, ainda sobre a busca da representação de Pierre como sujeito não binário (que dizer, que não necessariamente se identifica como homem ou mulher), um mérito da produção é mostrar como a mídia “socializa” esses corpos binários, entre masculinidades e feminilidades – um exemplo é a propaganda, vista pela irmã de Pierre, que promete acabar com as varizes nas mulheres.

A virada do filme se dá quando Pierre, diante da prisão da pessoa a que sempre chamou de mãe, encontra a nova família. Anna Muylaert volta a questionar e a tencionar a rigidez (evocada pela tradição) das instituições sociais. Enquanto em Que horas ela volta? Jéssica interpela o papel da empregada doméstica na sociedade brasileira, Pierre catalisa no novo trabalho da realizadora o horror social à transgeneridade ou ao ensaio de transgeneridade (Muylaert declarou em entrevista que Pierre é transgênero), em especial quando um homem se “veste” de mulher. Uma cena: quando os pais biológicos do adolescente, Gloria (também vivida por Dani Nefussi) e Matheus (Matheus Nachtergaele), veem o filho – nomeado por eles Felipe –escolher um vestido e Matheus ameaça esganar o jovem. A causa inadmissível: “assemelhar-se” a uma mulher.

Não se pode passar despercebido, porém, a forma sutilmente cômica que Muylaert conduz e problematiza essas tensões. A sessão que o Assiste Brasil presenciou, a primeira no Brasil, no último dia 17 de julho, em cerimônia do Cinema Escrito no Recife, de um Pierre embrulhado em um vestido e sentado ao lado dos pais, foi aplaudida e reverenciada com uma gargalhada coletiva. O riso pode ser escatológico e transformador. Tal qual o rock, que se diga, revivido na película como instrumento de mudança social. A atuação de Pierre/Felipe como músico de uma banda de rock não beira, no entanto, os estereótipos que poderiam ser facilmente atribuídos a um adolescente “rebelde sem causa”. Aliás, há rebeldia sem causa?

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Para um filme que pretende discutir a representação, não é um detalhe que este o tenha feito com uma câmera, quase que totalmente, subjetiva e focada nas mínimas expressões das personagens. Destaque para a partida da irmã de Pierre, também roubada quando bebê por Aracy. Assim como Aracy, essa irmã de Pierre não volta a aparecer no longa e o expectador apenas cria uma ideia vaga de como ela pôde ter se adaptado à nova família e à nova mãe. Em contra-partida, o irmão biológico de Pierre ganha mais holofotes, desde o pitoresco causo amoroso que trava ao telefone (sendo ele um pré-adolescente) até a sinceridade ao dizer que preferia seguir como filho único.

Apesar de não se estender aos coadjuvantes, a decisão de se debruçar sobre Pierre parece correta. O caso Pedrinho dá o alicerce à história, mas a potência dramática está na discussão sobre gênero e sexualidade de que trata Pierre, ainda que não fale diretamente ou textualmente sobre os temas. Em um filme cujo desfecho se dá apenas com o encostar de ombros entre irmãos recém apresentados, a linguagem não verbal é sobreposta à linguagem verbal.

Modernista e recifense, Manuel Bandeira escreveu que os corpos se entendem, mas as almas não. A fluidez com que Pierre passa a vida poderia concordar com Bandeira, revelando os privilégios de uma classe média heteronormativa e machista. Ao fim, não é sobre um bebê roubado, é sobre a premissa de uma vida que se entende e se materializa para além da figura do homem ou da mulher.

Trajetória

A primeira exibição de Mãe só há uma ocorreu na mostra Panorama do Festival de Berlim de 2016, onde foi premiado com o troféu Teddy de melhor filme com temática gay. Inicialmente previsto para chegar ao cinema brasileiro em agosto, o longa-metragem estreia por aqui nesta quinta-feira, dia 21 de julho.

Paulistana, Anna Muylaert é a realizadora de filmes como O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006) e É Proibido Fumar (2009), além do recente Que horas ela volta? (2015), que representou o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Ao todo, entre curtas, séries de televisão e longas, a diretora assinou 10 projetos ao longo da carreira. Leia também a nossa avaliação sobre Que horas ela volta?.

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