O cara da foto acima é Bené, vivido pelo ator Phellipe Haagensen no filme Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Katia Lund. O personagem foi criado pelo escritor Paulo Lins em seu livro homônimo. Para quem não conhece, Bené era um traficante, andava armado, tomava as bocas de fumo vizinhas, era amigo de todo morador, juntou todos os núcleos da favela em sua festa, namorava a menina de outra classe social e pretendia abandonar a vida do crime para morar com ela. Mas, no fim da história, acabou morrendo baleado por outro traficante e virou capa do meu perfil no Twitter. Tudo isso pra dizer que, além de ter me encantado, Bené é a romantização e humanização do marginal.

Precisa-­se analisar e perceber Bené. O processo de existência dele, mesmo imerso num universo agressivo e de criminalidade, sendo ele em muitos momentos propulsor dessa violência, mostra que há um coração querendo fazer o bem e se sentir bem, com a consciência tranquila. Tal fato fica exposto quando, já olhando diretamente para a obra Cidade de Deus, seu amigo mais chegado e companheiro no tráfico, Zé Pequeno, começa a se descontrolar nos atos de violência. Bené o repreende seguidas vezes e por fim anuncia o abandono.

Desde crianças, tanto Bené quanto Zé tiveram uma trajetória de vida e acontecimentos pessoais muito semelhantes. Bené decidiu mudar. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche certa vez disso que, no âmbito cultural e social, “o homem é algo que deve ser superado”. Pode-se dizer que Bené se supera por não ter se conformado com os valores culturais que sempre o foram impostos. Ele é contradição e transgressão: o bandido que quer fazer o bem, o traficante que quer ver as crianças felizes na favela, aquele que quis ficar tranquilo na vida do tráfico, mas a abandona por querer encontrar a verdadeira paz.

Bené é superação?

Então, Bené se superou, certo? Mais ou menos. Ele de fato tem a vontade latente de abandonar o crime e viver sua vida simples com Angélica, sua namorada. No entanto, os acontecimentos apontam que Bené quer “mudar de vida” para se tornar um “playboy” (ou “cocota”). Para explicar, os playboys são aqueles que vão até a favela comprar drogas, mantendo e fortalecendo o tráfico. Em Cidade de Deus, quando inicia uma verdadeira guerra pelo controle da comunidade, um dos playboys se une a Zé Pequeno para lutar ao lado de “seu exército”, pegando em armas e atirando. Nesse contexto, os cocotas se tornam tão marginais quanto os denominados bandidos.

Eis que surge a contradição de ser Bené, um jovem que quer deixar para trás a vida de marginal para continuar marginalizado. Sua escolha pode ser compreendida a partir de uma análise do contexto social, que imerge o personagem em caminhos que levam à solitária posição final de estar marginalizado. O universo e subsequente guerra às drogas acontece de maneira natural e Bené, em toda sua completude, é o resultado dela.

No livro homônimo, Paulo Lins escreve: “Fala a falha. Fala a bala”. E foi o que aconteceu. Bené tentou falar, dialogar com Zé Pequeno e consigo, tentando até mesmo superar a sua própria realidade. Mas, não conseguiu. Foi ouvido quem teve mais voz – e foi a bala quem teve a força. Bené, um marginal. Mau, bom, vivo e, por fim, morto.


Sobre o autor: Lucas França prefere o “nós” ao “eu” e promete que não é só posicionamento político. De vez em quando pega uma câmera e filma, além de escrever com mais formalidade para outros sites. Leia mais no Capivara Branca.

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