Nos anos 1960, até meados da década seguinte, Glauber Rocha liderou no Brasil o movimento do Cinema Novo, corrente artística que atacava o modelo narrativo importado dos Estados Unidos e se inspirava fortemente pelos movimentos europeus da Nouvelle Vague e Neorrealismo Italiano. Em 1970, quando já era um cineasta reconhecido por Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, viajou até a Espanha para gravar seu quinto longa-metragem: Cabeças Cortadas.

O reencontro de Glauber com a conexão Brasil-Espanha aconteceu por intermédio de Fermín Sales Segarra. Licenciado em Comunicação Audiovisual pela Universidade Jaume I de Castelló, realizou o seu primeiro documentário quando cursava especialização em Cinema Documentário pela Universidade Autónoma de Barcelona, no Mestrado de Documentário Criativo da UAB.  Nasceu, assim, o curta-metragem documental El Viaje Glauber.

As gravações de Cabeças Cortadas aconteceram na Espanha durante a ditadura do general Francisco Franco, período conhecido como franquismo. O longa retrato uma história de decadência, poder e delírio protagonizada por um ditador latinoamericano. O curta de Fermín , El viaje Glauber, parte do fracasso de Cabeças Cortadas para reivindicar o filme e o cinema de Glauber Rocha e o cineasta explica em detalhes na entrevista exclusiva para o Assiste Brasil:

Fermín, como aconteceu o despertar de seu interesse pelo cineasta brasileiro Glauber Rocha?

Descobri o Glauber aos dezoito anos numa viagem à Barcelona. No museu MACBA, na exibição chamada Estão Preparados para a Televisão?, projetaram numa tela gigante um programa inteiro de Abertura, que contava com a participação Glauber Rocha e era exibido na TV Tupi durante os anos de redemocratização do Brasil. Impactou-me muito ver aquela pessoa, assim, em primeiro plano, discursando e falando fervorosamente sobre as coisas que gostava e também as que não gostava; de seus costumes culturais. Essa fascinação me fez querer descobrir mais, foi assim que o conheci como um cineasta de primeira ordem mundial.

Foi então essa fascinação que fez surgir a ideia inicial do que viria a se tornar o seu primeiro documentário?

A ideia original nasceu de uma base obsessiva, partindo de meu interesse pelo tema. Interessa-me o cinema espanhol, o cinema da modernidade ou o grande cinema das periferias, e conhecendo o Glauber descobri que ele já havia filmado na Espanha. Na época, seu filme teve um sucesso estranho quanto à produção e resultado final. Saber disso me motivou a querer ir a fundo nesse pensamento. Parecia-me uma história muito interessante e totalmente desconhecida, a qual poderia ser transformada em uma peça documental.

Cabeças Cortadas (1970) é o quinto filme de Glauber Rocha e foi gravado na Espanha franquista. Foto: Reprodução

Como foi esse caminho da ideia à produção final?

Quando estava cursando o mestrado, pensei no projeto que desde o primeiro momento consistia nisso: Glauber Rocha filmou na Espanha nos anos 1970 e seria bom revisar o porquê, as causas do fato dessa filmagem em plena ditadura franquista, já que é uma coisa complexa ou estranha. Esse era um bom ponto de partida. Daquele instante em diante, o projeto foi tomando forma, passando por fases de produção e se desenvolvendo mais. Cade vez iam se incorporando mais companheiros ao meu trabalho e, finalmente, em um pitching de seleção de projetos para televisão pública catalana e espanhola, tive minha ideia escolhida para ser produzida e financiada.

Houve mudanças e adaptações nesse processo?

Da ideia original à ideia final, realmente mudou bastante. Vendemos o projeto no início como uma viagem à memória. Seria uma explícita: queríamos ir para um lugar e para outro, como um road movie, buscando as pegadas de Glauber. No teaser que apresentamos já tínhamos incluído duas cenas, uma da praia e outra filmada em Sant Pere de Rodes, mesmas locações utilizadas por Glauber em 1970. Foi um grande processo, com muitas crises e discussões, positivas e negativas, e também muitas mudanças. O que parecia sere um filme fácil no início, tornou-se um filme difícil; e depois foi fácil de novo. Foram muitos altos e baixos, como todas as produções, suponho.

Sobre a correspondência, as cartas trocadas entre o diretor e o produtor, como você as descobriu e decidiu utilizá-las na montagem?

Eu sabia da existência das cartas, mas as tinha rejeitado desde o início porque não as achava importantes. Elas nunca estiveram presentes no processo de construção do roteiro. No entanto, as cartas acabaram sendo introduzidas na montagem como voz de Glauber: que pensava o próprio diretor sobre o seu filme? Foi com essa questão que chegamos à conclusão de que poderiam ser válidas e complementar, assim, o diário de filmagem. Rapidamente a Filmoteca Valenciana as cedeu a nossa equipe. Esse detalhe realmente deu um peso fundamental, principalmente ao final do filme.

Cartas de Glauber Rocha que compõem a montagem do documentário El Viaje Glauber. Foto: Reprodução

No final do filme, numa das correspondências, o Rocha diz que Cabeças Cortadas foi uma biografia audiovisual do inconsciente de Franco. Você acha que isso foi assim desde o início?

Bom, ele dá esta visão dupla, que também reforça a mitologia e a simbologia que o filme pretende passar. Acho que Glauber não pensava em Franco quando escrevia o roteiro. Aquela era simplesmente uma continuação de Terra em Transe noutro contexto mais europeístico, mais cavaleirístico, mas que também trazia uma a referência nacional. Mas acredito também que essa comparação com o Franco é totalmente legítima.

Por quais festivais passou o documentário El Viaje Glauber e qual é a sensação de colher esses resultados?

Fico muito contente com o reconhecimento que teve o filme. Passamos na seleção oficial do Festival de Málaga, o mais prestigioso do estado, dedicado exclusivamente ao cinema espanhol, e também marcou presença em outros festivais de curta-metragens, como Corto y Creo, no Santander, e o Zinebi, em Bilbao. Esteve presente também no Festival de Sitges, numa secção paralela dedicada a novos criadores, além da estreia internacional no festival brasileiro FestcurtasBH, que pelo que eu sei é bastante prestigioso dentro do mundo da curta-metragem, com quem, portanto, também estou muito agradecido.

Assista ao documentário El Viaje Glauber, de Fermín Sales Segarra, Víctor Sanz, Estel.la Muñiz, Cristina Algarra y Davani Varillas, na íntegra:

 

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