Ideias aparente simples, mas que ao final revelam sua complexidade singular. Retratando a vida cotidiana e trazendo aos olhos questões sociais, o pernambucano Gabriel Mascaro construiu uma carreira sólida em passagem pelos maiores e principais festivais de cinema do Brasil e do mundo.  

Trazendo em suas obras o hibridismo de documentário e ficção, Mascaro revela as variadas faces de um Brasil. Indo de realidades luxuosas, no polêmico Um Lugar ao Sol (2009), às mais populares, como em Avenida Brasília Formosa (2010); tratando da questão de divisão de classes, discutido em Doméstica (2012), e sem esquecer de quebrar e rediscutir estereótipos, como em Boi Neon (2014).  

Ao longo de 10 anos de carreira, o artista e cineasta de 32 anos traz em seu currículo oito filmes, de longas e curtas-metragens, e divide seu tempo entre produzir instalações artísticas, escrever roteiros e, claro, dirigir filmes. Em uma entrevista sobre carreira, mercado e futuro, Gabriel Mascaro fala sobre seus trabalhos e compartilha do sentimento de estar por trás e frente às câmeras.  

Qual o conceito do cinema feito por Gabriel Mascaro?

É difícil definir isso de forma genérica e pragmática. Estou dentro de mim e não me olho de forma distanciada. Prefiro deixar esse trabalho para os críticos. A minha criação é orgânica: sai da alma, da cabeça, da pele e do coração.

Em sua filmografia, percebe-se o cuidado em produzir um cinema conceitual, sempre com uma pegada crítica. Por que optar pela busca de assuntos “polêmicos”?

Não é uma busca pela polêmica, mas sim o desejo de deslocar um ponto de vista. Fazendo isso, conseguimos chegar a “outros lugares”, onde a polêmica termina fazendo parte desse novo jogo de olhar.

Entre ficção e documental, alguns de seus filmes transitam no estilo híbrido. O que você considera no momento de optar por esse método?

É uma pergunta curiosa, mas na verdade não tem regra. Cada trabalho eu me envolvo com novos processos, novos desafios, e tento sair da minha zona de conforto. Em Boi Neon, meu último filme, por exemplo, foi a primeira vez que dirigi atores com experiência.

E em Ventos de Agosto, seu primeiro longa de ficção, você, além de dirigir, também atuou…

Neste filme, precisei acumular várias funções no processo para que meu corpo de realizador também entrasse no jogo de afeto e esforço do qual o filme estava a propor. Foi um processo de construção extremamente corpóreo e artesanal.

Acumular funções para você, no caso, foi uma opção, mas poderia ter sido uma necessidade. Quais as dificuldades enfrentadas pelos cineastas no mercado audiovisual que você destaca?

Fora as dificuldades para captar recursos de produção, o grande desafio a ser vencido numa escala maior é fazer com que os filmes cheguem ao público. Mas essa é uma briga que envolve até acordos na Organização Mundial do Comércio, devido ao lobby do cinema americano no Brasil. Um exemplo claro desse problema pode ser comprovado com Boi Neon. O filme, que entrou em cartaz no Estados Unidos e foi exibido no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, não entrou na programação das salas de cinema comerciais do Rio Mar e Shopping Recife, dois grandes shoppings de Recife (PE).

Quanto ao cinema pernambucano em geral. Como você prevê o crescimento de produções e do mercado local?

Estamos vivenciando em Pernambuco um processo muito saudável que mistura projetos de filmes ousados e originais, que se somam a uma consolidação de uma política pública estadual que até agora vem valorizando esse cinema de invenção. No entanto, está em curso uma série de mudanças nas leis de incentivo no estado de Pernambuco. Espero que não tenhamos retrocesso na política pública.

Para finalizar, uma autorreflexão. Você é um dos poucos cineastas desta década que, em tão pouco tempo, produziu filmes quase que ininterruptamente e esteve muito presente em festivais nacionais e internacionais, sempre colhendo bons resultados. O que você tem a dizer sobre isso? 

Trabalhei exaustivamente nestes últimos anos 10 anos para conseguir materializar as ideias. Hoje sinto que “bateu a canseira”. Os anos passaram e preciso diminuir o ritmo. O corpo já não acompanha mais a velocidade do cabeça, sempre a mil. Já estou trabalhando em um novo projeto, mas não ligado ao cinema. Meu próximo trabalho será uma série fotográfica sobre separações, chamado Desamar.

Edição: Fernanda Mendonça 

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