Desde a adolescência, Homero Olivetto foi seduzido pelo universo dos quadrinhos e teve o imaginário povoado por histórias do sertão contadas por seu avô. Foi unindo o útil ao agradável que realizou Reza a Lenda, sua mais recente produção. Chamado de “Mad Max do Sertão”, o longa é a prova de que o cinema brasileiro é capaz de fazer um filme de ação de baixo orçamento.

Na trama, Ara (Cauã Reymond) é o líder de um bando de motoqueiros armados que acredita em uma lenda que promete libertar o povo da região. Ao realizarem um ousado feito, acabam despertando a fúria de Tenório (Humberto Martins). Em meio a perseguições, a jovem Laura (Luisa Arraes) é resgatada de um acidente e obrigada a seguir com Ara, despertando ciúmes em Severina (Sophie Charlotte).

Em uma conversa especial com o Assiste Brasil, o cineasta Homero Olivetto falou sobre o processo de produção, representatividade feminina e o resultado de Reza a Lenda. Confira:

Ao assistir Reza a Lenda, nota-se que o filme vai contra as tendências do atual cenário audiovisual brasileiro e aposta na mistura de ação, western e road movie. O que o levou a apostar nessa ideia?

Quando idealizei Reza a Lenda, meu pensamento foi o de fazer um filme que eu gostaria de assistir. Assim, apostei em uma linguagem universal para falar sobre temas que sempre me fascinaram. É a revelação de um Sertão metafísico e do banditismo social, heroico e controverso de alguns personagens marcantes da região. Ainda não parei para comparar o resultado final com o roteiro, mas acho que, na mensagem que eu gostaria que o filme passasse, ficou bem próximo ao que esperava no princípio.

O filme permeia o universo religioso e também político. Como é lidar com esses contextos tão emblemáticos em um único projeto?

Reza a Lenda é um filme sobre opressão. Ele trata de um indivíduo lidando com uma natureza dura e implacável. Em lugares assim é mais fácil usar a religião e a política como instrumentos de opressão, infelizmente. A chuva, na cabeça de Ara e seu bando, em um primeiro momento, é a ferramenta mais óbvia e direta para derrubada deste universo opressor.

Um aspecto que chama bastante atenção em Reza a Lenda é a sua estética. Como foi o trabalho realizado “por trás das câmeras” para apresentar este resultado?

A estética do filme foi fruto de anos de pesquisa sobre o Sertão, o cangaço e de uma preparação de meses na região de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), buscando localmente todos os elementos estéticos do filme. As roupas dos motoqueiros, por exemplo, foram criadas tendo como base as pessoas que vimos trabalhando lá, sob o sol. As cabeças cortadas vêm da época das volantes e do cangaço; os balões são referência às festividades de São João e por aí vai. O filme, esteticamente, é completamente brasileiro.

Você destacou que foram “anos” de pesquisas e “meses” de preparação para realizar Reza a Lenda. Afinal, quanto tempo foi dedicado à produção do longa, desde a concepção da ideia até a sua finalização?

O primeiro tratamento do roteiro foi escrito em 2006. De lá até 2014 foi feito todo o levantamento de dinheiro e estruturação para produzir o filme. Em 2014, começamos a preparar as gravações em março, mas só vieram acontecer na prática entre os meses de outubro e novembro, em seis intensas semanas. A pós-produção, da montagem, edição de som e mixagem até a finalização de imagem, levou quase um ano.

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Sophie Charlotte em uma das cenas de “Reza a Lenda”. Foto: Divulgação

E o maior desafio enfrentado pela equipe durante este processo foi…

No meu caso, foi na hora de filmar. Era preciso conseguir fazer tudo o que o roteiro pedia em apenas 6 semanas, já que era aquilo que o orçamento do filme comportava. Na realidade, o roteiro pedia mesmo eram oito semanas de filmagens.

Os atores Cauã Reymond e Sophie Charlotte dividiram tarefas nesse projeto e, além de atuarem, também produziram. Quais foram seus papéis nesse processo?

Os dois tiveram papéis distintos. Cauã participou da captação do filme, opinou no roteiro, além de ter divulgado o filme como ninguém. Já a Sophie entrou mais tarde, quando já estávamos perto de filmar. Seu papel na produção foi ligada diretamente à divulgação, que também fez de uma maneira incrível. Na frente das câmera, Cauã e Sophie foram maravilhosos. O processo deles e o resultado superaram minhas mais otimistas expectativas.

Acredita que ter no elenco nomes conhecidos da televisão ajudou o filme a ganhar mais espaço nas salas de cinema pelo Brasil? 

Imagino que sim, mas pouco. Se o Brasil tem um star system, ainda está muito mais concentrado nos comediantes.

Reza a Lenda é repleto de referências a grandes obras do cinema e também do universo das HQs. Quais foram as principais inspirações para Reza a Lenda?

No tema do filme, as inspirações vieram das estórias que meu avô me contava. O filme é dedicado a ele. Na linguagem, foram várias as referências. Desde a série de mangás Afro Samurai, na sua pegada sensorial pop, até o estilo do cineasta Sam Peckinpah, principalmente nos tiroteios caóticos. Mas, como um todo, posso afirmar que os westerns foram a principal fonte de inspiração para construir a linguagem de Reza a Lenda.

Reza a Lenda foi chamado de “Mad Max do Sertão” em uma comparação ao filme de George Miller, Mad Max: Estrada de Fúria, destaque no Oscar 2016. No entanto, essa relação não se justifica apenas por questões estéticas. Assim como a produção norte-americana, seu filme, coincidentemente, trouxe a mulher com uma representatividade marcante no enredo. Como foi a recepção do público diante a esse olhar sobre as personagens femininas?

Acho que as pessoas se surpreenderam muito com a Sophie [Charlotte] de Severina. É uma personagem forte, mas ao mesmo tempo é uma líder natural que abre mão de muita coisa e mete os pés pelas mãos pelo amor cego que sente por Ara. Quanto a Laura, personagem de Luisa [Arraes], quando aparece na garupa de Ara, expõe a fragilidade e insegurança que Severina não conhecia. Severina, neste recorte do filme, está justamente em um momento frágil, de crise, assim como a maioria dos outros personagens, tanto homens como mulheres.

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