Em meio a tantos trabalhos, que vão desde palcos de teatro às telas de cinema, a atriz Zezita Matos, com seus 56 anos de trabalho dedicados à arte de representar, reservou um tempinho para conversar conosco sobre sua carreira e projetos. Confira:

Quando descobriu que queria tornar-se atriz?

Foi sendo atriz que descondi que queria ser atriz. Em agosto de 1958, em Campina Grande, num encontro de estudantes, conheci alguns jovens participantes do “Grupo de Teatro Popular de Arte” e recebi o convite de um deles, Breno Mattos, para participar de um espetáculo que estavam ensaiando. O espetáculo era “A Prima Dona” de José Maria Monteiro, com a direção de José Domingos Porto. Entrei para fazer uma pontinha e terminei fazendo o papel principal. Desde então, nunca mais parei.

Como começou sua relação com o cinema?

Na década de 60, especificamente em 1965, quando eu e os integrantes da turma, que faziam teatro na época, fomos chamados para um teste de elenco de Menino de Engenho, filme dirigido por Valter Lima Júnior. Fiz o teste e fui aprovada. Os anos passaram e somente em 2000 Marcus Vilar fez o convite para fazer A Canga, um curta com fotografia de Walter Carvalho. Depois foram surgindo outros convites, a exemplo de Marcelo Gomes com Cinema, Aspirinas e Urubus; Karim Ainoüz com o Céu de Suely; José Joffily com Olhos Azuis; Taciano Valério com Ferrolho; Petrus e Rosemberg  Cariry com Mãe e Filha e Os Pobres Diabos; Daniel Aragão com Boa Sorte, Meu Amor; Eric Laurence com Azul; entre outros.

Baixio das Bestas, Olhos de Botão e A História da Eternidade são alguns dos muitos filmes que você já trabalhou. Como você analisa seu crescimento profissional trabalhando ao longo dessa jornada?

Como não fiz graduação em Artes Cênicas, cada trabalho foi, ainda é e será sempre um aprendizado no metiér de representar. A cada trabalho vou acumulando conhecimentos, tanto da prática como nas leituras que costumo fazer, desde os clássicos, até os pós-modernos, que vão servindo de base à carreira de atriz e de cidadã.

Qual o diferencial das produções paraibanas e pernambucanas nas quais você já trabalhou?

Como sabemos, nas produções, sejam elas paraibanas, pernambucanas e, de certa forma, em todo o Brasil, tudo depende dos editais, entre federais, estaduais ou municipais. Hoje vemos que esta distribuição está mais equilibrada. Entretanto, a demanda cresceu e os recursos continuaram poucos. Os produtores estão criando formas alternativas para realizar seus projetos. Quanto ao número de obras realizadas, é inegável que Pernambuco tem uma história na cinematografia brasileira já consolidada. Cada um na sua forma está criando uma identidade no fazer cinematográfico pernambucano e, portanto, nordestino.

Quais as dificuldades para quem deseja entrar no mercado profissional, das artes dramáticas, com foco no cinema?

Bem, vou falar como atriz: hoje está mais “fácil”, acredito, pois temos em vários estados cursos universitários, como também cursos livres para atores. Porém, isto não garante trabalho e lugar para todos. Como nas outras áreas, em nosso trabalho de ator a concorrência é muito grande. Como sempre afirmo, sou a operária do teatro durante meio século. Foi e está sendo muito bom viver tudo que vivi. Lá se vão cinco décadas de muito aprendizado, de erros e acertos que, se pudesse, parafraseando Gonzaguinha, “começaria tudo outra vez”. O teatro foi o fio condutor desta trajetória. Os filhos e os netos a enriqueceram. E a educação e o cinema chegaram para a completar. O recado seria muita dedicação, estudo, determinação e comprometimento. Como diz o grande Guimarães Rosa: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Com um currículo de dar inveja, você já trabalhou com diretores a exemplo de Claudio Assis, Camilo Cavalcante, Petrus Cariry. O que cada um acresceu em sua carga artística?

Com todos aprendi, revi conceitos. Cada experiência é um mundo de informações e de aprendizagem. Agora me lembrei de um grande educador, Paschoal Lemme. Ao escrever suas memórias ele diz: “é que cada vida é uma vida, e a visão do mundo e as circunstâncias, em cada caso, (cada trabalho) são necessariamente diferentes”. Isto sem dúvida é o que o permite e consolida uma carreira e as opções que são feitas.

Como você avalia a qualidade do cinema produzido no Nordeste e qual o diferencial?

Poderíamos dizer, a grosso modo, que hoje e de algum tempo o cinema feito no Nordeste vem se destacando, haja vista, o cinema de Glauber Rocha nos anos 60. Considero como um cinema que vem capturando a complexidade do real enquanto ficção, sempre inserido nos problemas de uma sociedade concreta, historicamente circunstanciada e contraditória. Daí o seu diferencial na maioria dos filmes produzidos por aqui.

Publicado originalmente no Ora Película.

 

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