O lema “pátria de chuteiras” (ideia da cabeça de Nelson Rodrigues) foi incorporado pelo governo em 2014, mas o futebol vem sendo representação do que é ser brasileiro há tempos. A mídia (seja a tevê, o rádio ou o cinema) tem muito a dizer sobre esse processo de identificação (e nacionalismo) através do esporte. Em um país onde o passe de bola é discutido desde a mesa de bar até em reuniões de políticos, pouco é o retorno profissional para os atletas — se você coloca nesse jogo os amadores, então a conta nem fecha. O longa-metragem Aspirantes trás como pano de fundo o lado, digamos, menos glamoroso do futebol, através de um personagem introspectivo e de um cenário atravessado pelo estímulo de competição e inveja. E manda o recado.

Dois aspectos se ressaltam no roteiro de Aspirantes: o time que vira história é o pequeno Bacaxá, com campo decadente e sem muita estrutura para atletas (ao contrário do que nos chega em geral pela imprensa); e o melhor é que o longa não fala do principal jogador do time “aspirante”, mas de um quase perna de pau.

A primeira e a última cena do filme rememoram uma experiência paralela. Enquanto o acende e apaga das luzes estampam um Júnior (Ariclenes Barroso) à sombra no começo, o mesmo cara é quem berra (alerta para spoiler) ao marcar um gol no clássico do Bacaxá Futebol Clube, time pequeno de Saquarema (RJ), quase nos créditos. Esse é o primeiro jogo ao qual o filme convida o espectador: ao colocar em xeque o lugar do coadjuvante e do protagonista, porque é o universo de Bento (Sérgio Malheiros), carregado por Júnior após uma noitada, que aparece em uma primeira mirada.

Com o desenrolar da película, Júnior ganha cartaz e sua vida se revela. Ele mora com um tio e aparentemente não tem contato com outros parentes, tem pouca escolarização e precisa trabalhar à noite descarregando frutas no mercado para ajudar nas contas do tio alcoólatra. Mas é de dia que o jovem tece o sonho de infância, enquanto joga pelada com os amigos no pequeno time da cidade. Também no campo a amizade de Júnior e Bento se afirma, embora a relação tenha começado na infância. Interessante notar que esse gramado não é apenas lugar de passatempo, mas de choque, e isso muda tudo. A disputa para saber quem faz mais gols (e vira artilheiro com projeção para grandes empresas de futebol) gera inveja.

Júnior vê o amigo “crescer” com a possibilidade de ser contratado por um time grande. O que dá energia ao capitalismo — sistema que injeta dinheirama no futebol, envolve roubalheira e corrupção e chega até as peladas e times como o improvisado Bacaxá — é a relação dualista entre dinheiro e a vontade de ter dinheiro gerida pela inveja. Quando Bento se dá “bem”, o protagonista passa por uma série de dificuldades: sai da casa do único familiar e descobre que será pai em breve. A companheira do garoto é adolescente, mora com a mãe e estuda no colégio. Júnior, cheio de incertezas, tampouco tem suporte para criar o filho. A situação faz com que a inveja aflore nele, que briga com Bento depois de um treino para uma importante partida. O enfrentamento dos dois, porém, vai lesionar Bento e levá-lo para mesa de cirurgia.

O roteiro cola quando o futebol é historicamente uma das poucas formas de ascensão social entre pardos e negros no Brasil. O Censo 2010 do IBGE mostra que a porcentagem de negros e pardos sem escolarização é quase o triplo se comparada à de brancos. Por outro lado, a profissão aparentemente promissora de jogador de futebol paga até dois salários mínimos para 82% dos quase 31 mil jogadores registrados, segundo levantamento de 2012 da CBF. Apenas 2% ganham até R$ 12 mil – o passe de Neymar Jr ainda é “fichinha” perto disso.

Aspirantes costura todo o enredo, a jornada e as tensões com uma sequência de espaços ora muito luminosos ora em sombra e ao som ora quase ensurdecedore (como na primeira cena, em uma festa eletrônica) ora centrado no silêncio. O mérito é do diretor Ives Rosenfeld, à frente da parte técnica de som em 10 produções, incluindo As Cartas Psicografadas por Chico Xavier, em 2010, e Um Filme de Cinema, este ano. A fotografia é destaque nas cenas em que Júnior não precisa falar nada, apenas olha para o teto e sente. Ou quando é mostrado em uma escala mínima, se comparado ao cenário do campo de futebol. Ou, pelo contrário, quando a câmera se perde no grito dele, vibrando “gol”. Tensões, introspecção e subjetividade a partir do som e da imagem.

O filme concorreu no VII Janela Internacional de Cinema do Recife e antes passou pelo Festival do Rio, finalizado em outubro deste ano. Foi selecionado, ainda na fase de produção, como ganhador da Carte Blanche do Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. O diretor ganhou o equivalente a R$ 25 mil para finalizar o drama.

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