Uma atriz que foi a primeira entre os brasileiros a disputar um prêmio no Festival de Veneza e uma das poucas a ganhar uma bolsa na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Nome cravado na crítica artística brasileira e com atuação em mais de 40 novelas, 37 filmes e várias peças teatrais, a história de Ruth de Souza perpassa a distinção racial no Brasil (veja mais aqui).

Os anos iniciais de sua carreira na dramaturgia brasileira são relembrados no livro Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro: Relações Raciais e de Gênero nas Memórias de Ruth de Souza (UEA Edições), do historiador e professor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) Julio Claudio da Silva.

O lançamento de obra aconteceu em setembro, no Rio de Janeiro, e o Assiste Brasil conversou com o autor sobre Ruth de Souza, segregação racial no mundo das artes e outros assuntos que deveriam ser discutidos por todos nós, brasileiros e brasileiras. Confira abaixo.


Teatro no Brasil dos anos 1940

O teatro experimental do negro surge para ser um espaço de denúncia da ausência de atores negros no cenário artístico brasileiro. Pelos relatos que a gente encontra na documentação da época, não havia espaço pra atores negros, não havia personagens negros e que os poucos personagens negros existentes eram encenados por atores brancos pintados de negro, através de uma prática chamada de blackface [rosto negro, em tradução literal]. É num cenário de denúncia e de criação de espaço para atores negros que é fundado o teatro experimental do negro e tem início a trajetória artística da atriz Ruth de Souza.

A primeira peça: um passo histórico

Ela sempre pontua que há um acaso, há uma magia em chegar até a peça O Imperador Jones (1945). Ela entrou no Teatro Experimental do Negro e foi descobrindo que precisava de personagens negros pra montagem do elenco numa matéria do jornal. Ao mesmo tempo, a atriz fala que fez o teste e foi selecionada, mas ela não entra na dimensão política e na escolha do conteúdo de O Imperador Jones. Ela enfatiza essa questão importante para ser atriz: o fato de ter sido uma peça escrita por Eugene O’Neill [dramaturgo norte-americano]. Ruth enfatiza a questão do pioneirismo, mas a questão política não aparece.

Na minha interpretação como historiador, o que importa é que ela dedicou mais de 70 anos da sua vida a procurar espaço num meio racionalizado e onde não havia lugar pra atores negros. O que interessa é que ela lutou, no seu cotidiano, em busca desse espaço e para ampliá-lo aos atores negros. Só isso é o suficiente pra gente entendê-la como relevante personagem histórico na luta da sociedade brasileira.

Uma Ruth militante?

A atriz Ruth de Souza, nas suas entrevistas, se manifesta como sendo uma pessoa dedicada à arte, por ser uma pessoa que tem interesse na arte dramática. E não tinha preocupação com a militância política. Eu faço uma interpretação disso, eu acho essa é uma estratégia da construção de uma imagem pública de atriz dedicada e centrada na arte e que busca espaço no pantheon das grandes estrelas brasileiras e tenta n se envolver necessariamente com a questão política. Ao mesmo tempo, ela se orgulha de ter sido a primeira atriz negra a encenar no Theatro Municipal, a trabalhar com textos clássicos e com drama – a crítica via como incapacidade dos negros atuarem em papéis de carga dramática forte.

A cor e o verbo

Em geral, ela não fala da sua experiência de discriminação, do seu testemunho de descriminação enquanto atriz. O que ela faz é uma crítica de como os atores e diretores pensam os personagens negros de uma maneira estereotipa. Ela faz crítica à ideia da mammy, àquele personagem negro que tem que ser como a personagem norte-americana da negra gorda, e não uma camponesa magra. Ela faz uma crítica muito recorrente à sua experiência de discriminação racial na infância, antes de ingressar no teatro.

Um dos temas mais recorrentes nas entrevistas que a dona Ruth produziu é sobre a tese do menor valor mental do negro [sobre o negro ter cérebro atrofiado; tese defendida pelo sociólogo brasileiro Oliveira Viana no século 20 e combatida pelo acadêmico Arthur Ramos]. Ela fala de uma experiência na infância, quando estava estudando em um determinado espaço escolar no Rio de Janeiro e teve contato com um quadro de Debret com figuras do negro, do índio e do branco. Alguém teria dito que o negro teria a mente atrofiada e ela teria ficado constrangida e, a partir daquele momento, ela dedica-se a provar que ela não tinha o cérebro atrofiado, ela passou a dedicar-se a ganhar nota 10 na escola desde aquele momento.

O negro nas telas

Eu acho que a grande importância de a gente pensar a trajetória da dona Ruth de Souza é porque é um problema ainda na sociedade brasileira que ainda se encontra insoluto. Essa luta no cenário brasileiro é uma coisa que ainda está se construindo. Então a sociedade brasileira é marcada pela variável raça? Eu acho que a experiência da dona Ruth de Souza aponta que sim, há varias evidências de que a sociedade é marcada pela variável raça, sim, de maneira a criar uma desigualdade entre brancos e negros.

Eu penso que a partir do momento em que a gente não tem uma representação na direção e nos elencos que reflita numericamente o contingente negro da população brasileira – alguns consideram que são 50%, mas a gente não tem nada próximo a isso. Então o problema continua por ser solucionado. A arte é um espaço de identificação da desigualdade entre brancos e negros na sociedade brasileira.

Meritocracia ou racismo?

Se o mérito é uma questão fundamental nas sociedades ocidentais, um grande legado da Revolução Francesa, e o problema da desigualdade – como alguns dizem – não é a raça, mas é o mérito, a falta de qualificação, a falta de oportunidade e recursos econômicos, como responder a razão pela qual Ruth de Souza não se tornou a unanimidade em termos de reconhecimento de talento?

Infográfico: Vinícius de Brito/Inforgram

 

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