Um casal se beija enquanto a câmera se esconde atrás de folhas e rosas púrpuras. Na posição de voyeur está Marina (Aline Videira). No lugar do casal, Joana (Amanda Andrade), irmã de Marina, e Matheus (João Lucas Neto). Os namorados estão em traje de banho e mergulham em uma piscina de plástico. Contam os segundos debaixo d’água e borbulham. Minutos depois, Marina — de maiô — se acerca da piscina onde está o casal apaixonado, e surge uma relação sugestivamente conflituosa entre ela e a irmã mais velha, que se retira da piscina para não conviver com a presença de Marina. Na introspecção e no silêncio submerso, o filme Marina não vai à praia faz um convite ao mergulho nas expectativas de uma adolescente com síndrome de Down.

Premiado em festivais de curtas em todo mundo (no Brasil, vencedor do Festival Curta Brasília em 2014) e em seleção com outros 100 filmes em disputa no Oscar, a película do diretor mineiro Cássio Pereira dos Santos é gravada na sua terra natal, Cruzeiro da Fortaleza (MG), e percorre em todos os aspectos (nas imagens e no roteiro) o desejo de revelar Marina, que mora com a mãe (Cláudia Assunção) e a irmã, e nunca foi ao mar. São várias as cenas em que a protagonista se vê imaginando o oceano (o título internacional é Marina’s Ocean) a partir das fotos de juventude da mãe. Por extensão, o oceano é metáfora de liberdade e transição da própria Marina.

O curta segue mostrando a relação de Marina com o mar até explorar a possibilidade do encontro corpo-água, enfim, acontecer. Joana está no último ano de colégio e, como é de praxe, vai viajar com a turma até uma praia. Marina pede à irmã que a leve, mas a moça é rápida em negar o pedido da adolescente – o “não” é reforçado também pela mãe, que o justifica por motivo econômico. Marina, pensando em juntar dinheiro para conhecer o mar, corta as flores vermelhas do quintal de casa e as vende nos arredores da cidade. Em cima da cama, ela conta as moedinhas e não consegue mais que 20 reais.

Protagonista sonha em ver o mar de perto e relação é filosófica no filme. Foto: Paideia Filmes/Divulgação

Protagonista sonha em ver o mar de perto e relação é filosófica no filme. Foto: Paideia Filmes/Divulgação

Então, chega o dia da viagem. Joana vai conhecer o mar e está com mala e biquíni prontos. Após Marina dormir, a mãe das meninas leva a irmã mais velha até o ponto de onde sairá o ônibus da excursão. Mas Marina não dorme; ela está certa de que vai à praia. E vai, escondida, no ônibus. O filme, mais uma vez, mostra a relação de indiferença entre as irmãs: Joana, percebendo que Marina havia ido com a turma do colégio, se vê irritada e intransponível. Já Marina desfila com sorriso no rosto e contempla as ondas que vira nas fotos da sua mãe.

O que é primoroso em Marina Não Vai à Praia é a relação filosófica das águas do mar com a fase intensa pela qual vive a protagonista, tanto dentro de casa tanto com o mundo. É um filme que diz, no detalhe dos diálogos, que uma adolescente de 15 anos com síndrome de Down é, sobretudo, uma adolescente como qualquer outra – apesar de, no filme, ser muito retratada apenas no cenário doméstico; sem relação com o mundo de fora.

O realizador Cássio Pereira dos Santos também constrói Marina Não Vai à Praia como grande ato à intérprete de Marina, a atriz Aline Videira, morta em um acidente em 2014. Com sensibilidade e cuidado de atuação, Marina é, no final e no começo das contas, uma jovem mineira que nunca viu a cor do mar e que tem dúvida de que biquíni escolher para por no corpo. É um filme sobre a resistência e a visibilidade das pessoas com Down.

Assista ao curta completo (de 17 minutos) aqui:

Raio X do curta que pode representar o país no Oscar:

Marina.infográfico

 

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