Não por acaso O Menino e o Mundo (2013) surpreendeu críticos e conquistou mais de 30 prêmios em festivais e mostras de cinema nacionais e internacionais. Em tempos de hiper-realismo no cinema, com personagens tridimensionais que saltam da tela, o diretor e roteirista Alê Abreu optou por traços minimalistas, que parecem ter sido desenhados com giz de cera em uma folha de papel, para ressaltar a simplicidade e inocência do mundo, visto pelos olhos de uma criança.

O protagonista Cuca vive uma jornada em busca de seu pai, que saiu de casa para trabalhar em uma indústria e tentar oferecer melhores condições de vida a sua família. Do campo para a cidade grande, a partida do pai inicia a reflexão sobre o modo de vida contemporâneo e a maneira que a industrialização impactou as relações sociais. Assim como a clássica animação A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, O Menino e o Mundo destaca o contraste do mundo idealizado da infância com a realidade encarada pelos adultos.

Alê Abreu apresenta uma abordagem inovadora ao fazer uma animação que trata sobre temas sociais que condizem com realidade histórica do Brasil, como a desigualdade, pobreza, regime militar, exploração de mão de obra, mecanização do trabalho, impacto ambiental e o capitalismo selvagem que não chegou ao fim. Para dialogar com o público infantil, como também transmitir sua mensagem aos adultos, o diretor utiliza a simplicidade para construir os diálogos (ou não-diálogos). Os personagens de O Menino e o Mundo falam um idioma novo (na verdade, palavras invertidas em português), característica que evidencia a inocência da construção dialética de mundo aos olhos de uma criança.

Para simbolizar a diferença entre a vida familiar no campo e a agitação solitária da cidade grande; o passado e os tempos (pós-)modernos, dois tipos de cenários são construídos, utilizando cores e música – ou a ausência delas. Enquanto traços coloridos, que remetem à felicidade, simbolizam o campo, o caos da cidade, com ruelas confusas, favelas em forma de cones, fios e outdoors por todos os lados, é representado por uma mistura cinzenta e sem vida, com barulho de máquina e agitação. A transição entre as duas realidades é representada por um trem, que aos olhos de Cuca trata-se de um monstro gigante que engole os adultos, inclusive seu pai, e desaparece no nada, para sempre.

Alê Abreu consegue utilizar de maneira exemplar o fantástico, o lúdico e o surreal, no contraste entre sonhos e pesadelos, cores e cinzas, para despertar o espectador aos problemas sociais contemporâneos, intenção reafirmada pela trilha original Aos Olhos de Uma Criança, composta por Emicida. O Menino e o Mundo aposta na estética e abdica da linguagem falada por um motivo: tornar-se universal. E é dessa forma que tem o poder de emocionar e conscientizar todos os tipos públicos, sejam homens, mulheres, crianças ou adultos, que entendam ou não o português invertido falado pelo menino em seu mundo.

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